Por José de Alencar (1860)
CENA I
(Carolina, Margarida e Antônio)
(Carolina defronte a um espelho, deitando nos cabelos dois
grandes laços de fita azul. Margarida cosendo junto à janela. Antônio sentado
num mocho, pensativo)
Carolina – É
quase noite!...
Margarida – Que
fazes aí, Carolina? Já acabaste a tua obra?... Prometeste dá-la pronta hoje.
Carolina – Já
vou, mãezinha; falta apenas tirar o alinhavo. Olhe! Não fico bonita com meus
laços de fita azul?
Margarida – Tu
és sempre bonita; mas realmente essas fitas nos cabelos dão-te uma graça!...
Pereces um daqueles anjinhos de Nossa Senhora da Conceição.
Carolina – É o que disse o Luís, quando as trouxe da loja. Tínhamos ido na véspera à missa e ele viu lá um anjinho que tinha as asas tão azuis, cor do céu! Então lembrou-se de dar-me esses laços... Assentam-me tão bem, não é verdade?
Margarida – Sim; mas não sei para que
te foste vestir e pentear a esta hora; já está escuro para chegares à janela.
Carolina – Foi
para experimentar o meu vestido novo, mãezinha... Quis ver como hei de ficar
quando formos domingo ao Passeio Público...
Margarida – Ora,
ainda hoje é terça-feira.
Carolina – Que
mal faz!
Margarida – Está
bom, vai aprontar a obra; a moça não deve tardar. É verdade!
CENA II
Margarida e Antônio
Margarida – Não
sei o que tem a nossa filha! Às vezes anda tão distraída...
Antônio –
Quantos são hoje do mês, Margarida?
Margarida – Pois
não sabes? Vinte e seis.
Antônio (contando
pelos dedos) – Diabo! Ainda faltam quatro dias para acabar! Precisava receber
uns cobres que tenho na mão do mestre e só no fim da semana... Que maçada!
Margarida – Não
te agonies, homem! O dinheiro que deste ainda não se acabou; e hoje mesmo
aquela moça deve vir buscar os vestidos que mandou fazer por Carolina.
Antônio – Quanto
ela tem de dar?
Margarida – Três
vestidos a cinco mil-réis... Faz a conta.
Antônio – Quinze
mil-réis, não é?
Margarida –
Quinze justos. Já vês que não nos faltará dinheiro; podes dormir descansado que
amanhã terás o teu vinho ao almoço.
Antônio – Ora
Deus! Quem te fala agora em vinho? Não é para ti, nem para mim,
que preciso de dinheiro. (Margarida acende a vela com fósforos)
Margarida – Para quem é
então, homem?
Antônio – Para
Carolina.
Margarida – Ah!
Queres fazer-lhe um presente?
Antônio – Tens
idéias! Não!... Sim!... (Rindo) É um presente que ela há de estimar.
Margarida – Não;
sim... Explica-te, se queres que te entenda.
Antônio – Lá
vai. Há muitos dias que ando para te falar nisto; mas gosto de negócio dito e
feito. Estive a esperar o fim do mês pela razão que sabes, do dinheiro; e o fim
do mês sem chegar. Enfim hoje, já que tocamos no ponto, vou contar-te tudo.
(Chega-se à porta da esquerda)
Carolina –
Margarida está lá dentro; podes falar.
Antônio – Não
reparaste ainda numa coisa?
Margarida – Em
quê?
Antônio – Nos
modos de Luís com a pequena. Como ele a trata.
Margarida – Quer
dizer que Luís é um rapaz sisudo e trabalhador.
Antônio – Só?...
Mais nada!
Margarida – Não
sei que mais se possa ver em uma coisa tão natural.
Antônio .
Escuta, Margarida, tu te lembras quando eu era aprendiz de marceneiro, e que te
via em casa de teu pai, que Deus tenha em sua glória. Tu te lembras?
Também te tratava sério...
Margarida –
Então pensas que Luís tem o mesmo motivo?...
Antônio – Penso;
e eu cá sei o que penso.
Margarida –
Descobriste alguma coisa?
Antônio – Oh! se
descobri! um companheiro lá da tipografia muito seu amigo me contou que ele
tinha uma paixão forte por uma moça que se chama Carolina.
Margarida – Ah!
Anda espalhando!...
Antônio – Não
estejas já a acusar o pobre rapaz; ele não disse a ninguém. Um dia no
trabalho... Mas tu sabes como é o trabalho dele?
Margarida – Não;
nunca vi.
Antônio – Nem
eu; porém disseram que é fazer com umas letras de chumbo o mesmo que escreve o
homem do jornal. Pois nesse dia, Luís que estava com o juízo cá na pequena, que
havia de fazer?...
Margarida – O
quê?
Antônio – Em vez
do que estava escrito deitou Carolina, Carolina, Carolina... Uma folha cheia de
Carolina, mulher! No dia seguinte a nossa filha andava com o jornal por essas
ruas!
Margarida –
Santa Maria! Que desgraça, Antônio!
Antônio –
Espera, Margarida; ouve até o fim. Tem lá um homem, o contramestre da
tipografia, que se chama revisor; assim que ele viu a nossa filha, quero dizer
o nome, pôs as mãos na cabeça; houve um grande barulho; mas como o rapaz é bom
trabalhador acomodou-se tudo. É daí que o companheiro soube e me disse.
Margarida –
Psiu!... Aí vem ela.
Antônio –
Melhor! Acaba-se com isto de uma vez.
Margarida – Não
lhe fales assim de repente.
Antônio – Por
quê? Gosto de negócio dito e feito.
Margarida – Mas Antônio...
Antônio – Não
quero ouvir razões. (Entra Carolina com uma pequena bandeja cheia de vestidos)
CENA III
(Os mesmos e Carolina)
Carolina – Ainda
cose, mãezinha? Isto cansa-lhe a vista.
Margarida –
Estou acabando; pouco falta. Vem cá. Tenho que te dizer uma coisa.
Carolina – Ah!
Quer ralhar comigo, não é?
Antônio – E
muito, muito; porque ainda hoje não te vieste sentar perto de mim como é teu
costume para me contares uma dessas histórias bonitas que lês no jornal de
Luís.
Carolina –
Estive trabalhando; mas agora... Aqui estou. Quer saber as novidades?
Antônio – Não; hoje sou eu que te vou contar uma novidade; mas uma novidade...
Carolina – Qual é? Quero saber.
Antônio – Já
estás curiosa! Quanto mais me adivinhasses...
Carolina – Ora
diga!
Antônio – Esta
mãozinha pequenina que escreve e borda tão bem, precisa de outra mão forte que
trabalhe e aperte ela assim.
Carolina – Que
quer dizer, meu pai?
Antônio – Não te
assustes. As moças hoje já não se assustam quando se lhes fala em casamento.
Carolina –
Casamento!... Eu, meu pai?... Nunca!...
Antônio – Então
hás de ficar sempre solteira?
Mas eu não desejo casar-me agora. Mãezinha, eu lhe peço!...
Margarida –
Ninguém te obriga; ouve o que diz teu pai; se não quiseres, está acabado. Não é
assim, Antônio?
Antônio –
Decerto. (à Carolina) Tu bem sabes que eu não faço nada que não seja do teu
gosto.
Carolina – Pois
não me fale mais de casamento. Fico logo triste.
Margarida – Por
que, Carolina? É com a idéia de nos deixares?
Carolina – Sim,
mãezinha; vivo tão bem aqui.
Antônio – Pois
continuarás a viver: Luís mora conosco.
Carolina – Como,
meu pai!... É ele... É Luís que...
Antônio – É ele
que eu quero dar-te por marido. Gosta muito de ti e além disto é teu parente.
Carolina – Meu
Deus!
Margarida – Tu não podes achar um moço mais bem comportado e trabalhador.
Antônio
– E que há de ser alguma coisa, porque tem vontade, e quando se mete em
qualquer negócio vai adiante. Pobre como é, estuda mais do que muito doutor.
Carolina – Eu
sei, meu pai. Tenho-lhe amizade, mas amor... não!
Antônio – Pois é
o que basta. Quando me casei com tua mãe ela não sabia que história era essa de
amor; e nem por isso deixou de gostar de mim, e ser uma boa mulher.
Margarida –
Entretanto, Antônio, não há pressa; Carolina há de fazer dezoito anos pela
Páscoa.
Carolina – É
verdade, mãezinha; sou muito moça; posso esperar...
Antônio –
Esperar!... Não entendo disto; quero as coisas ditas e feitas. Tu tens amizade
a teu primo; ele te paga na mesma moeda; portanto só falta ir à igreja.
Domingo...
Carolina - Meu
pai!... Por quem é!...
Margarida –
Ouve, Antônio; é preciso também não fazer as coisas com precipitação.
(Luís aparece)
Antônio – Não
quero ouvir nada. Domingo... está decidido.
Carolina – Ah!
Mãezinha, defenda sua filha!...
Margarida – Que
posso eu fazer, Carolina? Tu não conheces o gênio do teu pai!! Quando teima...
Antônio – Não é
teima, mulher. Luís há de ser um bom marido para ela. Se não fosse isto não me
importava. Quero-lhe tanto bem como tu! Carolina
(chorando) – Se me quisesse bem não me obrigava...
Antônio – É
escusado começares com choradeiras; não adiantam; o casamento sempre se há de
fazer.
CENA IV
(Os mesmos e Luís)
Luís – Não,
Antônio.
Carolina – Meu
primo!
Antônio – Oh!
Estavas aí, rapaz? Chegaste a propósito, mas que queres tu dizer?
Margarida – Ele
não aceita.
Antônio –
Espera, Margarida! Fala, Luís.
Luís –
Tratava-se aqui de fazer Carolina minha mulher; mas faltava para isso uma
condição indispensável.
Antônio – Qual?
Luís – O meu
consentimento. Não pedi a mão de minha prima, nem dei a entender que a
desejava.
Margarida – Mas
tu lhe queres bem, Luís?
Luís – Eu,
Margarida?
Antônio – Tens
uma paixão forte por ela; eu sei.
Carolina – É
verdade?
Luís – Parece-me que desde que moro nesta casa não dei motivos para me fazerem esta exprobração. Trato Carolina como uma irmã, ela pode dizer se nunca uma palavra minha afez corar.
Carolina – Não me queixo,
Luís.
Luís – Creio,
minha prima; e se falo nisto é para mostrar que seu pai se ilude: nunca tive a
idéia de que um dia viesse a ser seu marido.
Antônio – Mas
então explica-me essa história dos tipos.
Luís – Dos
tipos?... Não sei o que quer dizer.
Margarida – Uma
noite na tipografia estavas distraído e em lugar de copiar o papel, escreveste
não sei quantas vezes o nome de Carolina.
Carolina – O meu
nome?... Como, mãezinha?
Antônio (a Luís)
– Ainda pretendes negar?
Luís – Mas era o
nome de outra moça...
Carolina –
Chama-se Carolina, como eu?
Luís – Sim,
minha prima.
Antônio – Pensas
muito nessa moça, para distraíres por ela a tal ponto.
Margarida – Com
efeito quem traz assim a lembrança de um nome sempre na idéia...
Luís – Que
fazer, Margarida? Por mais vontade e prudência que se tenha, ninguém pode
arrancar o coração; e nos dias em que a dor o comprime, o nome que dorme dentro
dele vem aos lábios e nos trai. Tive naquele dia esse momento de fraqueza;
felizmente, não perturbou o sossego daquela que podia acusar-me. Agora mesmo
ela ignora que era o seu nome.
Antônio – À
vista disso decididamente não queres casar com tua prima?
Luís – Não,
Antônio; agradeço mas recuso.
Antônio – Por
que razão?
Luís – Porque
ela... porque...
Margarida – Já
não disse! Não lhe tem amor; gosta de outra.
Carolina – E vai
casar com ela!
Antônio – Olha
lá; se é este o motivo, está direito; mas se não tens outra em vista, diz uma
palavra, e o negócio fica decidido.
Carolina – Meu
pai!... Vamos. Sim, ou não?
Luís – Não, amo
a outra...
Carolina – Ah!...
Antônio – Está
acabado! Não falemos mais nisto.
CENA V (Antônio, Margarida e Carolina)
Antônio –
Margarida, tu conheces alguma outra moça na vizinhança que se chame Carolina?
Margarida – Não:
mas isto não quer dizer nada: pode ser que aquela de quem Luís falou more em
outra rua.
Antônio – Não
acredito.
Carolina – Meu
pai deseja por força que Luís seja meu marido. Ainda cuida que ele gosta de
mim.
Antônio – Disto
ninguém me tira.
Margarida – Mas,
homem, não o ouviste afirmar o contrário?
Antônio – Muitas vezes a boca diz o que o coração não sente.
Carolina – Ora, meu pai, por que motivo ele encobriria?
Antônio – O motivo? Tu és quem pode dizer (Vai a sair)
Carolina – Eu?...
Margarida –
Sabes que mais? Antônio, vieste hoje da loja todo cheio de visões. Que te
aconteceu por lá?
Antônio – Eu te
digo, mulher. Contaram-me há dias, e hoje tornaram a repetir-me, que um desses
bonequinhos da moda anda rondando a nossa rua por causa de alguma menina da
vizinhança.
Carolina – Ah!
Margarida –
Então foi por isto que assentaste de casar Carolina?
Antônio – Uma
menina solteira é um perigo neste tempo. (Saindo)Estes sujeitinhos têm umas
lábias!
Margarida – Para aquelas que querem acreditar neles. (Pausa. Batem na porta)
Carolina – Estão batendo.
Margarida – Há de ser a moça dos vestidos.
CENA VI (Helena, Margarida e Carolina)
Helena – Adeus,
menina. Boa noite, Sra. Margarida.
Margarida –Boa
noite.
Carolina – Venha
sentar-se.
Margarida – Aqui
está uma cadeira.
Carolina (baixo,
à Helena) – E ele?...
Helena – Espere!
(Alto) Então aprontou?
Carolina – Sim,
senhora; todos.
Helena – E estão
bem cosidos, já se sabe! Feitos por estas mãozinhas mimosas que não nasceram
para a agulha, e sim para andarem dentro de luvas perfumadas.
Carolina –
Luvas?... nunca tive senão um par, e de retrós.
Margarida – Quem
te perguntou por isto agora?
Helena – Não faz
mal; porém deixe ver os vestidos.
Carolina – Vou
mostrar-lhe.
Margarida – É
obra acabada às pressas; não pode estar como ela desejava.
Helena – Bem
cosidos eles estão; assim me assentem.
Margarida – Hão
de assentar. Carolina cortou-os pelo molde da francesa.
Carolina –
Apenas fiz um pouco mais decotados como a senhora gosta.
Helena – É a
moda.
Margarida – Mas
descobrem tanto!
Helena – E por que razão as mulheres hão de esconder o que têm de mais bonito?
Carolina – É verdade!...
Helena (a
Margarida) – Me dê uma cadeira. (Margarida vai buscar uma cadeira; ela diz
baixo à Carolina) Preciso falar-lhe.
Carolina – Sim!
Margarida (dando
a cadeira) – Aqui está.
Helena – Obrigada. (Senta-se) Realmente esta menina tem muita habilidade.
Carolina – Mãezinha, Vm. vai lá dentro
buscar a minha tesoura? Esqueceu-me abrir uma casa.
Margarida – Não
queres a minha?
Carolina – Não;
está muito cega.
Margarida – Onde guardaste a tua?
Carolina – No cestinho da costura. (Margarida sai à esquerda. Carolina tira do bolso a tesoura e mostra sorrindo a Helena)
CENA VII (Helena e Carolina)
Helena – Eu
percebi!...
