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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Em casa de Manuel as coisas igualmente não corriam lá muito bem. Ana Rosa curtia densas tristezas, mal dissimuladas aos olhos do pai, da avó e do cônego. A pobre moça esforçava-se por esquecer o desleal amante que a abandonara covardemente. E, na sua decepção imaginava vinganças irrefletidas; tinha desejos absurdos: queria casar-se por aqueles dias, arranjar um marido qualquer, antes que Raimundo se retirasse da província; desejava provar-lhe que ela não ligava a menor importância ao caso e que se entregaria com prazer a outro homem.

Pensou no Dias e esteve quase a falar-lhe.

Manuel, soprado pelo compadre, indispunha mais e mais o ânimo da filha contra o mulato; contando-lhe, a respeito deste, fatos revoltantes, inventados pelo cônego; fazia-se agora muito meigo ao lado dela, submetia-se aos seus caprichos, às suas vontadezinhas de menina doente. com a compungida solicitude de um bom enfermeiro.

Ana Rosa abanava a cabeça, resignada. O fato provado de que Raimundo consentia sem resistência e talvez por gosto, em abandoná-la, ao mesmo tempo que aumentava nela o desejo de reconquistá-lo e possuí-lo, dava a seu orgulho bastante energia para esconder de todos o seu amor Supunha-se vítima de uma decepção; julgava o seu amante mais apaixonado e mais violento, e, à vista da passividade com que ele <e submeteu logo às circunstâncias; 3 vista daquela condescendência burguesa e medrosa, pois Raimundo não se animara a dar-lhe, nem a es rever-lhe, urna palavra depois da recusa de Manuel, ela se julgava desenganada e desiludida. “Nunca me amou! dizia de si para si desesperada Se me amasse, como eu imaginava, teria reagido! E um impostor! um tolo! Um vaidoso, que desejou apenas ter mais uma conquista amorosa!

E vinha-lhe um grande desejo de chorar e preferir muito mal contra Raimundo. Agora. achava que ele era o pior dos homens, a mais desprezível das criaturas. Às vezes, porém, arranhava-lhe a consciência uma pontinha de remorso: lembrava-se de que a iniciativa daquele namoro partira toda de sua parte, e então. com uma dorzinha de vergonha assistiam-lhe considerações mais favoráveis ao primo; chegava ate a doer-se de haver feito um juízo tão mau do pobre rapaz. “Sim... pensava. Verdade, verdade, se não fosse eu... coitado! ele talvez nunca me falasse em amor!... fui eu que o provoquei, que lhe lancei a primeira faisca no coração!...” E por este caminho Ana Rosa fazia mil raciocínios, que abrandavam um tanto a sua me vontade contra o perjuro.

Mas a avó saltava-lhe logo em ama:

— Parece que ficaste meio sentida com o que se passou!... Pois Olha. se tivesse Te assistir ao teu casamento com um cabra, juro-te, por esta luz que está nos alumiando, que te preferia uma boa morte, minha neta! porque sedas a primeira que na família sujava o sangue! Deus me perdoe pelas santíssimas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! gritava ela, pondo as mãos para o céu e revirando os olhos, mas tinha animo de torcer o pescoço a uma filha, que se lembrasse de tal, credo! que nem falar nisto é bom! E só peço a Deus que me leve, quanto antes, se tenho algum dia de ver, com estes que a terra há de comer, descendente meu caçando a orelha com o pé!

E, voltando-se para o genro, num assanhamento crescente:

— Mas creia seu Manuel. que se tamanha desgraça viesse a suceder, só a você a deveríamos, porque, no fim das contas, a quem lembra meter em casa um cabra tão cheio de fumaças como o tal doutor das dúzias?... Eles hoje em dia são todos assim!... Dá-se-lhes o pé e tomem a mão!... Já não conhecem o seu lugar, tratantes! Ah, meu tempo! meu tempo! que não era preciso estar cá com discussões e políticas! Fez-se besta? - Rua! A porta da nua é a serventia da casa! E é o que você deve fazer, seu Manuel! Não seja pamonha! despeça-o por uma vez para o Sul, com todos os diabos do inferno! e trate de casar sua filha com um branco como ela. Arre.

— Amém! disse beaticamente o cônego.

E sorveu uma pitada.

Falou-se em toda a capital! do rompimento de Raimundo com a família do Manuel Pescada. Cada qual comentou o fato como melhor o entendeu, alterando-o, já se sabe, cada um por sua parte. O Freitas aproveitou logo a ocasião dizer dogmaticamente aos seus companheiros de secretaria

— Acontece, meus senhores, com um boato, que corre a província, o mesmo que com uma pedra levada pela enxurrada da chuva; à proporção que rola, de rua em rua, de beco em beco, de fosso em fosso, vão-se-lhe apegando toda sorte de trapos e imundícia que encontra na sua vertiginosa carreira; de sorte que, ao chegar à boca-de-lobo, já se lhe não reconhece a primitiva forma. Do mesmo feitio, quando uma notícia chega a cair no esquecimento, já tão desfigurada vai de si, que da própria não conserva mais do que a origem!

E o Freitas, satisfeito com esta tirada, assoou-se estrondosamente, sem despregar do auditório o seu penetrante sorriso de grande homem, que prodigaliza, sem olhar a quem dá, as preciosas jóias da sua pródiga eloqüência. Durante aqueles dias não se falava senão em Raimundo.

— Desacreditou, para sempre, a pobre moça!... dizia um barbeiro no meio da conversa da sua loja.

— Desacreditar quis ele! responderam-lhe, mas é que ela nunca lhe deu a menor confiança! Isto sei eu de fonte limpa!

(continua...)

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