Por Eça de Queirós (1901)
Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estação da minha aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo duma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, de novo me abraçou: -E esse Paris?
-Medonho!
Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.
-Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?
-É a bandeira do Castelo! – declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.
A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara mais; com ela almoçara, com ela descera de Tormes!
Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?
-Tudo ótimo! – gritou Jacinto. – A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.
No largo pôr trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, um e outro servidos à estribeira, pôr um criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estação de Orleães toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:
-Deita isso fora!
E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquele pútrido rebotalho da Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho empinado da Serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris.
Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, pôr entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era a bandeira do Castelo, afirmara ele.
E na verdade me parecia que, pôr aqueles caminhos, através da natureza campestre e mansa – o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu – tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos – para o Castelo do Grã-Ventura!
FIM
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.