Carolina –
Mas... Por que ele não veio?
Helena – É sobre
isto mesmo que lhe quero falar. O Ribeiro mandou dizer-lhe...
Carolina – O
quê?...
Helena – Que
deseja vê-la a sós.
Carolina – Como?
Helena – Escute.
Às nove horas ele passará por aqui e lhe falará por entre a rótula.
Carolina – Para
quê?
Helena – Está
apaixonado loucamente por você; quer falar-lhe; não há senão este meio.
Carolina – Podia ter vindo hoje com a senhora, como costuma. Era melhor.
Helena
– O amor não se contenta com estes olhares a furto e esses apertos de mão
às escondidas.
Carolina – Mas
eu tenho medo. Meu pai pode descobrir; se ele soubesse!...
Helena – Qual! É
um instante! O Ribeiro bate três pancadas na rótula; é o sinal.
Carolina – Não!
Não! Diga a ele...
Helena – Não
diga nada; não me acredita, e vem. Se não falar-lhe, nunca mais voltará.
Carolina – Então
deixará de amar-me!...
Helena – E de
quem será a culpa?
Carolina – Mas
exige uma coisa impossível.
Helena – Não há impossíveis para o amor. Pense bem; lembre-se que ele tem uma paixão...
Carolina – Aí vem mãezinha!
CENA VIII
(As mesmas, Margarida e Araújo)
Margarida – Não
achei, Carolina; procurei tudo.
Helena – Está bom; já não é preciso. Mando fazer isto em casa pela minha preta.
Araújo (Entrando pelo fundo com um
colarinho postiço na mão) – A senhora me apronta este colarinho?
Margarida – A
esta hora, Sr. Araújo?
Araújo – Que
quer que lhe faça? Um caixeiro só tem de seu as noites. Agora mesmo chego do
armarinho, e ainda foi preciso que o amo desse licença.
Margarida – Pois
deixe ficar, que amanhã cedo está pronto.
Araújo –
Amanhã?... E como hei de ir hoje ao baile da Vestal?
Carolina –
Ah!... o senhor vai ao baile?
Araújo – Então
pensa que por ser caixeiro não freqüento a alta sociedade? Cá está o convite...
Mas o colarinho? Ande, Sra. Margarida.
Margarida –
Lavar e engomar hoje mesmo?
Araújo – Para as
oito horas. Não quero perder nem uma quadrilha. As valsas pouco me importam...
Margarida – O senhor dá-me sempre cada maçada!...
Araújo – Deixe estar que um dia destes trago-lhe uma caixinha de agulhas. Margarida – Veremos.
CENA IX
(Araújo, Helena e Carolina) Carolina, na janela.
Helena – Como
está Sr. Araújo?
Araújo – A
senhora por aqui... É novidade.
Helena – Também
o senhor.
Araújo – Eu sou
vizinho; e a Sra. Margarida é minha engomadeira.
Helena – Pois eu
moro muito longe; porém mandei fazer uns vestidos para esta menina.
Araújo – Então
já não gosta das modistas francesas?
Helena – Cosem
muito mal.
Araújo – E dão
cada tesourada! Como os alfaiates da Rua do Ouvidor... Mas assim mesmo, a
senhora largar-se do Catete à Rua Formosa, em busca de uma costureira!
Helena – Que tem
isso?
Araújo – Veio de
carro? Está um na porta.
Helena – É o
meu.
Araújo – Ahnn...
Trata-se agora.
Helena – Sempre
fui assim.
Araújo – Ah!...
Não se lembra!... Pois olhe! Estou agora me lembrando de uma coisa.
Helena – De quê?
Araújo – Lá no
armarinho, quando as fazendas ficam mofadas, sabe o que se faz?
Helena – Ora,
que me importa isso?
Araújo –
Separam-se umas das outras, para que não passe o mofo.
Helena – Que quer o senhor dizer?
Araújo – Quero dizer que as mulheres às vezes são como as fazendas; e que tudo neste mundo é negócio, como diz o amo.
Helena – Está engraçado!
CENA X
(Os mesmos e Margarida)
Araújo – Acha
isso?
Helena –
Deixai-me! Adeus, menina!
Carolina – Já
vai?
Araújo – O
maldito colarinho está pronto?
Margarida – Está
quase.
Helena – Mande
deitar estes vestidos no carro.
Margarida – Sim,
senhora.
Helena – a
Carolina – Adeus. (Baixo) Veja lá! Oito horas já deram.
Carolina– Sim!
Helena –
Adeus!...(a Araújo) Boa noite!
Araújo – Viva!
Helena – Não
fique mal comigo.
Araújo – Há
muito tempo que conhece esta mulher, D. Carolina?
Carolina – Há um
mês.
Araújo – Quem a
trouxe cá?...
Carolina –
Ninguém; ela precisa de uma costureira.
Araújo (à
Margarida) – Olhe que são mais de oito horas!
Margarida – Arre!... Que pressa!...
Araújo – Não se demore! Eu volto já; vou fazer a barba.
CENA XI (Luís, Araújo e Carolina)
Luís – Não
saias; quero te dar uma palavra.
Araújo –
Depressa, que tenho hoje um baile.
Luís – Espera um
momento. (Olhando para CAROLINA) Sempre na janela.
Araújo –
Desconfias de alguma coisa?
Luís – Carolina!
Carolina –
Ah!...Luís.
Luís – Assustei,
minha prima?
Carolina – Não!
Estava distraída.
Luís – Desculpe,
procurei este momento para falar-lhe porque desejava pedir-lhe perdão.
Carolina –
Perdão? De quê?
Luís– Não
recusei a sua mão que seu pai me queria dar? Não a ofendi com essa recusa? Uma
mulher deve ter sempre o direito de desprezar; o seu orgulho não admite que
ninguém a prive desse direito.
Carolina – Não
me ofendi com a sua franqueza, Luís. (Com ironia) Reconheci apenas que não era
digna de pertencer-lhe; outra merece o seu amor!
Luís – Esse amor
que eu confessei era mentira.
Carolina – Por
que confessou então? Quem o obrigou?
Luís – Ninguém.
Menti por sua causa; para poupar-lhe um desgosto.
Carolina – Não o
entendo.
Luís – Conhece o
caráter do seu pai e sabe que quando ele quer as coisas não há vontade que lhe
resista. Para tornar de uma vez impossível esse casamento, para que o meu nome
não lhe cause mais tristeza, ouvindo-o associado ao título de seu marido,
declarei que amava outra mulher; menti.
Carolina – E que
mal havia nisso? Todos não temos um coração.
Luís – É
verdade; porém o meu creio que não foi feito para o amor, e sim para a amizade.
As minhas únicas afeições estão concentradas nesta casa; fora dela trabalho;
aqui sinto-me viver. Um amor estranho seria como uma usurpação dos sentimentos
que pertencem aos meus parentes. É por isso que só a sua felicidade me
obrigaria a confessar-me ingrato.
Carolina – Não
sei em que isso podia influir sobre a minha felicidade.
Luís – Quando se
ama...
Carolina – Mas
eu não amo.
Luís – Seja
franca!
Carolina – Juro!
Luís – Não jure!
Carolina – Onde
vai?
Luís – Ouvi
bater na janela.
Carolina –
Não!... Foi engano.
Luís – Vou ver.
Carolina – Meu
primo!...
Araújo (baixo a Luís) – Um sujeito está espiando pela rótula.
Carolina (na rótula, baixo e para fora) – Espere!
Araújo (a Luís) – Sabes quem é?
CENA XII
(Os mesmos e Margarida)
Luís – Sei, ela
o ama.
Araújo – E tu
consentes?
Luís – Que posso
fazer? Se o ofendesse ela me odiaria. Antes indiferença.
Carolina – Não era ninguém... O vento...
Luís
(a Araújo) – Mente!
Margarida – Aqui
tem; foi enxuto a ferro.
Araújo – A senhora é a pérola das engomadeiras. Vou-me vestir; anda, Luís.
Margarida (a Luís) – Estás hoje de
folga?
Luís – Não;
volto à tipografia.
Margarida –
Então quando saíres cerra a porta.
Luís – Sim. Até
amanhã minha prima.
Margarida – Tu não vens, Carolina?
Margarida – Já vou, mamãezinha; deixe-me tirar meus grampos.
CENA XIII
(Carolina e Ribeiro)
(Luís saindo, fecha a porta do fundo. Carolina, ficando só,
apaga a vela. Ribeiro salta na sala)
Carolina – Meu
Deus!...
Ribeiro –
Carolina... Onde estás?... Não me queres falar?
Carolina –
Cale-se; podem ouvir.
Ribeiro – Por
isso mesmo; não esperdicemos estes curtos momentos que estamos sós.
Carolina – Tenho
medo.
Ribeiro – De
quê? De mim?
Carolina – Não
sei!
Ribeiro – Tu não
me amas, Carolina! Senão havias de ter confiança em mim; havias de sentir-te
feliz como eu.
Carolina – E o
meu silêncio aqui não diz tudo? Não engano meu pai para falar-lhe?
Ribeiro – Tu não
sabes! O coração duvida sempre da ventura. Dize que me amas. Dize, sim!
Carolina – Para
quê?
Ribeiro – Eu te
suplico! Já não lhe confessei tantas vezes que lhe...
Ribeiro – Assim
não quero. Há de ser: eu te...
Carolina – Eu te
amo. Está contente?
Ribeiro – Agora
adeus. Até amanhã.
Ribeiro –
Separarmo-nos! Depois de estar uma vez perto de ti, de saber que tu me amas?
Não, Carolina.
Carolina – Mas é
preciso.
Ribeiro – Tu és
minha. Vamos viver juntos.
Carolina –
Sempre?
Ribeiro –
Sempre! sempre juntos!
Carolina – Como?
Ribeiro – Vem
comigo; o meu carro nos espera.
Carolina – Fugir!
Ribeiro – Fugir?
não; acompanhar aquele que te adora.
Carolina – É
impossível!
Ribeiro – Vem,
Carolina!
Carolina – Não!
Não! Deixe-me!
Ribeiro – Ah! É
esta a prova do amor que me tem! Adeus! Esqueça-se de mim.
Nunca mais nos tornaremos a ver.
Carolina – Mas
posso abandonar minha mãe? Não posso!
Ribeiro – Eu
acharei outras que me amem bastante para me fazerem esse pequeno sacrifício.
Carolina –
Outras que não terão suas famílias.
Ribeiro – Mas
que terão um coração.
Carolina – E eu
não tenho?
Ribeiro – Não
parece.
Carolina – Antes
não o tivesse.
Ribeiro – Adeus.
Carolina – Até
amanhã. Sim?
Ribeiro – Para
sempre.
Carolina –
Amanhã... Talvez.
Ribeiro – Deve
ser hoje ou nunca.
Carolina – E
minha mãe?
Ribeiro – É uma
separação de alguns dias.
Carolina – Mas
ela me perdoará?
Ribeiro – Vendo
sua filha feliz...
Carolina – Que
dirão minhas amigas?
Ribeiro – Terão
inveja de ti.
Carolina – Por
quê?
Ribeiro – Porque
serás a mais bela moça do Rio de Janeiro.
Carolina – Eu?
Ribeiro – Sim!
Tu não nasceste para viver escondida nesta casa, espiando pelas frestas da
rótula, e cosendo para a Cruz. Estas mãos não foram feitas para o trabalho, mas
para serem beijadas como as mãos de uma rainha.(Beija-lhe as mãos) Estes
cabelos não devem ser presos por laços de fitas, mas por flores de diamantes.
(Tira os laços de fita e joga-os fora) Só a cambraia e a seda podem roçar sem
ofender-te essa pele acetinada.
Carolina – Mas
eu sou pobre!
Ribeiro – Tu és
bonita, e Deus criou as mulheres belas para brilharem como as estrelas. Terás
tudo isso, diamantes, jóias, sedas, rendas, luxo e riqueza. Eu te prometo!
Quando apareceres no teatro, deslumbrante e fascinadora, verás todos os homens
se curvarem a teus pés; um murmúrio de admiração te acompanhará; e tu, altiva e
orgulhosa, me dirás em um olhar: Sou tua.
Carolina – Tua
noiva?
Ribeiro – Tudo,
minha noiva, minha amante. Depois iremos esconder a nossa felicidade e o nosso
amor num teatro delicioso. Oh! se soubesses como a vida é doce no meio do luxo,
em companhia de alguns amigos, junto daqueles que se ama, e à roda de uma mesa
carregada de luzes e de flores!... O vinho espuma nos copos e o sangue ferve
nas veias; e os olhares queimam como fogo; os lábios que se tocam, esgotam
ávidos o cálice de champanhe como se fossem beijos em gotas que caíssem de
outros lábios... Tudo fascina; tudo embriaga; esquece-se o mundo e suas
misérias. Por fim as luzes empalidecem, as cabeças se reclinam; e a alma, a
vida, tudo se resume em um sonho.
Carolina – Mas o
sonho passa.
Ribeiro – Para
voltar no dia seguinte, no outro e sempre.
Carolina – Eu
também tenho meus sonhos; mas não acredito neles.
Ribeiro – E que
sonhas tu, minha Carolina?
Carolina – Vais
zombar de mim!
Ribeiro – Não;
conta-me.
Carolina – Sonho
com o mundo que não conheço! Com esses prazeres que nunca senti. Como deve ser
bonito um baile! Como há de ser feliz a mulher que todos olham, que todos
admiram! Mas isto não é para mim.
Ribeiro – Tu
verás!... Vem! A felicidade nos chama.
Carolina –
Espera.
Ribeiro – Que
queres fazer?
Carolina –
Rezar! Pedir perdão a Deus.
Ribeiro – Pedir perdão de quê? O amor não é um crime.
Carolina – Meu Deus!... E minha mãe?
Ribeiro – Vem, Carolina.
CENA XIV (Os mesmos e Luís)
Carolina – Ah!
Ribeiro – Quem é
este homem?
Carolina – Meu
primo.
Luís – Não pense
que é um rival que vem disputar-lhe sua amante. Não, senhor! Há pouco recusei a
mão de minha prima que seu pai me oferecia; não a amo. Mas sou parente e devo
ampará-la no momento em que vai perder-se para sempre.
Ribeiro – Não
tenho medo de palavras; se quer um escândalo...
Luís – Está
enganado! Se quisesse um escândalo e também uma vingança bastavame uma palavra;
bastava chamar seu pai. Mas eu sei que não é a força que dobra o coração; eu
temo que minha prima odeie algum dia em mim o homem que ela julgará autor de
sua desgraça.
Ribeiro – O que
deseja então?
Luís – Desejo
tentar uma última prova. O senhor acaba de falar a esta menina a linguagem do
amor e da sedução; eu vou falar-lhe a linguagem da amizade e da razão. Depois
de ouvir-me, ela é livre; e eu juro que não me oporei à sua vontade.
Ribeiro – Ela
ama-me! Era por sua vontade que me seguia.
Luís – Ela
ama-o, sim; mas ignora que este amor é a perdição; que ela vai sacrificar a um
prazer efêmero a inocência e a felicidade. Não sabe que um dia a sua própria
consciência será a primeira a desprezá-la, e a envergonhar-se dela.
Carolina – Luís!
Ribeiro – Não
acredites.
Luís –
Acredite-me, Carolina. Falo-lhe como um irmão. Esses brilhantes, esse luxo, que
há pouco o senhor lhe prometia, se agora brilham a seus olhos, mais tarde lhe
queimarão o seio, quando conhecer que são o preço da honra vendida!
Carolina – Por
piedade! Cale-se, meu primo!
