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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Torneei um penedo que avançava soberbamente, como a proa uma galera - e descobri, agachada e refugiada entre as pedras e os cardos, uma mulher que chorava, com uma criancinha no regaço; os seus cabelos crespos espalhavam-se pelos ombros e os braços, que os trapos negros mal cobriam; e sobre o filho, que dormia no calor do colo, o seu choro corria, mais contínuo, mais triste que o da fonte, e como se não devesse findar jamais.

Gritei pelo jucundo Pote. Quando ele trotou para nós, agarrando a coronha prateada da sua pistola, supliquei que perguntasse à mulher a causa dessas longas lágrimas. Mas ela parecia entontecida pela miséria; falou surdamente de um casebre queimado, de cavaleiros turcos que tinham passado, do leite que lhe secava... Depois apertou a criança contra a face - e sufocada, sob os cabelos esguedelhados, recomeçou a chorar.

O festivo Pote deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou, para a sua severa conferência sobre a Judéia Muçulmana, um apontamento daquele infortúnio. E eu, comovido, procurava na algibeira o meu cobre - quando me recordei que o dera num punhado ao negro do Hotel do Mediterrâneo. Mas tive uma útil inspiração. Atirei-lhe o perigoso embrulho da camisinha da Mary; e a meu pedido o risonho Pote explicou, à desventurada, que qualquer das pecadoras que habitam junto à Torre de Davi, a gorda Fatmé ou Palmira, a Samaritana, lhe daria duas piastras de ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilização.

Trotamos para a estrada. Atrás de nós a mulher lançava-nos, por entre soluços e beijos ao filho, todas as bênçãos do seu coração; e a nossa caravana retomou a marcha - enquanto o arrieiro adiante, escarranchado sobre as bagagens, cantava à estrela de Vênus que se erguera esse canto da Síria, áspero, alongado e doente, em que se fala de amor, de Alá, de uma batalha com lanças, e dos rosais de Damasco...

Ao apearmos de manhã no Hotel de Josafate, na vetusta Jafa - prodigiosa foi a minha surpresa vendo, pensativamente sentado no pátio, com um bojudo turbante branco, o mofino Alpedrinha!... Fiz-lhe ranger os ossos num abraço voraz. E quando Topsius e o jucundo Pote partiram, debaixo do guarda-sol de paninho, a colher novas do paquete que nos devia levar à terra do Egito - Alpedrinha contou-me a sua história, escovando o meu albornoz.

Fora por tristeza que deixara a "Alexandriazinha". O Hotel das Pirâmides, as maletas carregadas, tinham já saturado a sua alma de um tédio insondável; e o nosso embarque no Caimão para Jerusalém dera-lhe a saudade dos mares, das cidades cheias de história, das multidões desconhecidas... Um judeu de Quechã, que ia fundar uma estalagem em Bagdá com bilhar, aliciara-o para "marcador". E ele, metendo num saco as piastras juntas nas amarguras do Egito, ia tentar essa aventura do progresso junto às águas lentas do Eufrates, na terra de Babilônia. Mas, cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro Jerusalém, insensivelmente, levado talvez pelo espírito como o apóstolo, para descansar com as mãos quietas a uma esquina da ViaDolorosa...

- E o cavalheiro recebeu alguns jornais da nossa Lisboa? Gostava de saber como vai por lá a rapaziada...

Enquanto ele assim balbuciava, triste e com o turbante à banda, eu revia risonhamente a terra quente do Egito, a rua clara das Duas Irmãs, a capelinha entre plátanos, as papoulas do chapéu da Mary..

E mais agudo me picava outra vez o desejo da minha loura luveira. Que doce grito de paixão nos seus beiços gordinhos, quando uma tarde, queimado pelo sol da Síria e mais forte, eu surgisse diante do seu balcão espantando o gato branco! E a camisinha?... Bem! Contaria que uma noite, junto de uma fonte, ma tinham roubado cavaleiros turcos com lanças.

- Dize lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal está? Hem? Rechonchudinha?

Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivara duas rosas.

- Já não está... Foi para Tebas!

- Para Tebas? Onde há umas ruínas?... Mas isso é no alto Egito! Isso é em cascos de Núbia! Ora essa!... Que foi ela lá fazer?

- Alindar as vistas - murmurou Alpedrinha com desolação.

Alindar as vistas! Só compreendi quando o patrício me contou que a ingrata rosa de Iorque, adorno de Alexandria, fora levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas fotografar as ruínas desses palácios, onde viviam face a face Ramsés, rei dos homens, e Amon, rei dos deuses... E Maricoquinhas ia amenizar "as vistas", aparecendo nelas à sombra austera dos granitos sacerdotais, com a graça moderna do seu guarda-solinho fechado e do seu chapéu de papoulas...

- Que descarada! - gritei eu, varado. - Então com um italiano? E gostando dele? Ou só negócio?... Hem, gostando?

- Babadinha - balbuciou Alpedrinha.

E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafate. Perante este ai, repassado de tormento e de paixão, relampejou-me na alma uma suspeita abominável.

- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui há perfídia, Alpedrinha!

(continua...)

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