Por Eça de Queirós (1888)
a Lolla foi amavel, fez de senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mãosita suada. Depois retomando o cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro, declarou com um requebro d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...
- No ha estado ustêd con Encarnacion?
Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella Encarnacion?
A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. Não acreditava que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
- Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um grande cigarro.
A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha não seria duque, mas era um chico muy decente... - Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não ha tres semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéo parar ao meio da rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle tambem tem um carrito e um cavallo.
Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas era a esposa do amigo Eusebio.
Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, não tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...
E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou um murro á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a Cintra!... E como o Eusebio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma festa – ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas
manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo braço: a outra deu-lhe um repellão; e, mais excitada com a estridencia da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o de forreta, usou-o como um trapo vil.
Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:
- Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico...
De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão abalou pela sala fóra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara cahido um pedaço da mantilha de renda.
O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi servindo em roda o café.
Durante um momento houve um silencio. Apenas porém o criado sahiu - a Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. Elle portara-se muito mal! Aquillo não fôra de cavalheiro! Tinha trazido a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, á bruta, diante de todos...
- Esto no se hace, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos brilhantes, voltada para Carlos, ha sido una cosa muy fêa!...
E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da catastrophe - ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera a Cintra com pouca vontade, e desde manhã estava de muy malo humor... Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em braza, remexia desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a garganta. Então Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços, e de pé no meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom entendido o resumo d'aquelle desgosto.
- Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o, Silveira: é que você não sabe tratar com hespanholas!
A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos. Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles, vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade, - e desabafou, estas palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
- Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de poesia, e no fim é uma d'estas!... Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
- A vida é assim, Eusebiosinho.
Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
- Não se póde contar com prazeres, Silveirinha.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.