Depois a beleza passará, porque a beleza passa depressa no
meio das vigílias; então ficará só, sem amigos, sem amor, sem ilusões, sem
esperanças: não terá para acompanhá-la senão o remorso do passado.
Ribeiro – Tu
sabes que eu te amo, Carolina.
Luís – Eu
também... a estimo, minha prima.
Ribeiro – Vem!
Seremos felizes!
Carolina –
Não!... Não posso!
Ribeiro – Por
quê?... Há pouco não dizias que eras minha?
Carolina – Sim...
Ribeiro – A uma
palavra deste homem, esqueces tudo?
Carolina – Não
esqueço, mas...
Ribeiro – Sei a
causa. Se ele não chegasse, eu era o preferido; mas entre os dois, escolhe
aquele que talvez já tem direito sobre sua pessoa.
Carolina –
Direitos sobre mim?
Luís – Já lhe
disse que não amava essa moça.
Negar em tais casos é um dever. Adeus; seja feliz com ele.
Carolina – Com
ele!... Mas eu não o amo!
Ribeiro – Já lhe
pertence.
Carolina – Luís?
Eu lhe suplico! Diga que é uma falsidade!
Luís – Eu juro!
Ribeiro – Não
creio em juramentos!
Carolina – Oh!
não!
Margarida (de
dentro) – Carolina!
Carolina – Minha
mãe!
Luís –
Margarida!
Carolina – Ah! Estou perdida! (Desfalece nos braços de Ribeiro)
Luís – Silêncio! (Vai fechar a porta. Ribeiro aproveita-se deste momento e sai, levando Carolina nos braços)
CENA XV
(Luís e Margarida)
Luís – Ah!...
(Corre à janela; ouve-se partir um carro; volta com desespero; vê os laços de
fita, apanha-os e beija)
Margarida – Carolina! ...Que é isto, Luís?
Luís (mostrando as fitas) – São as asas de um anjo, Margarida; ele perdeu-as, perdendo a inocência.
Margarida – Minha filha!
ATO PRIMEIRO
(Salão de um hotel. Pequenas mesas à direita e à esquerda.
No centro uma preparada para quatro pessoas)
CENA I
(Pinheiro, Helena e José)
Helena – Ainda
não chegaram.
Pinheiro – Não
há tempo, José, prevenirás o Ribeiro, logo que ele chegue, de que estamos aqui.
José – Sim,
senhor.
Helena – O
champagne já está gelado?
José – Já deve
estar. Que outros vinhos há de querer, Sr. Pinheiro?
Pinheiro – Os
melhores.
Helena – Eu cá
não bebo senão champagne.
Pinheiro – Por
espírito de imitação. Ouviu dizer que era o vinho predileto das grandes
lorettes de Paris.
Helena – Não
gosto de franceses.
Pinheiro – Pois
eu gosto bem das francesas.
Helena – Faz
bem! Nós é que temos a culpa! Se fôssemos como algumas que a ninguém têm
amor!...
Pinheiro – Qual!
Santo de casa não faz milagres.
José – Já viu uma dançarina que chegou pelo
paquete?
Pinheiro – A que
está no Hotel da Europa?
José – Não; está
aqui, no número 8.
Helena– Alguém lhe pediu notícias dela?
José (rindo) – O Sr. Pinheiro gosta de andar ao fato dessas coisas.
CENA II
(Pinheiro e Helena)
Helena – Como
esteve maçante o teatro hoje!
Pinheiro – Como
sempre.
Helena – Não sei
que graça acham esses sujeitinhos na Stoltz! Não tem nada de bonita!
Pinheiro – É
prima dona!
Helena – Sabes
quem deitou muito o óculo para mim? O Araújo.
Pinheiro – Ah!
Está apaixonado por ti?
Helena – E por que não? Outros melhores têm-se apaixonado!
Pinheiro – Isso é verdade!
Helena – Ah! Já
confessa!... Mas dizem que o Araújo agora está bem?
Pinheiro – É
guarda-livros de uma casa inglesa.
Helena – Foi
feliz; eu conheci-o caixeiro de armarinho.
Pinheiro –
Escuta, Helena; tenho uma coisa a dizer-te.
Helena – O
quê?... Temos arrufos?...
Pinheiro – Estou
apaixonado pela Carolina.
Helena – Já me
disseste.
Pinheiro –
Julgaste que era uma brincadeira! Mas é muito sério. Estou disposto a tudo para
conseguir que ela me ame.
Helena – Por
isso é que já não fazes caso de mim?
Pinheiro – Ao
contrário; é de ti que eu mais espero.
Helena – De mim?
Pinheiro – Não
me recusarás isto!
Helena – Ah!
Julgas que a minha paciência chega a este ponto?
Pinheiro – Foste
tu que protegeste o Ribeiro.
Pinheiro – Sim;
mas o Ribeiro não era meu amante, como o senhor!
Pinheiro – Ora,
deixa-te disso! Queres fazer de ciumenta! Que lembrança!...
Helena – Não
julgue os outros por si.
Pinheiro – Olha!
A Carolina gosta de mim, e...
Helena – E mais
cedo ou mais tarde devo ceder-lhe o meu lugar?
Pinheiro – Desde
que nada perdes...
Helena – É o que
te parece.
Pinheiro – Eu
continuarei a ser o mesmo para ti.
Helena – Cuidas
que não tenho coração?
Pinheiro – Se eu
não soubesse como tu és boa e condescendente, não te pedia este favor.
Helena – Está
feito! tu sempre me havias de deixar!... Antes assim!
Pinheiro -
Obrigado, Helena.
Helena – Que
queres que eu faça?
Pinheiro – Eu te
digo. Dei esta ceia ao Ribeiro unicamente para ver se consigo falar à Carolina.
Helena – Ah!
nunca lhe falaste?
Pinheiro –
Nunca: o Ribeiro não a deixa!
Helena – É
verdade: há dois anos que a tirou de casa e ainda gosta dela como no primeiro
dia.
Pinheiro – Posso
contar contigo?
Helena – Já te
prometi. Mas vês esta pulseira? Foi o presente que me fez o Ribeiro.
É de brilhantes!...
Pinheiro – Eu te
darei um adereço completo.
Helena – Não
paga o sacrifício que eu te faço!... esses homens pensam! Se eles dizem que a
gente é de mármore!
Pinheiro –
Falarás hoje mesmo a ela.
Helena – Falo...
Falo...
Pinheiro – Vê se consegues que deixe o Ribeiro.
Helena – Fica descansado. Eu sei o que hei de fazer. Agora vai contar isto aos teus amigos para que eles zombem de mim.
CENA III
(Os mesmos,. José, Ribeiro e Carolina)
José – Aí está o
Sr. Ribeiro com uma senhora. Posso servir?
Pinheiro – Podes.
Helena – Ainda
não. Espere um momento.
Pinheiro – Para
quê?
Helena – Já te
esqueceste?... deve ser antes.
Pinheiro – Ah! Sim!
Ribeiro –
Chegaram muito cedo.
Helena – Saímos
antes de acabar o espetáculo.
Ribeiro – Não
reparei. Quanto mais depressa acabarmos, melhor.
Pinheiro – A
Favorita fez-te fome?
Ribeiro –
Alguma: mas além disso preciso recolher-me cedo.
Carolina – Pois eu previno-te que enquanto houver uma luz sobre a mesa e uma gota de vinho nos copos, não saio daqui. Tenho tantas vezes sonhado uma noite como esta, tenho esperado tanto por estas horas de prazer, que pretendo gozá-las até o último momento. Quero ver se a realidade corresponde à imaginação.
Ribeiro – Está bem, Carolina: pode
ficar o tempo que quiseres. Não te zangues por isso.
Carolina – Oh!
Não me zango! Já estou habituada à vida triste a que me condenaste. Mas hoje...
Helena – Então
não vives satisfeita?
Carolina – Não
vivo, não, Helena: sabes que me prometeram uma existência brilhante, e me
fizeram entrever a felicidade que eu sonhava no meio do luxo, das festas e da
riqueza! A ilusão se desvaneceu bem depressa.
Ribeiro – Tu me
ofendes com isto, Carolina.
Carolina –`Cuidas
que foi para me esconderes dentro de uma casa, para olhar de longe o mundo sem
poder gozá-lo, que abandonei meus pais? Que sou eu hoje? Não tenho nem as
minhas esperanças de moça, que já murcharam, nem a liberdade que sonhei.
Ribeiro – Mas,
Carolina, tu bem sabes que eu, se te guardo para mim somente, se tenho ciúme do
mundo, é porque te amo: sou avaro, confesso; sou avaro de um tesouro.
Carolina – Não
entendo esse amores ocultos que têm vergonha de se mostrarem; isto é bom para
os velhos e para os hipócritas. Amar é gozar a existência a dois, partilhar
seus prazeres e sua felicidade. Que prazeres temos nós que vivemos aborrecidos
um do outro? Que felicidade sentimos para darmo-nos mutuamente?
Ribeiro – Está
hoje de mau humor.
Carolina – Ao
contrário, estou contente! A vista destas luzes, destas flores, desta mesa,
destes preparativos de ceia, me alegrou. É assim que eu compreendo o amor e a
vida. Na companhia de alguns amigos, vendo o vinho espumar nos copos e sentindo
o sangue ferver nas veias. Os olhares queimam como fogo; os seios palpitam, a
alma bebe o prazer por todos os poros; pelos olhos, pelos sorrisos, nos
perfumes, e nas palavras que se trocam!
Helena – Bravo!
Como estás romântica!
Carolina – Oh!
Tu não fazes idéia! Meu espírito tem revoado tantas vezes em torno dessa
esperança, que vendo-a prestes a realizar-se, quase enlouqueço. Outrora dei por
ela a minha inocência; hoje daria a minha vida inteira! (Ribeiro e Pinheiro
conversam à parte)
Helena– Pois
olha! Tens o que desejas bem perto de ti.
Carolina – Não
entendo.
Helena –
Deixa-te ficar e verás.
Carolina – Mas
escuta!
Helena – Depois;
não percas tempo.
Carolina – Já
perdi dois anos!
Ribeiro – Foste
injusta comigo, Carolina. Não acreditas que te amo, ou já não me amas talvez!
Confessa!
Carolina – Não
sei.
Ribeiro – Dize francamente.
Carolina – Como está quente a noite! Abre aquela janela. (Ribeiro vai abrir a janela do fundo; Helena que falava baixo a Pinheiro, dirige-se a ele, e ambos conversam recostados à grade e voltados para a rua)
CENA IV
(Carolina e Pinheiro)
Pinheiro – Eu
lhe agradeço, Carolina.
Carolina – O
que, senhor Pinheiro?
Pinheiro – A
satisfação que me causaram suas palavras. Não pensava, dando esta ceia, que ia
realizar um desejo seu.
Carolina – Ah! é
verdade! Mas sou eu então que lhe devo agradecer.
Pinheiro – Faça
antes outra coisa.
Carolina – O quê?
Pinheiro – Faça
que o acaso se torne uma realidade; que esta noite de esperança se transforme
em anos de felicidade. Aceite o meu amor.
Carolina – Para
fazer o que dele?
Pinheiro – O que
quiser; contanto que me ame um pouco, sim?
Carolina – Não.
Pinheiro – Amor
por amor, já tenho um; e este, ao menos é primeiro.
Pinheiro – O meu
será o segundo e eu procurarei torná-lo tão belo, tão ardente que já não tenha
mais inveja do primeiro.
Carolina – Já me
iludiram uma vez essas promessas, quando eu ainda via o mundo com os olhos de
menina, hoje não creio mais nelas.
Pinheiro – Não
tem razão.
Carolina – Oh!
se tenho! O senhor diz agora que me ama, por mim, para fazer-me feliz, para
satisfazer os meus desejos, os meus caprichos, as minhas fantasias. Se eu
acreditasse nessas belas palavras, sabe o que aconteceria?
Pinheiro – Me
daria a ventura!
Carolina – Sim,
mas ficaria o que sou. No momento em que lhe pertencesse, tornarme-ia um
traste, um objeto de luxo; em vez de viver para mim, seria eu que viveria para
obedecer às suas vontades. Não; no dia em que a escrava deixar o seu primeiro
senhor, será para reaver a liberdade perdida.
Pinheiro – Não é
livre então? Não pode amar aquele que preferir?
Carolina – Para
uma mulher ser livre é necessário que ela despreze bastante a sociedade para
não se importar com as suas leis; ou que a sociedade a despreze tanto que não
faça caso de suas ações. Eu não posso ainda repelir essa sociedade em cujo seio
vive minha família; há alguns corações que sofreriam com a vergonha da minha
existência e com a triste celebridade do meu nome. É preciso sofrer até o dia
em que me sinta com bastante coragem para quebrar esses últimos laços que me
prendem. Nesse dia, se houver um homem que me ame e que me ofereça a sua vida,
eu a aceitarei; porém como senhora.
Pinheiro – E por
que este dia não será hoje? Diga uma palavra! uma só...
Carolina –
Hoje?...Não!... Talvez amanhã.
Pinheiro –
Promete?
Carolina – Não prometo nada. Vamos cear. Anda. Helena! Ribeiro!... Deixem-se de conversar agora.
Pinheiro – José, serve-nos.
CENA V
(Os mesmos, Ribeiro, Helena e Meneses)
Ribeiro – É mais
de meia-noite.
Helena – Um dia
não são dias, Sr. Ribeiro; amanhã dorme-se até às duas horas da tarde.
Carolina –
Justamente as horas que eu passo mais aborrecida.
Tu me pareces a mesma. Achaste o que procuravas?
Carolina – Ainda
não. És difícil de contentar.
Pinheiro –
Adeus, Meneses. Queres cear conosco?
Meneses – Muito
obrigado.
Pinheiro – Não
faças cerimônia.
Meneses – Tu és
que estás usando de etiquetas. Onde vieste usar um quinto parceiro para jogar
uma partida de voltarete?
Ribeiro – Ah! É
por isso que não aceitas?
Meneses –
Decerto! Nesta espécie de ceias, a regra é nem menos de dois, nem mais de
quatro; um quinto transtorna a conta, a menos que não seja um zero. Ora, eu não
gosto de ser nem importuno, nem... Vieirinha!...
Pinheiro –
Deixa-te disso; vem cear.
Meneses – É
escusado insistires.
Ribeiro – Pois não sabes o que perdes.
Meneses – Não; mas sei quanto ganho.
Pinheiro – Podemos ir-nos sentando.
CENA VI
(Os mesmos, Luís, Araújo e José)
Araújo – Tu não és capaz de adivinhar quem eu vi esta noite no teatro.
Luís – Alguma tua apaixonada?
Araújo – Não
tenho... Uma pessoa que te fez bastante mal.
Luís – Quem?
Araújo–
Lembras-te daquela mulher que mandava fazer costuras... (Vendo Carolina, aperta
o braço de Luís) oh!
Luís – Ela!...
Araújo – Não
faças estaladas. Finge que não a vês; é o melhor.
Luís – Adeus.
Não posso ficar aqui.
Araújo –
Deixa-te disso, Luís. Nada de fraquezas!
Luís – Mas a sua
presença é uma tortura.
Araújo – Come
alguma coisa: é o melhor calmante para as dores morais. Tenho estudado a fundo
a fisiologia das paixões e estou certo que o coração está no estômago quando
não está na algibeira.
Meneses –
Araújo!
Araújo – Oh! Não te tinha visto.
Meneses –
Estiveste no teatro?
Araújo – Estive.
Meneses – Que
tal correu a Favorita?
Araújo – Bem;
por que não foste?
Meneses – Tinha
uma partida a que não podia faltar.
Pinheiro – Anda
mais depressa, José!
José – Pronto!
Uma mayonnaise soberba!
Helena – De quê?
