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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Ao fim da Rua do Ouro o cupê parou num embaraço de carroças, e Luísa viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos óculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que tinha uma paixão por ela; um rapazito roto ofereceu-lhe cautelas; e o Castro nédio, com os dois polegares nas algibeiras do colete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdém ricaço, dardejando olhadelas sobre Luísa, através dos seus óculos de ouro. Ela, pelo canto do olho, observava-o; tinha uma paixão por ela, aquele homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Basílio atravessou-a, a sua linda figura!... - e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o ver.

O trem partiu enfim. O Rossio reluzia ao sol; do americano, parado à esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belém, de Pedrouços; pregões cantavam. - Todos ali ficavam nas suas famílias, nas suas felicidades; só ela partia!

Na Rua Ocidental, viu vir a D. Camila - uma senhora casada com um velho, ilustre pelos seus amantes. Parecia grávida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjozinho de jaqueta cor de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bebê se babava. E a Camila, feliz, vinha tranqüilamente pela rua expondo as suas fecundidades adúlteras! Era muito festejada; ninguém dizia mal dela; era rica, dava soirées... - "O que é o mundo!" - pensava Luísa.

O trem parou à porta do Paraíso, era meio-dia. A portinha em cima estava fechada: e a patroa apareceu logo, ciciando que sentia muitíssimo, mas só o senhor é que tinha a chavezinha; se a senhora quisesse descansar... Nesse momento outra carruagem chegou, e Basílio apareceu galgando os degraus.

- Até que enfim! - exclamou abrindo a porta. - Por que não vieste ontem?...

- Ah! Se tu soubesses...

E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos nele:

- Basílio, sabes, estou perdida!

- Que há?

Luísa atirara o saco de marroquim para o canapé, e, de um fôlego, contou-lhe a história da carta apanhada nos papéis; as dele roubadas, a cena no quarto...

- O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tem-lo dito muitas vezes.Estou pronta. Trouxe aquele saco, com o necessário, lenço, luvas... hem?

Basílio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia atônito os seus gestos, as suas palavras.

- Isso só a ti! - exclamou. - Que doida! Que mulher! E muito excitado: - Isto é lá questão de fugir! Que estás tu a falar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ela quer é dinheiro. É ver quanto quer, e pagar-se-lhe!

- Não, não! - fez Luísa. - Não posso ficar! - Tinha uma aflição na voz. A mulher venderia a carta,mas conservava o segredo; a todo o tempo podia falar, Jorge saber; estava perdida; não tinha coragem de voltar para casa! - Não sinto

um momento de descanso, enquanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não podes, amanhã. Eu vou para algum hotel, onde ninguém saiba; escondo-me esta noite. Mas, amanhã vamos. Se ele sabe, mata-me, Basílio! Sim, dize que sim!

- Agarrara-se a ele; procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos dele.

Basílio desprendeu-se brandamente:

- Estás doida, Luísa; tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz;éramos apanhados decerto, com a policia, com os telégrafos! t impossível! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...

Luísa fazia-se branca, ouvindo-o.

- E além disso - continuou Basílio, muito agitado, pelo quarto - eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remédio, Luísa. Uma mulher que foge, deixa de ser a senhora D. Fulana; é a fúlana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho decerto de ir ao Brasil; onde hás de tu ficar? Queres ir também, um mês num beliche, arriscar-te à febre amarela? E se teu marido nos persegue, se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dois polícias, e ir passar um ano ao Limoeiro? O teu caso é simplicíssimo. Entendes-te com essa criatura; dá-se-lhe um par de libras, que é o que ela quer, e ficas em tua casa, sossegada, respeitada como dantes - somente mais acautelada! Aqui está!

(continua...)

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