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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as cousas. Virem a Cintra, para questões e amuos, isso não! N'aquellas pandegas queria-se harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não. Então ficava-se em Lisboa, que era mais barato.

Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:

- Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha, dize-lhe que se não faça tola, que venha tomar café... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço eu!

Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda - e sahiu, atirando a Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.

Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario leval-as por bons modos; por isso é que ellas se pellavam por portuguezes, porque lá em Hespanha era á bordoada... Emfim, elle não dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas, não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se devia bater? Quando ellas não gostavam da gente, e se faziam ariscas. Então, sim. Então zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço... Mas depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas...

- Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. Maia que lhe diga se isto não é verdade, elle que tem tambem experiencia e sabe viver com hespanholas!

E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito - que Cruges desatou a rir, fez rir Carlos tambem.

O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para elles:

- Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir, que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter geito para hespanholas, cá o meco! E, vamos lá, que não é facil! É necessario ter um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de fazer bellos artigos e estylo catita...

Agora tragam-n'o cá para lidar com hespanholas e veremos! Não dá meia...

Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar á porta. Todo o hotel cahira n'um grande silencio, a Lolita não voltava. Então Palma aconselhou um grande passo:

- Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem menos, chegue-se ao pé d'ella...

- E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.

- Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este caso é pedir perdão... E como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café.

Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas o seu coração já decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaço de mantilha n'uma das mãos, a chavena de café na outra, enfiado e commovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão á Concha.

E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem do sr. Palma - que de resto, indifferente tambem, já se accommodara á meza a preparar regaladamente o seu grog.

Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer esse passeio a Sitiaes - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça, por defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol: atravez das grades da cadêa os presos pediam esmola. Creanças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, entre as arvores já verdes. De vez em quando apparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castello da Pena, solitario, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha a doçura do seu velludo.

Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.

- Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir para o Nunes, só para vêr aquella scena... E então com quê o sr. Carlos da Maia tem experiencia de hespanholas?

Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam d'aquella fachada banal, onde só uma janella estava aberta com um par de botinas de duraque seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos de knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte,

sentados sobre um banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.

Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes tocava flauta...

- Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.

(continua...)

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