José – De salmão? (Durante este último diálogo, Carolina tira as luvas e o mantelete, que vai deitar no sofá à direita; Luís ergue-se. O trecho seguinte da cena é dito à meia-voz)
Carolina – Luís.
Luís– Silêncio!
Carolina – Não
me quer falar, meu primo?
Luís – Com que
direito os lábios vendidos profanam o nome do homem honesto que deve a posição
que tem ao seu trabalho? Com que direito a moça perdida quer lançar a sua
vergonha sobre aqueles que ela abandonou?
Carolina – Não
me despreze, Luís.
Luís – Não a conheço.
Carolina – Tem
razão. Esqueci-me que estou só neste mundo; que não me resta mais nem pai, nem
mãe, nem parentes, nem família. O senhor veio lembrar-me! Obrigada.
Luís – Minha
prima!
Carolina – Sua prima morreu! (Volta-lhe as costas)
Helena
– Vem, Carolina!
Ribeiro – Quem é
este moço com quem conversavas?
Carolina – Não
sei.
Ribeiro – Não o
conheces?
Carolina – Nunca
o vi.
Ribeiro – Mas
falavas com ele?
Carolina –
Pedia-me notícias de uma amiga minha que já é morta.
Ribeiro – Não
estejas com estas idéias tristes. Anda; estão nos esperando.
Araújo – José,
traz-nos alguma coisa.
José – O que há
de ser?
Araújo – O que
vier mais depressa.
Meneses – E a
mim, quanto tempo queres fazer esperar?
José – O que
deseja, senhor Meneses?
Meneses – Desejo
o que tu não tens; dize-me antes o que há.
José – Quer uma
costeleta de carneiro?
Meneses – Vá
feito.
Araújo (a Luís)
– Sabes do que estou lembrando? Daquelas noites em que ceávamos juntos na Águia
de Prata, há dois anos, quando tu me falavas do teu amor. Naquele tempo não
tínhamos dinheiro, nem freqüentávamos os hotéis. Eras compositor e eu caixeiro
de armarinho na Rua do Hospício.
Luís – E hoje
somos mais felizes? Adquirimos uma posição bonita, que muitos invejam, mas
perdemos tantas esperanças que naqueles tempos nos sorriam!
Araújo – Vais
cair nos sentimentalismos! A esta hora é perigoso.
Luís – Dizes
bem! Há certas ocasiões em que é preciso rir para não chorar. (a José). Uma
garrafa de cerveja.
Araújo – Amarela!
CENA VII (br)
(Os mesmos e Vieirinha)
Vieirinha – Só o
Meneses não estaria por aqui!
Meneses – Sigo o
teu exemplo.
Vieirinha – Não
quiseste ir hoje ao lírico?
Meneses – Tive
que fazer.
Vieirinha – Pois
esteve bom; havia muita moça bonita. A Elisa lá estava.
Meneses – Então
já se sabe... Tiveste serviço?
Vieirinha – Não
lhe dei corda! ocupei-me com outra pessoa... Mas esta tu não conheces.
Meneses – É
nova?
Vieirinha –
Negócio de quinze dias; porém já está adiantado.
Meneses – Ainda
não te escreveu?
Vieirinha – És
curioso.
Pinheiro –
Vieirinha!
Vieirinha –
Adeus, Pinheiro!... Mas como está isto florido!
Pinheiro – Vem
cear conosco.
Vieirinha –
Aceito. Como estás, Ribeiro?
Ribeiro – À tua
saúde!
Pinheiro – E dos
teus amores.
Vieirinha –
Quais?
Meneses – São
tantos, que nem se lembra!
Araújo – Quem é este conquistador?
Meneses – Nunca
o viste?
Araújo – Não.
Meneses –
Admira! É um desses sujeitos que vivem na firme convicção de que todas as
mulheres o adoram; isto o consola do pouco caso que dele fazem os homens.
Araújo – Então é
um fátuo?
Meneses – Pois
não! É um homem feliz; vai a um teatro e a um baile; acha bonita uma mulher,
solteira, viúva ou casada; persuade-se que ela o ama; e no dia seguinte com a
maior boa fé revela esse segredo a alguns amigos bastante discretos para só
contarem aos seus conhecidos.
Araújo – E é
nisso que se ocupam?
Meneses – Achas
que é pouco?
Vieirinha – Uma
saúde! Mas há de ser de virar.
Helena – A quem?
Vieirinha – À
mulher que compreende o amor. Pois eu bebo à mulher que compreende o prazer.
Pinheiro –
Bravo! Muito bem!
Helena – Não
bebe, senhor Ribeiro?
Ribeiro – Eu
bebo à minha saúde.
Helena – E eu à
segunda.
Vieirinha – E eu
a ambas.
Pinheiro – José,
pede permissão a estes senhores para oferecer-lhes um copo de champagne. Espero
que me façam o obséquio de acompanhar a nossa saúde.
Vamos, Meneses!
Meneses – Qual é
a saúde?
Carolina – À
mulher que ama o prazer.
Meneses – Vá lá!
Pinheiro – Os
senhores não bebem?
Araújo – Eu
agradeço.
Pinheiro – E o
senhor Viana?
Luís – Eu
proponho outra saúde: ao prazer e àqueles que para gozá-lo sacrificam tudo!
Pinheiro – É a
melhor!
Luís – E a mais
verdadeira. Se os senhores me permitem, eu lhes contarei uma pequena história
que os há de divertir.
Vieirinha – Com
muito gosto.
Meneses – Venha
a história.
Luís – O senhor
pode aproveitá-la para um dos seus folhetins, quando lhe falte matéria.
Meneses – Fica
ao meu cuidado.
Vieirinha – Mas
não a apliques a ti, conforme o teu costume.
Meneses – Se for uma história de amor, está visto que hás de ser tu o meu herói.
Luís – É uma história de amor.
Passou-se há dois anos.
Pinheiro – Aqui
na corte?
Luís – Na Cidade
Nova. Vivia então no seio de uma família uma moça pobre, mas honrada. Tinha
dezoito anos; era linda... como... uma senhora que está a seu lado, Sr.
Ribeiro.
Ribeiro – Em que
rua morava?
Luís – Não me
lembro. Seu pai e sua mãe a adoravam; tinha um primo, pobre artista, que a
amava loucamente.
Carolina – A
amava?...
Luís – Sim,
senhora. Era ela quem lhe dava a ambição; era esse amor que o animava no seu
trabalho, e que o fazia adquirir uma instrução que depois o elevou muito acima
do seu humilde nascimento. Mas sua prima o desprezou, para amar um moço rico e
elegante.
Araújo (baixo) –
Vais trair-te.
Luís – Não
importa.
Pinheiro –
Continue, senhor Viana.
Helena – Eu acho
melhor que se faça uma saúde cantada.
Vieirinha – Com
hipes e hurras!
Carolina – Por
quê?... A história do senhor é tão bonita.
Vieirinha – Lá
isso não se pode negar! É um perfeito romance.
Luís – Uma
noite, no momento em que esse moço entrava, sua prima seduzida por seu amante,
ia deixar a casa dos pais.
Meneses – O!
Temos um lance dramático?
Luís – Não,
senhor; passou-se tudo muito simplesmente. Ele disse algumas palavras severas à
sua prima; esta desprezou suas palavras como tinha desprezado o seu amor,
e...partiu.
Vieirinha –
Como! O sujeito deixou-a partir?
Luís – É
verdade.
Carolina – E a
amava!...
Meneses – Era um
homem prudente.
Luís – Era um
homem que compreendia o prazer.
Pinheiro – Não
entendo.
Luís – Ele amava
essa moça, mas não era amado; nunca obteria dela o menor favor, e respeitava-a
muito para pedi-lo. Lembrou-se que, deixando-a fugir, chegaria o dia em que com
algumas notas de banco compraria a afeição que não pôde alcançar em troca de
sua vida.
Araújo – Como
podes mentir assim!
Ribeiro – Não
bebas tanto champagne, Carolina. Faz-te mal!
Luís – Esse
homem compreendia o mundo, não é verdade?
Vieirinha – Era
um grande político.
Meneses – Da tua
escola.
Luís – Desde
então ele tratou de ganhar dinheiro; precisava não só para satisfazer o seu
capricho, como para aliviar a miséria da família daquela moça, que com a sua
loucura, tinha lançado sua mãe em uma cama, e arrastado o pai ao vício da
embriaguez. Ah!...
Ribeiro – Que
tens?
Carolina – Uma
dor que costumo sofrer! Dá-me vinho.
Luís – É
justamente o que esse pai fazia. Sentia a dor da perda de sua filha e queria
afogá-la com vinho.
Vieirinha – Mau!
A história começa a enternecer-me.
Meneses – É bem
interessante.
Carolina – Mas
falta-lhe o fim.
Meneses – Ah!
Tem um fim?
Ribeiro –
Carolina!
Carolina – Essa moça... Os senhores desejam conhecê-la?
Vieirinha – Decerto.
Carolina – Sou
eu!
Pinheiro – A
senhora!
Luís (a Araújo)
– Está perdida.
Carolina – Sou
eu: e espero que chegue o dia em que possas pagar o sacrifício desse amor tão
generoso, que desprezei.
Pinheiro – Mas
seu primo?...
Carolina – Já o
não é.
Meneses – Como
se chama?
Carolina – Não
sei.
Araújo – José,
dá-me a conta.
Meneses – Espera, vamos juntos.
Araújo – Ainda te demoras!
Meneses – Não.
CENA VIII
(Os mesmos, José e Antônio)
José (na porta)
– Ponha-se na rua! Não achou outro lugar para cozinhar a bebedeira?
Antônio (da
parte de fora) – Quero beber... Vinho... compro com o meu dinheiro. Eh!
Meia garrafa, senhor moço!
José – Vá-se
embora, já lhe disse.
Meneses – Que
barulho é este, José?
José – É um
bêbado. Achou a porta aberta e entrou. Agora quer por força que lhe venda meia
garrafa de vinho.
Araújo – Pois
mata-lhe a sede.
José – Se ele já
está caindo.
Antônio (cantando) – Mandei fazer um balaio Da casquinha de um camarão
José – Nada! Ponha-se no andar da rua.
Carolina –
Deixe-o entrar; talvez nos divirta um pouco. Estou triste.
José – Mas é
capaz de quebrar-me a louça.
Pinheiro – Que
tem isso? Eu pago o que ele quiser.
Carolina – É uma
fineza que lhe devo.
Ribeiro – Mas
não é necessária; tu podes satisfazer a teus caprichos sem recorrer a ninguém.
Antônio – Oh!
temos bródio por cá também? Viva a alegria! Toca música! Ta-ra, lalá, ta-ri,
to-ri (dança).
Meneses – O
homem é diletante como o Vieirinha.
Vieirinha – E
engraçado como um artigo teu.
Antônio – Estão
rindo?... Cuidado que estou meio lá meio cá.
Meneses – Não;
faz tanto barulho que vê-se logo que está todo cá.
Antônio – Pois
olhe, apenas bebi seis garrafas.
Vieirinha – Não
é muito!
Antônio – Não é,
não. Mas faltavam-lhe os cobres, senão... Oh! Tanto hei de beber que por fim
hei de achar.
Meneses – Achar
o quê?
Antônio – Não
sabe? Upa!... Pois não sabe?... Eu não bebo porque goste de vinho... Já me
enjoa.
Meneses – Por
que bebe então?
Antônio – Porque procurôôô... eh! Iô... procuro no fundo da garrafa uma coisa que os velhos chamam virtude, e que não se acha mais nesse mundo.
Pinheiro – Eis um Diógenes!...
Helena – Como te
chamas?
Antônio – Que te
importa o meu nome? Não tenho dinheiro!
Araújo – (a
Luís, baixo) – Luís! Luís! Olha!
Luís – O quê?
Araújo – Este
homem.
Luís –
Antônio!...
Araújo –
Cala-te!
Meneses – Mas
então ainda não achou o que procuravas?
Antônio –
Hein?...
Meneses – A
virtude...
Antônio – Não
existe. No fundo da garrafa só acho o sono. Mas é bom o sono. A gente não se
lembra...
Vieirinha – Das
maroteiras que fez.
Antônio – A
gente vive no outro mundo que não é ruim como este. Oh! é bom o vinho!
Vieirinha – Pois
tome lá este copo de champagne.
Antônio – Venha!
(Provando) Puah!... não presta! É doce como as falas de certa gente;
embrulha-me o estômago! Antes a aguardente que queima!
Meneses – Chegue
aqui; diga-me o que você procura esquecer. Sofreu alguma desgraça?
Vieirinha –
Queres outra história?
Antônio – Qual
história? Não sofri nada! Diverti os outros.
Meneses – Mas
conte isso mesmo.
Antônio – Não
tem que contar... O trabalhador não deve criar sua filha para os moços da moda?
Meneses – Então
sua filha...
Antônio –
Roubaram e nem ao menos me deram o que ela valia! Velhacos... Os sujeitinhos
hoje estão espertos!
Meneses – Pobre
homem!
Antônio – Pobre, não! (Bate no bolso) Veja como tine. (Rindo) A mulher está doente, não trabalha; eu durmo todo o dia, não vou mais à loja; porém Margarida tinha uma cruz de ouro com que rezava. Fui eu, e furtei de noite a cruz, como o outro furtou minha filha, e passei-a nos cobres. Cá está o dinheiro; chega para beber dois dias. Estou rico! Viva a alegria! Olá! senhor moço! Ande com isso!... Meia garrafa!...
Helena – (à Carolina) – Vamos para outra sala; não podes ficar aqui. (Erguem-se)
Ribeiro (a José) – Faz já sair este bêbado!
Araújo (a Luís)
– Tenho medo do que vai se passar.
Antônio (para Carolina) – Olé! Que peixão! Dê cá este abraço... menina!
Carolina – Meu pai!...(Esconde o rosto)
Antônio –
Pai!... Há muito tempo que não ouço esta palavra. Mas quem és tu? Deixa-me ver
o teu rosto. Tu pareces bonita. Serás como Carolina? Mas... se não me engano...
Sim... Sim... Tu és!
Carolina – Não!
Antônio – Tu és
minha filha!
Carolina – É
falso!
Antônio – Não
foste tu que me falaste há pouco?... aqui... Não me chamaste teu pai?...
Carolina!
Carolina –
Deixe-me!
Antônio – Vem!
Tua mãe me pediu que te levasse.
Carolina – Minha
mãe!...
Antônio – Sim,
tua mãe... Margarida. Se soubesses... como ela tem chorado...
Minha pobre Margarida!
Carolina – Não
sei quem é.
Antônio – Não
sabes?
Carolina – Não!
Antônio – Tu não
sabes?
Carolina – Meu
Deus!
Antônio –
Esqueceste até o nome de tua mãe?
Carolina –
Esqueci tudo.
Antônio – Oh! tens razão! Tu não és minha filha. Nunca foste... (Precipita-se sobre ela e a obriga a ajoelhar-se. Ribeiro e Pinheiro protegem Carolina, enquanto Luís segura Antônio pelo braço)
Luís –
Antônio!
Antônio –
Solta-me, Luís!
Meneses – Não a
ofenda! É sua filha!
Antônio – Não:
já não é.
Meneses – Mas é
ainda uma mulher. Deseja puni-la? Respeite essa vida que a levará de lição em
lição até o último e terrível desengano. É preciso que um dia a sua própria
consciência a acuse perante Deus, sem que possa achar defesa, nem mesmo na
cólera severa, mas justa de um pai.
Araújo – Vamos;
vamos, Luís.
Antônio – E
ela... fica.
Araújo – Nem lhe
responde!
