Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quase não tinha mal nenhum, pagou umapessoa que bate aí o Chiado de carruagem - ainda ontem a vi com uma pequerrucha que tem pagou trezentos mil réis. E em belas notas. Pagou-os o janota, já se sabe; foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um mãos-rotas; cai logo...

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, trêmula:

- Oh, tia Vitória! Dava-lhe um corte de seda.

- Azul! Até já te digo a cor!

- Mas o Brito é homem muito teso, tia Vitória; se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!

A tia Vitória. fitou-a com desdém:

- Sais-me uma simplória! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão; o que vai é uma cópia! Olha quem! O melro que lá há de ir!

E depois de refletir um momento:

- Tu vai-te para casa...

- Não, lá isso não volto...

- Também tens razão. Até ver em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenhouma rica pescada...

- Mas não haverá perigo, tia Vitória, se o Brito vai à polícia...

A tia Vitória encolheu os ombros, e impacientada:

- Olha, vai-te, que me estás a enfrenesiar! Polícia! Qual polícia! Essas coisas levam-se lá àpolícia... Deixa a coisa comigo! Adeus - e às quatro para jantar, hem!

Juliana saiu como levada pelo ar! Um conto de réis! Era o conto de réis que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cair na mão, com um tlintlim de libras e um frufru de notas! E o cérebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas diferentes, todas maravilhosas; um mostrador de capelista onde ela venderia! Um marido ao seu lado, às horas da ceia! Pares de botinas das boas, das chiques. Onde poria o dinheiro? No banco? Não; no fundo da arca - para estar mais seguro, mais à mão!

Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietário pacifico e rubicundo que se afastou escandalizado!

Aquela hora Luísa acordava. E sentando-se bruscamente na cama: - "É hoje!" - foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrível contraíram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéia de ver Juliana! Estava mesmo imaginando fecharse, não almoçar, sair pé ante pé às onze horas, ir procurar Basílio ao hotel, quando a voz de Joana disse à porta do quarto:

- A senhora faz favor?

Começou logo a contar, muito espantada, que a Sra. Juliana tinha saído de manhã; ainda não voltara; estava tudo por arrumar...

- Bem, arranje-me o almoço, eu já vou... - Que alívio para ela!

Calculou logo que Juliana deixara a casa. Para quê? Para lhe armar alguma, decerto! O melhor era sair imediatamente... Podia esperar Basílio no Paraíso.

Foi à sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, à pressa.

- A Sra. Juliana ter-lhe-á dado alguma coisa? - veio dizer Joana assombrada.

Luísa encolheu os ombros; respondeu vagamente:

- Depois se saberá...

Era hora e meia; foi pôr o chapéu. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de ver entrar Juliana, não se decidia a sair; sentou-se mesmo, com o saco de marroquim nos joelhos. "Vamos!", pensou enfim. - Ergueu-se; mas parecia que alguma coisa de sutil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar; o seu roupão estava caído aos pés da cama, as suas chinelinhas sobre o tapete felpudo... - Que desgraça! - disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao álbum, tirou a fotografia de Jorge, meteu-a toda trêmula no saco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, saiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.

À Patriarcal passava um cupê de praça. Tomou-o, mandou-o a ir ao Hotel Central.

O Sr. Brito saíra logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. Decerto algum paquete chegara, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas de oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, falavam, chamavam. Aquele movimento animou-a; veio-lhe um desejo de viagens, do ruído noturno das gares à claridade do gás, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!

Deu ao cocheiro a adresse do Paraíso. E à maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam num horizonte abandonado. A porta de um livreiro julgou entrever Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena; ia-se sem ver um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoráveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua malaguenha!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8283848586...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →