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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

O rapaz, com a voz sacolejada, descreveu a morte, toda a agonia da infeliz, lamentando a grande perda, a sua solidão no mundo. De repente, porém, a um grito mais agudo da irmã, notando que o homem afligia-se, franqueou-lhe o quarto:

— Entre, sem cerimônia. Minha pobre mãe!... — e precedeu-o, afastou-se escancarando a porta.

O homem agradeceu e, chegando-se ao leito, inclinou-se sobre Violante, chamando-a. As duas mulheres arredaram-se e Mamede, muito solícito, impondose, perguntou — "Se queriam alguma coisa da botica. Ia num pulo." O homem tranqüilizou-o:

— Isto passa, e sentou-se à beira da cama, afagando Violante, enxugandolhe o rosto.

Houve um momento de calma, ela pareceu haver adormecido. De repente, porém, rompeu a chorar e todos desabafaram: "Agora sim. Era disso que ela precisava." E, discretamente, retiraram-se, deixando-a só com o irmão e o amante. Quando ela recobrou os sentidos, quis ver a mãe, o homem opôs-se:

— Tem tempo. Estás muito nervosa. Descansa.

Ela, então, indagou como fora; e ao irmão:

— Por que não me mandaste dizer que ela estava tão mal? Coitada de mamãe! A que horas foi? E o enterro?

O amante consolou-a:

— Não te preocupes, há de arranjar-se tudo à tua vontade.

Paulo esmoía desculpas, muito humilde.

Só muito tarde, providencialmente, Mamede aparecera. Não tinha uma pessoa para mandar — estavam os dois sós, acompanhando-a — ele e aquela moça; a vizinha chegara depois. Demais, fora tudo tão rápido. Ainda na véspera ela conversara até tarde, muito calma; até pedira café. Uma coisa inexplicável!... e passeava arrepelando-se. Vendo, porém, que o homem sentava-se à beira da cama, oferecendo o ombro para que Violante repousasse a cabeça, retirou-se. Chegandose, então, ao cadáver, descobriu-lhe o rosto, inclinou-se com o cotovelo fincado na tábua, a fronte nas mãos, e ficou numa atitude desolada, imóvel, como pesando para uma alegoria fúnebre.

Quando Violante reapareceu todos se puseram de pé, olhando-a. Ela caminhou vagarosamente e, diante da mesa, com as lágrimas nos olhos, ficou esquecida, em contemplativa mudez. Paulo fitou-a e disse surdamente:

— Estamos sem mãe, Violante.

Mas o homem passou por ele, tocou-lhe de leve no braço.

— Dê-me o atestado, eu encarrego-me de tudo. O senhor, no estado em que está... Basta que vá à pretoria, é perto. — E, referindo-se à Violante: É melhor distraí-la. Vamos levá-la lá para dentro.

Ele concordou:

— Como queira; — e foi oferecer-lhe o braço.

Ritinha lembrou o café, era necessário para passarem a noite.

As dez horas o homem retirou-se. Violante acompanhou-o à porta, segredou muito tempo sobre o enterro, coroas, um vestido para mudar. E ele, afagando-a, desculpou-se:

— Bem sabes que não posso ficar contigo...

— Já fazes muito, meu velho. Vai, e não te esqueças. O vestido preto, sabes?

— Sei. Até amanhã. Cedo estou aqui. E descansa.

— Até amanhã.

— Até amanhã. — E, ao entrar no carro: Linda noite, hem? — É verdade.

O homem fizera sensação. Quando, depois do café, de novo reuniram-se para a vigília, Violante tomou-se o alvo de todas as atenções.

Sentada no sofá, muito quieta, mal respondendo às palavras do irmão, que referia pormenores tristes, de quando em quando suspirava. As duas mulheres, muito juntas, cochichavam.

Mamede passeava ao longo da sala, parando de instante a instante junto à mesa para espevitar uma das velas ou arranjar uma dobra do vestido da finada. A rua caíra em silêncio, o próprio mar parecia dormir.

Na pequena sala, nublada de fumo, tresandando a cera, o calor sufocava. Mamede ousou propor abrir uma janela.

— Não é melhor?

Paulo consultou a irmã.

— Que achas?

Ela encolheu os ombros:

— Se quiserem...

Logo o mulato escancarou as janelas. Uma lufada de ar entrou curvando as compridas chamas das velas e enfiou pelo corredor levando papéis esparsos.

Dentro uma porta bateu com estrondo.

CAPÍTULO XXV

Noite admirável. Nas águas mansas da baía o luar alastrava em esteira trêmula. Vultos negros de navios destacavam-se na sombra, com as lanternas altas, vizinhas das estrelas. Na fortaleza luziam focos opalescentes; longe estendia-se a iluminação do litoral fronteiro.

Um barco, todo negro, as velas abertas, deslizava. De repente entrou na zona iluminada e resplandeceu. Raro em raro um bonde passava com rumor; apitos trilavam e o murmúrio da onda na praia era suave como um respirar tranqüilo.

As velas crepitavam e, como o silêncio se fosse tomando incômodo, o mulato, mais ousado, rompeu-o:

— E é assim. A gente vai indo. Quem diria!... Parece que foi ontem que vosmecês nasceram. Eu ainda estou vendo Nhá Violante de vestido curto, puxando estica com nhozinho por causa de brinquedos. Nem vosmecês se lembram. Também eram tão pequeninos. E ela, coitada! contendo um, contendo outro, para não brigarem. Parece que foi ontem.

(continua...)

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