Antônio – Pois
sim, fica; se algum dia me encontrares no teu caminho, se o teu carro atirar-me
lama à cara, se os teus cavalos me pisarem, não me olhes, não me reconheças. Vê
o que tu és, que um miserável bêbado, que anda caindo pelas ruas, tem vergonha
de passar por teu pai!
Luís – Espera, Antônio! Talvez ainda não esteja tudo perdido. Um último esforço! Abre os braços à tua filha!... Olha! Olha!... Não vês que ela chora?
Carolina – Foram as últimas lágrimas... já secaram!... se tivessem caído neste copo, eu beberia com elas à memória do meu passado.
ATO SEGUNDO (Sala em casa de Helena)
CENA PRIMEIRA
(Luís, Araújo e Meneses)
Meneses –
Podemos entrar. Nada de cerimônias.
Araújo – Talvez
sejamos importunos.
Meneses – Não
tenhas receio. Sente-se, Sr. Viana.
Araújo – E o tal
Vieirinha?
Meneses– Que
tem? (Na porta Helena!
Helena (dentro)
– Já Vou, Sr. Meneses.
Meneses – Está
no toilette naturalmente. Esperemos um instante.
Araújo – Não
cuidei que se tratasse com tanto luxo! É uma bela casa.
Meneses – Como
muitas famílias não a têm; mas assim deve ser quando os maridos roubam as suas
mulheres, e os pais a seus filhos para alimentarem esses parasitas da
sociedade.
Luís – Dizes
bem; a culpa não é delas.
Meneses – Mas,
Araújo, sinceramente te confesso que ainda não compreendi o teu empenho!
Araújo – Empenho
de quê?
Meneses – De
conhecer a Helena. Achas bonita?
Araújo – Bonita!... Uma mulher que tem os dentes e os cabelos na Rua do Ouvidor!
Meneses – Entretanto entraste hoje de
madrugada, quero dizer, às dez horas por minha casa; interrompeste o meu sono
de domingo, o único tranqüilo que tem um jornalista; me fizeste sair sem
almoço; pagaste um carro; e tudo isto para que te viesse apresentar a essa
velha sem dentes e sem cabelos!
Araújo – Isso se explica por um capricho. Sou um tanto original nas minhas paixões.
Meneses – Então estás apaixonado pela
Helena?
Araújo –
Infelizmente.
Luís – Por que
não confessas a verdadeira causa? O Sr. Meneses é teu amigo, e embora só há
pouco tempo tivesse o prazer de conhecê-lo, confio bastante no seu caráter para
falar-lhe com franqueza.
Araújo – É o
melhor; assim me poupas o descrédito de inventar uma paixão bem extravagante.
Meneses – Qual é
então a verdadeira causa desta apresentação?
Luís – Eu lhe
digo. Trata-se de salvar uma moça por quem muito me interesso; quero falar-lhe
ainda uma vez, tentar os últimos esforços; mas na sua casa é impossível; o
Ribeiro guardou-o com um cuidado e uma vigilância excessiva.
Meneses – E a
Carolina?
Luís – Ela
mesma. Lembra-se daquela cena que presenciamos no hotel há cerca de um mês?
Meneses –
Lembro-me perfeitamente; e parece-me, pelo que vi, que os seus esforços serão
inúteis.
Araújo – É
também a minha opinião. Tenho-lhe dito muitas vezes que a honra de um homem é
uma coisa muito preciosa para estar sujeita ao capricho de qualquer mulher, só
porque o acaso a fez sua parente.
Luís – Não é por
mim, Araújo, é por ela que procuro salvá-la. Reconheço que é bem difícil; mas
resta-me ainda uma esperança: talvez a mãe obtenha pelo amor, aquilo que nem a
voz da razão nem o grito do dever puderam conseguir.
Meneses – Pensa
bem, Sr. Viana.
Luís – Para
isso, porém, é preciso encontrá-la um só instante; soube que costuma vir à casa
desta mulher que a perdeu e de quem é amiga. Araújo disse-me que o senhor a
conhecia; e fomos imediatamente procurá-lo. Eis o verdadeiro motivo do incômodo
que lhe demos; o Sr. Meneses é homem para o compreender e apreciar.
Meneses – Não se
enganou, Sr. Viana; farei o que me for possível.
Meneses – Não
tem de que; é dever de todo homem honesto proteger e defender a virtude que
vacila e vai sucumbir ou mesmo ajudá-la a reabilitar-se. Mas devo corresponder
à sua fraqueza com igual franqueza. Creio que o senhor, e tu mesmo, Araújo, não
conhecem bem o terreno em que pisam.
Luís – Não,
decerto.
Araújo – Quanto
a mim estou em país estrangeiro.
Meneses – Pois é
preciso estudar o movimento e a órbita destes planetas errantes para
acompanhá-los na sua rotação. Aqui não se conhece nem um desses objetos como a
honra, o amor, a religião, que fazem tanto barulho lá fora. Neste mundo à
parte, só há um poder, uma lei, um sentimento, uma religião; é o dinheiro. Tudo
se compra e tudo se vende; tudo tem um preço.
Luís – Que
miséria, meu Deus!
Meneses – Quem
vê de longe este mundo, não compreende o que se passa nele, e não sabe até onde
chega a degeneração da raça humana. O oriente desses astros opacos é o luxo; o
ocaso é a miséria. Começam vendendo a virtude; vendem depois a sua beleza, a
sua mocidade, a sua alma; quando o vício lhes traz a velhice prematura, não
tendo já que vender, vendem o mesmo vício e fazem-se instrumento de corrupção.
Quantas não acabam vendendo suas filhas para se alimentarem na desgraça!
Araújo – Tu
exageras!... Ninguém se avilta a esse ponto.
Meneses – Não
exagero. Muitas são boas e capazes de um sacrifício; têm coração.
Mas de que lhes serve esse traste no mundo em que vivem!
Araújo – Para amar o homem a quem devem tudo.
Meneses – Ele seria o primeiro a escarnecer dela.
CENA II
(Os mesmos, Vieirinha e Helena)
Vieirinha
(cantarolando) – De suis le sire de Framboisy! meus senhores!... Não se
incomodem, estejam a gosto.
Meneses – Adeus.
Como vais?
Vieirinha – Bem,
obrigado.
Meneses – Que se
faz de bom?
Vieirinha –
Nada; enche-se o tempo.
Meneses – Enfim
apareceu!
Helena –
Desculpe; se me tivesse prevenido da sua visita... Mas chega de repente e no
momento em que estava me penteando.
Meneses – Tem razão!... Aqui lhe trouxe o Sr. Viana e o Sr. Araújo que muito desejam conhecê-la. São meus amigos; isto diz tudo.
Helena – A minha casa está às suas ordens. Estimo muito...
Meneses – Se não
me engano, o Sr. Viana deseja conversar com a senhora; portanto não o faça
esperar.
Helena – Fazer
esperar é o nosso direito, Sr. Meneses!
Meneses – Quando
se trata de amor, mas não quando se trata de um negócio.
Helena – Ah! É
um negócio...
Luís – Sim,
senhora...
Helena – Pois
quando quiser...
Vieirinha – Já
almoçaste, Helena?
Helena – Há pouco; mas o almoço ainda está na mesa.
Vieirinha – Com licença, meus senhores. (Luíse Helena conversam no sofá;
Meneses e Araújo recostados à janela)
CENA III
(Meneses, Araújo, Luís e Helena)
Araújo – Não me
dirás que figura faz este Vieirinha no meio de tudo isto?
Meneses – A
figura de um desses sagüis com que os moços se divertem. Neste mundo de
mulheres, Araújo, existem duas espécies de homens, que eu classifico como
animais de penas. Uns são os moços ricos e os velhos viciosos que se arruinam e
estragam a sua fortuna para merecerem as graças dessas deusas pagãs; esses se
depenam. Os outros são os que vivem das migalhas desse luxo, que comem e vestem
à custa daquela prodigalidade; esses se empenam.
Araújo – O
Vieirinha pertence a esta última classe.
Meneses – É o
tipo mais perfeito. Em todas estas casas encontra-se uma variedade do gênero
Vieirinha.
Araújo – Mas por
que razão suportam elas esse animal? Será amor?
Meneses – Às
vezes é; outras é simples orgulho e vaidade. Esta gente que profana tudo, que
faz de tudo, dos sentimentos mais puros uma mercadoria, depois de tanto vender,
quer também ter o gosto de comprar. Umas compram logo um marido; outras
contentam-se em comprar um amante. É mais cômodo: deixa-se quando aborrece.
Araújo – É o que
Helena fez com o Vieirinha?
Meneses –
Justamente.
Meneses – E
sai-lhe caro esse capricho?
Meneses – Sem
dúvida; mas o dinheiro como vem, assim vai. Depois ela dá por bem empregado
qualquer sacrifício. Não quer parecer velha.
Araújo – Mas
quando ceamos juntos, aquela noite ao sair to teatro, me pareceu que o
Pinheiro...
Meneses –
Deixou-a; está apaixonado pela Carolina; e a Helena, segundo me disseram, o
protege.
Araújo – Ah! De
amante passou a confidente?
Meneses – É
verdade. Tu ficas?
Araújo – Espero
por Luís.
Meneses – Então,
adeus.
Araújo – Por que
não te demoras? Sairemos juntos.
Meneses – Não
posso; tenho que fazer. Vou almoçar e depois escrever um artigo. Até a noite.
Araújo – Aonde?
Meneses – No
Teatro Lírico. Não vais?
Araújo – É
natural.
Meneses – Sr.
Viana! Helena...
Luís – Já vai?
Nós o acompanhamos.
Meneses –
Depressa terminou a sua conversa!
Luís – É
verdade; a senhora foi tão simples!
Meneses – Fico
bastante satisfeito; é sinal de que a minha apresentação valeu um pouco.
Helena – O
senhor sabe que ela vale sempre muito.
Araújo (a Luís) – Conseguiste?
Luís – Consegui
tudo. O Meneses tem razão: o dinheiro venceu todas as dificuldades. Ao
meio-dia, Carolina está aqui.
Araújo – Ao
meio-dia?... São mais de onze...
Luís – Toma o
carro. Ela está doente, mas a esperança de ver sua filha...
Araújo – E tu
onde me esperas?
Luís – Eu vou
dar uma volta, e dentro de meia hora voltarei.
Araújo – Até já,
Meneses! (à Helena) Viva!
Luís – Vamos, Sr. Meneses.
Helena – Então ao meio-dia?
Luís – Aqui estarei.
CENA IV
(Helena e Vieirinha)
Vieirinha –
Almocei bem! O Meneses já foi?
Helena – Saiu
agora mesmo.
Vieirinha – E os
outros?
Helena – Também.
Vieirinha – Que
fazer tu hoje?
Helena – Nada.
Vieirinha –
Então não precisas de mim?
Helena – Que
pergunta!
Vieirinha –
Dá-me um charuto.
Helena – Não
tenho.
Vieirinha –
Estás hoje muito aborrecida.
Helena – E tu
muito maçante.
Vieirinha – Não
duvido; passei mal a noite. (Estende-se no sofá) Se quiseres conversar,
acorda-me.
Helena – Não se
deite, não senhor.
Vieirinha – Por
quê?
Helena – Não são
horas de dormir.
Vieirinha – Ora,
quando se tem sono...
Helena – Espero
Carolina. Preciso estar só com ela.
Vieirinha – Está
feito. vou trocar as pernas por aí.
Helena – Não
voltas?
Vieirinha – É
boa! Deitas-me pela porta fora e achas que devo voltar?
Helena – Estás
zangado?... Deixa-te disso. Volta às quatro horas.
Vieirinha – Para
fazer o quê?
Helena – Iremos
jantar ao Hotel de Botafogo.
Vieirinha – É
muito longe.
Helena – Não
faltes.
Vieirinha – Se
puder.
Helena – Conto
contigo.
Vieirinha – Vai só.
Helena – Não tem
graça!
Vieirinha – Pois
eu não posso ir.
Helena – Por que
razão?
Vieirinha – Por
quê...
Helena – Estás
inventando a mentira?
Vieirinha –
Tenho acanhamento em confessar-te.
Helena – Começas
tarde com os teus acanhamentos!
Vieirinha
(rindo) – Deveras!... Pois não vou ao Hotel de Botafogo porque não quero
encontrar-me com certo sujeito.
Helena – Ou
sujeita?...
Vieirinha – Já
está com ciúmes! É um rapaz que me ganhou outro dia cinqüenta milréis no jogo,
e a quem ainda não paguei.
Helena – Não
será o primeiro.
Vieirinha – Nem
o último. Mas esse tem uma irmã feia e rica que pode ser um excelente
casamento. Se não lhe pago, fico desacreditado na família.
Helena – Bem
feito! Só assim deixarás o maldito vício do jogo.
Vieirinha – Ah!
Deu-te para aí! Queres pregar-me um sermão? Basta os que ouço do velho! (Vai
sair)
Helena – Então,
até quatro horas?
Vieirinha – Não,
decididamente não vou; já te disse o motivo.
Helena – Olha!
Se tu me prometesses...
Vieirinha – O quê?
Helena – Não
jogar mais.
Vieirinha – Que
farias?
Helena – Faria
um sacrifício...
Vieirinha – Sacrifício... (faz o gesto vulgar com que se exprime dinheiro)
Helena – Sim!
Vieirinha –
Prometo o que tu quiseres! Juro!
Helena (dando-lhe uma nota) – Pois toma; vai pagar a tua dívida e volta.
Vieirinha – Está dito!... Tu és uma flor, Helena.
Helena – Sim! Vêm a tempo os teus cumprimentos; nem fazes caso de mim.
Vieirinha – Não digas isto. Os únicos momentos de felicidade que tenho são os que passo junto de ti. Até a tarde!
CENA V
(Helena e Carolina)
Carolina –
Cheguei muito cedo!
Helena – Não faz
mal.
Sentia uma impaciência!... Apenas Ribeiro saiu, meti-me num
carro...Antes que me arrependesse!
Helena – Assim
estás resolvida?
Carolina –
Inteiramente.
Helena – Já duas
vezes disseste o mesmo, e quando chegou o momento...
Carolina –
Hesitei antes de dar este passo; não sei que pressentimento me apertava o
coração, e me dizia que eu procedia mal. Foi o primeiro homem a quem amei neste
mundo; é o pai de minha filhinha. Parecia-me que devia acompanhá-lo sempre!
Helena – Se ele
não te abandonasse mais dia, menos dia.
Carolina – Não
há de ter este trabalho; hoje resolvi-me; esta existência pesa-me. A que horas
vem o Pinheiro?
Helena – Não
pode tardar.
Carolina – É
muito longe daqui a Laranjeiras?
Helena – Não; é
um instante! Em cinco minutos podes lá estar.
Carolina – Já
viste a casa?
Helena – Ainda
ontem. Está arranjada com um luxo!... O Pinheiro vai te tratar como uma
princesa.
Carolina –
Contanto que me deixe livre.
Helena – Ele te
adora; há de fazer todas as tuas vontades. Queres ver que lindo presente te
mandou?
Carolina – Por
ti?
Helena – Sim; está aqui. (Tira do bolso caixas de jóias)
Carolina – Um colar...pulseiras...um adereço completo!
Helena – Não é
de muito gosto?
Carolina – São
brilhantes?
Helena –
Verdadeiros... Mas, Carolina, tenho uma notícia a dar-te.
Carolina – Que
notícia?
Helena – Teu
primo deseja ver-te.
Carolina –
Luís!... Esteve aqui!... Que me quer ele? Ainda não está satisfeito com me ter
mostrado tanto desprezo?
Helena – Que te
importa?
Carolina –
Sempre que o vejo fico triste. Sofro por muitos dias.
