Por Eça de Queirós (1901)
Arrastei então pôr Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartara havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós-de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei pôr grossos preços garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château isto, Château aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre; e aí, no meio duma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E recolhia enjoado com tanto relento de alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, pôr me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula dum Censor, dum Catão austero. Ó senhores! – pensava – pois eu não me divertirei nesta deliciosa cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?
Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbona. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado pôr gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas idéias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte, mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, pôr entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as idéias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:
-Que querem eles? É embirração com o professor... é política?
O velho abanou a cabeça, espirrando:
-Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem idéias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.
Então, indignado, berrei:
-Silêncio, brutos!
E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me berra: -Sale Maure!3
Ergui o meu grosso punho serrano – e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue pôr toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.
Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o único dia alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização – vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo no ventre...
Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:
-Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. Adeuzinho!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.