Helena – Foi a
princípio.
Carolina – Ainda
hoje não posso esquecer as palavras que ele me disse há dois anos. E são tão
amargas as suas palavras!
Helena –
Entretanto ele te ama.
Carolina – A
mim?... Tu pensas...
Helena – Não nos
disse outro dia no hotel?
Carolina – Disse
que amava outra Carolina, que não sou hoje.
Helena – Cuidas
que por uma mulher preferir outro homem, aquele que ela desprezou deixa de
amá-la? Como te enganas!
Carolina – Então
acreditas?
Helena – Agora
mesmo ele aqui esteve: e me falou de ti com um modo...
Carolina – Que
te disse?
Helena –
Confessou que estava arrependido do que fez; que deseja ver-te para mostrar que
sempre te estimou e ainda te estima.
Carolina – Não é
possível, Helena. Se Luís me estimasse não me falava com tanto desprezo.
Helena – Ora,
Carolina, se tu amasses um homem que se casasse com outra mulher, o que farias?
Carolina – Tens
razão.
Helena – Espera.
Carolina – Mas
ele te disse que me queria ver? Voltará?
Helena – Creio
que sim.
Carolina – Meu
Deus!
Helena – Que mal
faz que tu lhe fales? Se ele te ofender, entre para dentro; se quiser amar-te,
faz o que entenderes; mas não esqueças o Pinheiro.
Carolina – Sei o
que devo fazer.
Helena – Se
precisares de mim, chama-me.
Carolina – Me deixas só?
Helena – Ao contrário, vê quem está aí.
CENA VI
(Luís e Carolina)
Carolina – Luís!
Luís – Não me
recusou falar, Carolina. Eu lhe agradeço.
Carolina – Por
que recusaria?
Luís – Depois do
que se tem passado, não era natural que desejasse fugir à presença de um
importuno?
Carolina – Qual
de nós, a primeira vez que nos encontramos depois de uma longa ausência,
repeliu o outro?
Luís – A
repreensão é justa, eu a mereço. Mas não creio que venho ainda lembrarlhe um
passado que todos devemos esquecer, e acusá-la de uma falta de que outros
talvez sejam mais culpados. Venho falar-lhe como irmão; queres ouvir-me?
Carolina – Fale;
não tenho receio.
Luís – Todos
nós, Carolina, homens ou mulheres, velhos ou moços, todos sem exceção, temos
faltassem nossa vida; todos estamos sujeitos a cometer um erro ou praticar uma
ação má. Uns, porém, cegam-se ao ponto de não verem o caminho que seguem;
outros se arrependem a tempo. Para estes o mal não é senão um exemplo e uma
lição: ensina a apreciar a virtude que se desprezou em um momento de desvario.
Estes merecem, não só o perdão, porém muitas vezes a admiração que excita a sua
coragem.
Carolina – Não,
Luís; há faltas que a sociedade não perdoa, e que o mundo não esquece nunca. A
minha é uma destas.
Luís – Está
enganada, Carolina. Se uma moça que, levada pelo seu primeiro amor, ignorando o
mal, esqueceu um instante os seus deveres, volta arrependida à casa paterna; se
encontra no coração de sua mãe, na amizade de seu pai, na afeição dos seus, a
mesma ternura; se ela continua a sua existência doce e tranqüila no seio da
família; por que a sociedade não lhe perdoará, quando Deus lhe perdoa,
dando-lhe a felicidade?
Carolina – Nunca
ela poderá ser feliz! A sua vida será uma triste expiação.
Luís– Ao
contrário, será uma regeneração. Em vez da paixão criminosa que a rouba de seus
pais, ela pode achar no seio de sua família o amor calmo que purifique o
passado e lhe faça esquecer a sua falta.
Carolina – É verdade, então, Luís?... Helena não me enganou!
Luís – O quê?... Não sei...
Carolina – Ainda
me ama!
Luís – Eu?...
Carolina – Não
era de si que me falava?
Luís – Não,
Carolina; falava do Ribeiro.
Carolina – Ah!
Era dele!...
Luís – É o único
que tem direito de amá-la.
Carolina – Pois
eu não o amo.
Luís – Não
creio.
Carolina –
Juro-lhe.
Luís – É
impossível.
Carolina –
Amanhã não duvidará.
Luís –
Amanhã?... Que vai fazer?
Carolina – Há de
saber.
Luís – Carolina,
eu lhe peço, não dê semelhante passo; ele é ainda mais grave do que o primeiro.
Compreendo que uma menina inexperiente sacrifique-se à afeição de um homem; mas
nada justifica a mulher que renegar aquele a quem deu sua vida.
Carolina – Então
não posso deixá-lo!
Luís – Não! Uma
mulher deve sempre conservar a virgindade do coração e guardar pura sua
primeira afeição. Respeita-se o consórcio moral de duas criaturas que se unem
apesar do mundo e dos prejuízos que as separam; respeita-se a virtude ainda
quando ela não reveste as fórmulas de convenção. Mas despreza-se a mulher que
aceita qualquer amor que lhe oferecem.
Carolina – E
quem lhe diz que amarei a outro?
Luís – O
primeiro amor é às vezes o último; o segundo nunca o será.
Carolina – Podia
ser, Luís, se o não desprezassem.
Luís – Não
compreendo.
Carolina –
Também eu não compreendo este sentimento; mas o coração é assim feito; deseja o
que não pode obter, e que muitas vezes desdenhou quando lhe ofereciam.
Admiro-me do que se passa em mim, e não sei explicá-lo. Parece-me, às vezes,
que ainda haveria um meio de ligar o fio de minha vida às recordações dos meus
dezoito anos, e continuar no futuro a existência tranqüila de outrora. Mas esse
meio... é uma loucura.
Luís – Diga,
Carolina! Eu farei tudo...
Carolina –
Tudo!...
Luís – Duvida?
Carolina –
Ame-me então!
Luís – Escarnece
de mim.
Carolina – Luís!
Luís – Creia-me,
Carolina. Se eu estivesse convencido da realidade desse amor, ainda assim,
sacrificaria a minha felicidade à sua.
Carolina – Está
bem! Não falemos mais nisso. Foi um gracejo; não faça caso... Adeus...
Luís – Já me
despede.
Carolina – Pode ficar se quiser. (Chega-se ao espelho, e enxuga furtivamente uma lágrima. Deita fora as jóias que Helena lhe dera)
Luís
(vendo no relógio) – Meio dia...
Carolina – Cuidei que fosse mais tarde!... Bonitas pedras! Não são? Foi um presente!...
– Ah! foi um presente?
– Não é de bom gosto?
CENA VII
Helena – Quem
está aí?
Carolina – Não.
Helena – O
Ribeiro.
Carolina – Ah!
Helena – Que
virá fazer?
Carolina – Não
sei. Naturalmente recebeu a minha carta mais cedo do que devia.
CENA VIII
Ribeiro (à
Carolina) – Esta carta?
Carolina – É
minha.
Ribeiro – Que
quer dizer isto?
Carolina – Não
leu? Preveni-o da minha resolução.
Ribeiro – Não
acredito!... tu não podes deixar-me!
Carolina – Não
posso... Por quê?
Ribeiro – Tu és
minha, Carolina! Tu me pertences!
Carolina –
Engana-se; o que lhe pertence ficou em sua casa; deixando-o, deixei tudo o que
me havia dado.
Ribeiro – Que me
importa isso? É a ti que eu não quero e não devo perder.
Carolina – Seu
que incomoda a falta de um objeto com o qual estamos habituados! Mas
paciência... nem sempre a moça tímida havia de sujeitar-se ao jugo que lhe
impuseram.
Ribeiro – É a
segunda vez que me fazes esta exprobração. Não me compreendes! Se eu não te
amasse, teria realizado os teus sonhos; gozaria um momento contigo desta vida
louca e extravagante que te fascina e depois te abandonaria ao acaso. Mas Deus
puniu-me com a minha própria falta: quis seduzir-te e amei-te. Não sabes o que
tenho sofrido... em que luta vivo com minha família!
Carolina – Nesse
ponto me parece que se algum de nós deve ao outro, não é decerto aquela que
sacrificou a sua existência. Mas não cuide que me queixo; aceito o meu destino!
Fui eu que assim o quis...
Ribeiro – Tu me
lembras que tenho uma dívida de honra a pagar-te.
Carolina –
Obrigada! Basta-me a liberdade e o sossego!
Ribeiro – Então
decididamente me deixas?
Carolina – Já o deixei; já não estou em sua casa. A minha é nas Laranjeiras.
Ribeiro – A dele, queres dizer? A do
Pinheiro!
Carolina – É o mesmo.
Luís –E era esta mulher que há pouco falava de amor.
Carolina – Não era esta, não senhor; era a outra a quem insultaram.(Vai sair)
Ribeiro – Uma palavra, Carolina!...
Carolina – Que
quer ainda, senhor?
Ribeiro – Eu te
seduzi, fiz-te desgraçada, não é verdade?... Pois bem! Arrosto a oposição de
minha família! Arrosto tudo! Quero reparar a minha falta! És a mãe de minha
filha; sê minha mulher!
Carolina – Tua
mulher!
Ribeiro – Sim,
Carolina! É um sacrifício que te devo.
Carolina – Não
lho pedi.
Ribeiro – Mas sou eu que te suplico.
Luís – É a honra, é a virtude; é a felicidade que ele lhe restitui! (Aparece Pinheiro)
CENA IX
(Os mesmos e Pinheiro)
Carolina – Não!
É tarde...
Luís–
Carolina!...
Carolina – Já
que o amor não é possível para mim, prefiro a liberdade! Quero ver a meus pés,
um por um, todos esses homens orgulhosos que tanto blasonam de probos e
honestos!... Aí curvando a fronte ao vício, o marido trairá sua esposa, o filho
abandonará sua família, o pai esquecerá os seus deveres para mendigar um
sorriso. Porque no fim de contas, virtude, honra, glória, tudo se abate com um
olhar, e roja diante de um vestido. (a Pinheiro) Meu carro?...
Pinheiro – Está
na porta.
Helena – Vem ver
como é rico!
Ribeiro –
Lembra-se ao menos de tua filha!...
Carolina –
Deixo-o as seu pai como um remorso vivo.
Luís – Reflita,
Carolina; aceite a reparação que o senhor lhe oferece; faça de um homem
arrependido, de uma moça desgraçada e de uma menina órfã, uma família; dê a
felicidade a seu marido, e um nome à sua filha!
Carolina – E
quem me dará a mim o que eu perco?
Luís – A sua
consciência.
Carolina – Não a conheço! Adeus! (Vai sair)
Ribeiro
– Não! Tu não sairás com este homem!
Carolina – Quem
impedirá?
Ribeiro – Eu!
Helena – Sr.
Ribeiro, seja prudente!
Pinheiro – É o
que faltava ver! Que o senhor queira levar o ridículo a esse ponto!
Tem algum direito sobre ela?
Ribeiro – Tenho
o direito de vingar-me de um amigo desleal que me traiu.
Pinheiro – Eu
traí; e o senhor?... Roubou! Roubou a filha a seus pais.
Luís (à Carolina) – Veja os homens a quem ama!
Carolina – Não amo a ninguém! Sou livre! (Caminhando para a porta vê Margarida que entra pelo braço de Araújo, recua com espanto).
CENA X
(Os mesmos, Margarida e Araújo)
Carolina – Ah! Esqueci que ainda tinha mãe!
Margarida –
Carolina!
Luís– Tardaste
muito!
Araújo – Apesar
de toda a sua coragem, faltavam-lhe as forças! Que te disse ela?
Luís – Cala-te!
Margarida –
Carolina!... Não falas à tua mãe? Não me queres conhecer?... Depois de tanto
tempo!... Tens medo de mim?... Não penses que vim repreender-te.... acusar-te!
Já não tenho forças!... Vim pedir-te que me restituas a filha que perdi! Queria
ver-te antes de morrer... Eu te perdôo tudo... Não tenho que perdoar... Mas
fala-me... Olha-me ao menos!... Mais perto! Quase não te vejo!... As lágrimas
cegam... e tenho chorado tanto!
Carolina – Minha
mãe!...
Margarida –
Ah!...
Carolina – Oh!
não!
Margarida – Que
tens?
Carolina – Tenho
vergonha!
Margarida –
Abraça-me! Deus ouviu as minhas orações! Achei enfim a minha filha!...minha
Carolina!
Carolina – Não
estás mais zangada comigo?
Margarida – Nunca estive! Tinha saudades! Porém agora não nos separaremos mais nunca. Vem!...
Carolina – Para onde?
Margarida – Para
a nossa casa; hás de achá-la bem mudada. Mas tudo voltará ao que era. Estando
tu lá, a alegria entrará de novo; seremos muito felizes, eu te prometo.
Carolina – Está
tão fraca!...
Margarida – Contigo sinto-me forte! Já não estou doente: vê! (Dá um passo e vacila)
Carolina – Nem pode andar!... Mas tenho
ai o meu carro.
Margarida – Teu
carro!...
Carolina – Sim!
Ainda não viu? É muito bonito.
Margarida –
Todas estas riquezas que compraste tão caro e com tantos sofrimentos custaram à
tua mãe, já não te pertencem, Carolina, atira para longe de ti estes
brilhantes!... Não te assentam!
Carolina –
Minhas jóias!...
Margarida – Oh!
Não lamentes a sua perda! Beijos de mãe brilham mais em tuas faces do que esses
diamantes. Tu eras mais bonita quando íamos à missa aos domingos.
Carolina – Pois
sim! (Afasta-se)
Luís (à
Margarida) – Era a minha última esperança!
Margarida – Não
falhou, o coração me dizia...
Carolina (no
espelho) Não! Não tenho coragem!
Margarida – Que
dizes?
Carolina –
Perdão, minha mãe! É impossível!
Margarida –
lembra-te, minha filha, que é a tua desonra que tu mostras a todos!
Carolina – Que
importa?... Minhas jóias!... Tão lindas!... Sem elas, o que serei eu? Uma pobre
moça que excitará um sorriso de piedade!... Não! Nasci com este destino! É
escusado.
Luís – (à
Margarida) - Foi irritá-la!...
Margarida (à
Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que
quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei
até mesmo a tua vergonha.
Carolina –
Nunca! minha mãe! Seria profanar o único objeto que eu ainda respeito neste
mundo. Adeus...
Margarida –
Carolina...
Carolina –
Adeus... e para sempre!
Margarida –
Ah!... (Desmaia)
ATO TERCEIRO (Em casa de Carolina. Sala rica e
elegante)
CENA I
(Carolina, Helena, Meneses e Araújo)
Carolina – Dize
alguma coisa, Sr. Araújo.
Araújo – Prefiro
ouvir.
Carolina – Como
está o seu amigo?
Araújo – Bem,
obrigado.
Carolina – Por
que ele não veio?
Araújo – Deve
saber a razão.
Carolina – Ele
foge de mim; não é verdade?
Araújo – Creio
que foi a senhora que fugiu dele.
Meneses – Que é
feito do Pinheiro?
Carolina – Não
sei.
Helena – Anda por aí. Depois que deitou fora a fortuna do pai vive tão murcho!
Meneses – Está pobre!
Helena – Não tem
vintém.
Araújo – Ninguém
pode melhor dizê-lo do que a senhora.
Carolina –
Explique-se.
Araújo – Este
luxo explicará melhor. Quem lho deu?
Carolina (subindo)
– Não me recordo.
Helena (na
janela, à Carolina) – Não passeias hoje? A tarde está tão linda!
Carolina –
Talvez.
Araújo – Vou me
embora.
Meneses – Tão
depressa?... Para isso não valeu a pena incomodar-nos.
Araújo – É
verdade! Mas convidei-te para esta visita, só por um motivo.
Meneses – Qual?
Araújo – Luís
pediu-me que soubesse notícias dela. Vim buscá-las eu mesmo, para dá-las
exatas.
Meneses– Pois
então demora-te; talvez ainda tenhas que ver.
Helena – Olha!
Lá vai aquela sujeita!
Carolina – Quem?
Helena – A
mulher do Fernando, a quem pregaste aquela peça!
Carolina –
Lembro-me.
Helena – Que bem feita coisa!
Meneses – O quê?
Helena – É uma história muito engraçada. O senhor não sabe?
Meneses – Não.
Conta, Carolina.
Carolina – Não
estou para isso. Se queres conta tu, helena.
Araújo – É
melhor.
Helena – Foi no
último dia de grande gala que houve...
Araújo – O dia 7
de setembro.
Helena – Isso
mesmo. O Fernando por pedido da mulher veio à cidade de propósito para comprar
um bilhete de camarote do Teatro Lírico. Os cambistas lhe fizeram dar cem
mil-réis por um de segunda ordem... Número?...
Carolina – Não
me lembro.
Helena – Como
era tarde, jantou na cidade e escreveu à mulher dizendo que se aprontasse
porque tinham o camarote. Na ida passou por aqui e entrou. Começamos a
conversar, falou-se de teatro; Carolina estava morrendo por ir...
Enfim, para encurtar razões, deu-lhe o bilhete.
Araújo – Que
tratante.
Helena – Ao
contrário, um homem delicado!... Mas o melhor, é que saindo daqui, não sabendo
que desculpa havia de dar à mulher, não foi à casa, nem lembrou-se da carta que
tinha escrito. Ora, a sujeita vendo que ele não ia, meteu-se no carro e
largou-se para o teatro.
Araújo –
Adivinho pouco mais ou menos o resto.
Helena – Não
adivinha, não! Quando o bilheteiro ia abrindo a porta, chegou Carolina que ia
comigo, e disse: — Este camarote é meu. A mulher do Fernando respondeu: — Não é
possível; meu marido o comprou hoje para mim. O que havia ela de replicar? —
Foi seu marido mesmo quem mo deu; aqui está o bilhete, que por sinal custou-lhe
cem mil-réis.
Araújo – Ela
disse isto?...
Helena – Palavra
de honra.
Araújo – O que
fez a mulher?
Helena – Que
havia de fazer? Retirou-se da corrida.
Meneses –
Retirou-se, sim; e sem dizer uma palavra: porque uma senhora não dá à amante de
seu marido nem mesmo a honra de indignar-se contra ela. Quanto ao homem que
praticou este ato infame, perdeu para sempre a estima de sua esposa e dos
homens de bem. Queira Deus que ele não veja um dia os seus cabelos brancos
manchados por esse mesmo vício que alimentou.
Carolina – Está o Meneses como quer; deram-lhe tema para fazer discursos.
Araújo – Mas diga-me uma coisa. A senhora pensa que a sociedade
pode tolerar por muito tempo uma mulher que não respeita coisa alguma?
Carolina (rindo)
– Aí vem o outro com a sociedade!
Helena – É bem
lembrada!
Araújo – Olha
que eu não estou disposto a rir-me.
Meneses – Ri; é
o melhor; não tomes isto a sério.
Carolina – Como quiserem; para mim é indiferente! Essa sociedade de que o senhor me fala, eu a desprezo.
Araújo – Porque a repele!
Carolina –
Porque vale menos do que aquelas que ela repele do seu seio. Nós. Ao menos, não
trazemos uma máscara; se amamos um homem, lhe pertencemos; se não amamos
ninguém, e corremos atrás do prazer, não temos vergonha de o confessar.
Entretanto as que se dizem honestas cobrem com o nome de seu marido e como
respeito do mundo os escândalos da sua vida. Muitas casam por dinheiro com o
homem a quem não amam; e dão sua mão a um, tendo dado a outro sua alma! E é
isto o que chamam virtude? É essa sociedade que se julga com direito de
desprezar aquelas que não iludem a ninguém, e não fingem sentimentos
hipócritas?...
Araújo – Têm o
mérito da impudência!
Carolina – Temos
o mérito da franqueza. Que importa que esses senhores que passam por sisudos e
graves nos condenem e nos chamem perdidas?... O que são eles?... Uns profanam a
sua inteligência, vendem a sua probidade, e fazem um mercado mais vil e mais
infame do que o nosso, porque não tem nem o amor nem a necessidade por
desculpa; porque calculam friamente. Outros são nossos cúmplices, e vão, com os
lábios ainda úmidos dos nossos beijos, manchar a fronte casta de sua filha, e
as carícias de sua esposa. Oh! Não falemos em sociedade, nem em virtude!...
Todos valemos o mesmo! Todos somos feitos de lama e amassados com o mesmo
sangue e as mesmas lágrimas!
Meneses – Não te
iludas, Carolina! Esse turbilhão que se agita nas grandes cidades; que enche o
baile, o teatro, os espetáculos; que só trata do seu prazer, ou do seu
interesse; não é a sociedade. É o povo, é a praça pública. A verdadeira
sociedade, da qual devemos aspirar a estima, é a união das família honestas. Aí
se respeita a virtude e não se profana o sentimento; aí não se conhecem outros
títulos que não sejam a amizade e a simpatia. Corteja-se na rua um indivíduo de
honra duvidosa; tolera-se numa sala; mas fecha-se-lhe o interior da casa.
Carolina –
Quanta palavra inútil!...
Meneses – Não
são para ti, bem sei; mas saem-me sem querer e, felizmente, aqui está um amigo
que me escuta com prazer.
Araújo – Realmente precisava ouvir-te para não duvidar de mim, e de todos esses objetos que estou habituado a respeitar.
Helena – Falemos de coisas mais alegres.
Meneses – Não lhe agrada a conversa neste tom? (Batem palmas)
Helena – Não entendo disso; é bom para a Carolina que vive a ler.
Meneses – Ah! Lê romances naturalmente? Carolina – Que lhe importa?
CENA II
(Os mesmos e Pinheiro)
Helena (na
porta) – Não lhe pode falar! Não teime!
Carolina – Quem
é?
Helena – O
Pinheiro.
Carolina – Que
vem ele fazer cá? Dize-lhe que não estou em casa.
Araújo –
Bate-lhe na cara com esta mesma porta que ele fechava outrora com sua chave de
ouro.
Meneses ( a Araújo ) – Não te disse que ainda tinhas que ver?
Pinheiro (à Helena) – Deixa-me! Hei de falar a Carolina. (Entra)
Helena – Onde viu o senhor entrar assim na casa dos outros?
Pinheiro – São os maus hábitos que ficam a quem já foi dono. Meus senhores!...
Meneses – Sr. Pinheiro! (Estendendo-lhe
a mão)
Pinheiro
(recusando, confuso) – Tem passado... bem...
Meneses – Pode
apertá-la; nunca a estendi aos favores do homem rico; ofereço-a ao homem pobre
que sabe suportar dignamente a sua desgraça.
Pinheiro
(apertando a mão) – Se todos tivessem esta linguagem...
Araújo – Ele não
teria merecimento, Sr. Pinheiro.
Pinheiro – Os
senhores permitem que eu diga algumas palavras em particular à Carolina?
Meneses – Sem dúvida! Esperamos naquela saleta. Anda, Helena; vem divertir-nos contando os teus arrufos com o Vieirinha.
CENA III
(Pinheiro e Carolina)
Pinheiro – Vejo
que a minha presença lhe aborrece, Carolina. Só um motivo forte me obrigaria a
importuná-la.
Carolina –
Previno-lhe que vou sair; portanto não se demore.
Pinheiro – Houve
tempo em que nesta mesma sala, neste mesmo lugar, a mesma voz se queixava
quando eu não podia me demorar.
Carolina –
Deixemos o passado em paz.
Pinheiro – Não
se recorda.
Carolina – As
mulheres só começam a recordar depois dos quarenta anos; antes gozam.
Pinheiro – Pois
bem! Que esqueça o amor, compreendo; mas há certas coisas que lembram sempre.
Carolina – Não
sei quais sejam.
Pinheiro – Os
benefícios.
Carolina –
Deixam de ser quando se lançam em rosto.
Pinheiro – Não
foi essa minha intenção, Carolina; desculpe. O meu espírito se azeda com estas
reminiscências. antes que a ofenda de novo, não vou dizer o que lhe quero
pedir.
Carolina – Ah!
Vem pedir?
Pinheiro –
Admira-se!
Carolina – Como
nunca pedi, estranho sempre que me pedem.
Pinheiro –
Talvez algum dia seja obrigada!...
Carolina –
Deixamos o passado para tratar do futuro? Pois olhe, se um pertence às mulheres
velhas, o outro é o consolo das pobres meninas de dezoito anos, que vivem a
sonhar.
Pinheiro – Deste
modo não me deixa dizer...
Carolina – Que
lhe impede?
Pinheiro – Suas
palavras de sarcasmo.
Carolina – Estou
hoje contrariada.
Pinheiro – Por
que motivo?
Carolina – Não
sei.
Pinheiro – É a
minha presença?... Tem razão; estou lhe roubando o seu tempo; outrora podia
comprá-lo; hoje estou pobre; gastei toda a minha fortuna. Não me queixo, nem a
acuso. Sofreria resignado essa perda se ela fosse apenas uma perda de dinheiro,
e não acarretasse a desgraça de outra pessoa.
Carolina – Que
tenho eu com isto?
Pinheiro –
Deixe-me acabar. Vou confessar-lhe uma vergonha minha; mas é preciso: seja este
o primeiro castigo. Escuso lembrar-lhe, Carolina, que ou por amor ou vaidade,
procurei sempre adivinhar, para satisfazê-los, os seus menores desejos.
Carolina –
Loucura! Não há nada que encha esse vácuo imenso que se chama o coração de uma
mulher.
Pinheiro – É
exato, toda a minha fortuna se sumiu no abismo; restavam-me apenas cinco contos
de réis, que não me pertenciam. Eram um legado que meu pai deixara como dote a
uma menina órfã, sua afilhada. Esse dinheiro devia ser sagrado para mim por
muitos motivos; devia respeitar nele a última vontade de meu pai e a
propriedade alheia; entretanto, foi com ele que comprei aquela pulseira que lhe
dei no último dia em que estive nesta casa.
Carolina – Ah!
Aquela pedra só custou cinco contos?
Pinheiro –
Custou um roubo! A órfã me pede o seu dote para casar-se; e eu não o tenho para
restituir-lhe.
Carolina – Então
é impossível; não pense mais nisso.
Pinheiro – Não é impossível se quiser, Carolina; faça um sacrifício, empreste-me esta jóia, e juro-lhe que com o meu trabalho lhe pagarei o valor dela.
Carolina (rindo) – Ah! Ah! Ah!... É interessante!... Sr. Meneses! Helena! Sr. Araújo!... Ouçam esta! É original.
CENA IV
(Os mesmos, Meneses, Araújo e Helena)
Helena – O que
é?
Meneses – Alguma
outra anedota?
Carolina – Uma
lembrança muito engraçada.
Araújo – Faço
idéia!
Carolina – O senhor entendeu que devo agora fazer-me mascate de jóias.
Meneses – Não é má profissão.
Carolina –
Adivinhem o que ele veio propor-me!
Helena – Por que
não explicas logo?
Carolina –
Querem saber?
Pinheiro – Eu
poupo-lhe o trabalho; não tenho vergonha de confessar. É um homem, meus
senhores, que tendo consumido com uma mulher a sua fortuna, perdeu a razão ao
ponto de comprar-lhe o último presente com um depósito sagrado que lhe foi
confiado. Ameaçado do opróbrio de uma condenação, esse homem vem pedir àquela a
quem tinha sacrificado tudo, que o salvasse, emprestando-lhe essa jóia cujo
valor ele jurava restituir-lhe com o seu trabalho. A resposta que teve foi a
gargalhada que ouviram.
Carolina – Não
tinha outra.
Meneses –
Certamente.
Araújo – Como,
Meneses?
Carolina – Vê!
Pinheiro – O
senhor aprova?
Meneses – Não,
senhor.
Araújo – Mas,
então?...
Meneses –
Desgraçados dos homens de bem, Araújo, se o mundo não fosse assim; se o vício
não tivesse em si esse princípio de destruição que é o seu próprio corretivo.
Estimo o Sr. Pinheiro desde que soube a maneira digna com que aceitou o seu
infortúnio; mas esse infortúnio proveio de sua paixão louca por Carolina; ele
não podia, não devia achar nela um sentimento de gratidão. É preciso que o
despreze para o punir; é preciso que lhe negue para uma boa ação o dinheiro com
que ele acabou de perdê-la. A avareza (designa Carolina) corrige a
prodigalidade (designa Pinheiro)
Carolina –
Avareza! Não admito.
Araújo – E que
nome tem isto?
Carolina –
Chame-lhe ingratidão, chame-lhe o que quiser, mas avareza, não! Faço tanto caso
do dinheiro como da moral que trazem certos sujeitos na algibeira, e da qual só
usam quando lhes convém, como de um charuto, de um lenço, ou de uma caixa de
rapé. E a prova é que essa jóia, dá-la-ia de esmola a qualquer miserável, se
não estivesse convencida que ele amanhã nem me tiraria o chapéu!
Pinheiro – Quando eu passo à noite pela Travessa de São Francisco de Paula, ouço vozes humildes que suplicam, e que já falaram mais alto que a sua, Carolina.
Carolina – Que tem isto? Se algum dia
ouvir a minha, não a escute, como eu hoje não quero escutar a sua.
Pinheiro – Nem todos possuem o seu coração.
Carolina – Isso é verdade!
Araújo – E o seu amor...
CENA V
(Carolina, Meneses, Helena e Araújo)
Carolina –
Amor?...
Araújo – Amor ao
dinheiro.
Carolina – Mas
seriamente, os senhores não me compreendem. Nem sabem que para uma mulher não
há ouro que valha o prazer de humilhar um homem.
Meneses – Tanto
ódio nos tens?
Carolina –
Muito!...
Araújo – Contudo
não posso crer que aquelas que durante toda a sua existência correm atrás do
dinheiro, façam dele tão pouco caso.
Carolina – Pois
creia; todas essas minhas jóias, todo esse luxo e riqueza, que me fascinaram, e
que hoje possuo, não os estimo senão por uma razão.
Araújo – Qual?
Carolina –
Talvez possam realizar um sonho da minha vida.
Araújo – E que
sonho é esse?
Carolina – Não
digo.
Araújo – Por
quê?
Carolina – Vai
zombar de mim.
Araújo – Não
tenha receio.
Meneses – Para
zombar começaríamos tarde!
Carolina – E que
zombem, não faz mal. Toda a criatura boa tem o seu fraco; assim toda a mulher,
por mais desgraçada que seja, conserva sempre um cantinho puro onde se esconde
a sua alma.
Meneses – Estás
bem certa que tens uma alma, Carolina?
Carolina –
Talvez me engane; é possível. Mas eu guardo-a com tanto cuidado!
Araújo – Aonde,
em alguma caixinha?
Carolina –
Justamente! Numa caixinha de charão... Vai ver, Helena; está no meu
guarda-vestidos. (Dá-lhe as chaves)
Meneses – E
debaixo de chave!... És prudente!
Carolina – No meio de todas as minhas extravagâncias, de todos os meus prazeres, eu sentia uma pequena parte de mim mesma que nunca ficava satisfeita; chamei a isto minha alma, tive pena dela, fechei-a dentro dessa caixa, e disse-lhe que esperasse até um dia em que seria feliz. (Helena volta com a caixa)
Araújo – Ah! E esta?
Meneses – E de
que maneira pretendes dar-lhe a felicidade?
Carolina – Não
sei; mas como o dinheiro é tudo, fiz uma coisa; dividi o que eu tinha e o que
viesse a ter com a minha alma. Voltava de uma ceia onde tinha me divertido
muito; metia dentro desta caixa todo o dinheiro que possuía, para que o
espírito tivesse um igual divertimento. As minhas jóias, depois de usadas uma
vez, se escondiam aqui dentro; enfim a cada prazer que eu gozava, correspondia
uma esperança que guardava.
Meneses
(apontando para a caixa) – E quanto valerá hoje a tua alma?
Carolina – Não
sei; o que entra aqui dentro é sagrado, não lhe toco nem lhe olho; tenho medo
da tentação. Só abro esta caixa à noite, quando me deito.
Meneses – Pois
deixa dar-te um conselho: põe a tua alma a juro no banco, e esquece-te dela. Há
de servir-te na velhice. Ou então diverte-te!...
Carolina – Não;
vou dá-la.
Araújo – A quem?
Carolina – A um
homem que não me ama; e por causa do qual jurei que havia de ver todos os
homens a meus pés, para vingar-me neles do desprezo de um. E sabem se cumpri
meu juramento!...
Meneses – É
talvez isto, Carolina, que faz de tua vida um fenômeno, que eu estudo com toda
a curiosidade. Tu és um destes flagelos, não faças caso da palavra... um desses
flagelos que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la dos
seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prenderam, mas
não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance mas nunca leste o
teu coração. Puniste depois o Ribeiro que te seduziu, e o Pinheiro que te
acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família, deixaste uma filha
sem mãe; ao segundo, que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como
castigarás a ti mesma; se não me engano, tu acabas de revelar-me. Espero pelo
tempo. Vamos, Araújo.
Carolina – O
senhor veio fazer-me ficar triste.
Araújo – Virá
depois de nós quem o alegre.
Carolina –
Escute!... Não!...
Araújo –
Arrependeu-se?
Carolina – Como
está Luís?
Araújo – Não
sei.
Carolina – Não
tem visto?
Araújo – Ainda ontem.
Carolina – Ele lhe fala às vezes em mim?
Araújo – Nunca.
CENA VI
(Carolina e Helena)
Carolina –
Nunca!...
Helena – Estás
falando só?
Carolina –
Estava pensando em uma coisa... Ele não virá, Helena!
Helena – Por que
razão?
Carolina – Ainda
perguntas?
Helena – Não
creias. Estou quase apostando que não tarda aí.
Carolina – Tu
não conheces Luís.
Helena – Ora é
boa! Conheço os homens, Carolina; para eles uma mulher é uma mulher, sobretudo
quando é bonita.
Carolina –Terá
recebido a carta?
Helena – O
Vieirinha entregou-a em mão própria.
Carolina – O
Vieirinha?... Não tinhas outra pessoa por quem mandar?...
Helena – Que tem
que fosse ele?...
Carolina – Nada:
é que me aborrece esse homem. Desejo nem vê-lo...
Helena – Tu bem
sabes...
Carolina – Sei,
mas não estou para suportá-lo. Entra na minha casa como se fosse dono dela;
ontem fui achá-lo naquela sala a remexer na minha cômoda.
Helena – E
faltou-te alguma coisa?
Carolina – Não;
mas para que isso não torne a acontecer, previno-te que se queres continuar a
morar consigo, deves descartar-te dele.
Helena – Não me
animo a dizer-lhe...
Carolina – É um
homem sem caráter!
Helena – Gosto
dele, Carolina!
Carolina – Tens
um gosto bem extravagante!
Helena –
Confesso! Se tu soubesses o que tenho sofrido!...
Carolina –
Porque queres.
Helena – É
verdade; mas não sei que poder tem sobre mim, que não posso resistirlhe!
Conheço que é um homem capaz de tudo; e, entretanto, Carolina, se ele vier
pedir-me, como já tem feito muitas vezes, que venda um traste meu para
desempenhar o seu relógio... Tu vais te rir?... Pois eu não lhe negarei!
Carolina – Não
me rio, não, helena; ao contrário, tive uma idéia bem triste.
Helena – Que
idéia?
Carolina – Será
esse o fim da nossa vida? A mulher que perverte seu coração estará condenada a
amar um dia algum homem ainda mais baixo do que ela?
Helena – E quem nos pode amar senão esses, Carolina?
Carolina – Mas isso não é amor! (Luís aparece na porta do fundo)
CENA VII
(As mesmas e Luís)
Helena – Sr.
Viana!...
Carolina –
Ah!...
Luís – Creio que
entra-se aqui pagando!... (Tira da carteira uma cédula que deita sobre o
aparador)
Carolina –
Luís!...
Luís – Por este nome só me tratam os meus amigos e as pessoas que estimo.
Carolina – Não é preciso recorrer a estes meios para mostrar-me o
seu desprezo; eu o sinto mesmo de longe e agora vejo-o mais no seu olhar do que
nas suas palavras.
Luís – Que quer
de mim?...
Carolina –
Queria fazer-lhe um pedido; mas já não tenho coragem.
Luís – Então é
inútil a minha presença aqui.
Carolina – Não! Espere! Farei um esforço; porém prometa-me ao menos uma coisa.
Luís – Não é preciso.
Carolina – É
muito; prometa-me que por mais estranho que lhe pareça o que vou dizer-lhe,
deixe-me falar; depois acuse-me e escarneça de mim; é o seu direito; não me
queixarei.
Luís – A recomendação é escusada; três vezes procurei com as minhas palavras reparar um erro; mas afinal convenci-me que quando tine o ouro, não se ouve a voz da consciência. Pode falar.
Carolina – Sente-se. Fecha aquela porta, Helena, e deixa-nos.
CENA VIII
(Luís e Carolina)
Carolina – Consinta que ao menos agora que ninguém nos ouve eu o chame Luís, como antigamente.
Luís – Para quê?
Carolina – Este
nome me lembra uma intimidade, e me faz esquecer o ano que passou.
Luís – Para que
esquecê-lo? É o mais feliz da sua vida!...
Carolina – Podia
ter sido se alguém me tivesse amado; mas ele não quis, ou não julgou que uma
moça perdida valesse a pena de uma afeição. Luís – E valia?...
Carolina – Talvez, Luís... Sem o despeito dessa repulsa, talvez a filha não fosse surda ao grito de sua mãe e a mulher resistisse à fascinação que a atraía.
Luís – E valia?...
Carolina –
Talvez, Luís... Sem o despeito dessa repulsa, talvez a filha não fosse surda ao
grito de sua mãe e a mulher resistisse à fascinação que a atraía.
Luís – Ora!...
Carolina – Oh!
Não me defendo. A culpa é minha: o mal estava aqui (leva a mão à fronte). Tinha
sede de prazer e precisava saciar-me; entretanto, creio que também havia alguma
coisa aqui (leva a mão ao coração), porque depois das minhas loucuras sentia um
remorso do que tinha feito; e me parecia que me afastava cada vez mais daquele
de quem desejava aproximar-me. E, coisa singular! Era justamente este remorso
que me irritava mais, que me lançava em algum novo escândalo, e me fazia olhar
comum soberano desprezo para essa sociedade que me repeliu, e para todas essas
mulheres virtuosas que ele podia amar.
Luís – Foi então
para dizer-me isto... que...
Carolina – Foi para dizer-lhe que este amor louco me tem sempre acompanhado, que resistiu a tudo, e que hoje se ajoelha a seus pés!...
Luís
– Carolina!
Carolina – Luís, não te peço que me ames, não; sou indigna, eu o sei! Mas eu te suplico, me deixe amar-te!...
Luís – Cale-se!
Carolina – Que
lhe custa isso? Um homem não se mancha com a afeição de uma mulher, por mais
desprezível que ela seja; e é sempre doce sentir que se está dando um pouco de
felicidade a uma pobre criatura que o mundo condena.
Luís – Não sou
rico!
Carolina – A
mulher que ama não vende o seu coração: suplica que o aceitem!...
Luís – E o
partilhem com os outros!...
Carolina – Não
me compreende, Luís. Vê esta caixa? Aqui tenho as economias da minha
dissipação; guardei-as para um dia poder gozar um momento dessa existência doce
e tranqüila, que eu não conheço. Não sei em quanto me importam; mas devem
chegar para viver um ou dois anos na Tijuca ou em Petrópolis. Venha comigo!
Consinta que o ame. Logo que o aborrecer, deixe-me. Assim ao menos quando
começar para mim o desengano, quando de meus anos gastos na perdição só restar
a velhice prematura, eu terei a recordação desses poucos dias de felicidade
para encher o vácuo do passado.
Luís – Adeus,
Carolina!
Carolina – Não
me recuse!...
Luís – Eu lhe perdôo, porque ignora que isto que me propõe é uma infâmia! Nunca amou, Carolina, senão compreenderia que ninguém se avilta a ponto de aceitar esses sobejos de amor, esses restos de um luxo pago por tantos outros. Seus primeiros amantes, a quem arruinou, diriam que eu vivia da sua miséria.
Carolina – Oh! não...
Luís – É inútil!
Carolina – Pois bem!... Antes de partir... porque sei que é a última vez que nos vemos... Luís... (apresenta-lhe a fronte timidamente)
Luís – O quê?...
ATO QUARTO (Em casa de Carolina. Sala pobre e
miserável. É noite)
CENA I
(Helena e Meneses)
Helena – Quem é?
Meneses – Abre,
Helena.
Helena – Ah! Sr.
Meneses!
Meneses – Que
significa isto?
Helena – Uma
desgraça!
Meneses –
Conta-me!... Recebi a tua carta: mas tu não aproveitas muito as lições do teu
mestre de gramática; pouco entendi.
Helena – O
senhor nada sabia?
Meneses – Nada
absolutamente. Voltando à tua casa disseram-me que se haviam mudado. Perguntei
notícias ao Ribeiro, a quem encontrei há dias. Não me soube dizer.
Helena – É que
foi uma coisa tão repentina! Naquele mesmo dia em que o senhor lá esteve com o
Araújo, fazem dois meses pouco mais ou menos, que Carolina descobriu que estava
roubada.
Meneses – Ah!
Aquela caixinha de charão...
Helena – O
Vieirinha com uma chave falsa abria e tirava as jóias que Carolina guardava,
deixando as caixas vazias, para que ela não desconfiasse.
Meneses – Que
miserável!
Helena – Ela coitadinha, a princípio fingiu não se importar; mas depois veio-lhe uma febre... Esteve à morte. Com a moléstia gastamos o que tínhamos; vendemos tudo, e alugamos este cochicholo onde mal cabemos.
Meneses – Com efeito não parece habitação de gente.
Helena – Que
remédio?... mas o pior é que não temos nem o que comer! Se ao menos ela já
estivesse boa... Neste desespero lembrei-me de escrever àqueles que tínhamos
conhecido em outros tempos, ao senhor, ao Araújo, ao Ribeiro, ao
Viana...Escrevi até ao próprio Vieirinha!
Meneses – Depois
do que ele fez?
Helena – Talvez esteja arrependido, e restitua uma parte do que roubou.
Meneses – Duvido muito; mas fica descansada. Falarei aos outros. Entretanto deve ter necessidades de algum dinheiro... (batem)
Helena – Há de ser algum deles!
Meneses – É natural.
CENA II
(Os mesmos, Luís e Araújo)
Luís – Onde está
Carolina?
Helena – Dorme;
não a acorde. É o único momento de alívio que tem.
Luís – Está
muito doente?
Helena – Agora
vai um pouco melhor; mas ainda sofre bastante.
Araújo (a
Meneses) – Foi depois daquele dia que estivemos juntos em casa dela.
Meneses – É
verdade.
Araújo –
Soubeste hoje.
Meneses – Porque
Helena me escreveu!
Luís – Eu já
sabia há dias; porém não me foi possível descobrir a casa.
Helena – Uma rua
tão esquisita!... Quando pensaria eu morar no Saco do Alferes!...
Meneses – Não se
acaba por onde se começa, Helena.
Luís – Que é
feito do homem que praticou esse roubo infame?
Meneses – Anda
por aí muito satisfeito; vai casar-se...
Helena – Que
feliz mulher!...
Araújo – E
deixa-se que um indivíduo desses goze tranqüilamente do fruto do seu crime? Não
havia meio de levá-lo à polícia?
Helena – Com o
vexame da doença de Carolina, nem me lembrei de semelhante coisa. Demais, que
lucrávamos nós com isso? Faltavam as provas; e quem se prestaria a ir jurar a
nosso favor contra um homem conhecido?...
Araújo –
Conhecido como um tratante!
Helena – Mas
sempre tem amigos; ninguém acreditaria...
Araújo – Não
estou por isso.
Meneses – Helena
tem razão. Araújo; ninguém lhe daria crédito, ninguém juraria a seu favor; e eu
estimo bem que ela tenha consciência de quanto desceu, que a sociedade nem ouve
as suas queixas.
Helena – Não
falemos nestas coisas agora, Sr. Meneses; já não têm volta...
Araújo – O
arrependimento nunca vem tarde.
Helena– Por isso
eu vou passando muito bem sem ele.
Araújo – Que mulherzinha!
Meneses – Quantas não existem assim.
CENA III
(Os mesmos e Ribeiro)
Meneses – Oh!...
Ribeiro...
Ribeiro – Também
vieste?...
Meneses – O
mesmo motivo nos trouxe a todos.
Ribeiro – Ah! Mas não se incomodem; eu me encarrego do que for preciso.
Luís – Perdão, Sr. Ribeiro; aprecio a sua delicadeza; mas ela não
me dispensa de cumprir o meu dever.
Ribeiro – Creio
que é a mim que pertence como pai de sua filha...
Luís – Não
senhor: a obrigação de ampará-la é minha e ninguém ma pode contestar. Sou seu
parente; e represento aqui sua família.
Meneses – Não há
dúvida, Sr. Viana; mas permita-me que lhe diga também que quando se trata de
uma boa ação não reconheço em ninguém o direito de excluir-me dela. Sou
pobre...
Ribeiro – Não se
trata de fortuna, Sr. Meneses: nem um de nós é rico.
Araújo – Pois
então façamos uma coisa: associemo-nos, e partilhemos todos o prazer de fazer o
bem.
Luís – Não é
necessário.
Ribeiro – É ser
egoísta, Sr. Viana.
Luís– Desculpe:
se estivesse no meu lugar faria o mesmo.
Ribeiro – Estão
batendo.
Helena – Vou
ver.
Meneses – Pois
advirto-lhe que não me sujeito.
Luís – Se o
senhor tivesse prometido a uma mãe quase moribunda restituir-lhe sua filha,
consentiria que outros a ajudassem a cumprir essa promessa?
Meneses – Por
que não? Seria orgulho...
Luís – Talvez, Sr. Meneses; mas um orgulho legítimo. O que sofri por ela dá-me esse direito.
Meneses – Compreendo e respeito essa dor.
CENA IV
(Os mesmos e Vieirinha)
Ribeiro – Que
vem fazer aqui?
Vieirinha – O
meu negócio não é com o senhor.
Helena – É
comigo.
Vieirinha –
Justamente. Saiba que fez muito mal em escrever-me.
Meneses – Já eu
o tinha dito.
Vieirinha – Ah!
Está por aqui, Meneses?
Meneses –
Peço-lhe que esqueça do meu nome.
Vieirinha – Que
quer dizer isto?
Araújo – Quer
dizer que há certos conhecimentos que desonram um homem honesto.
Vieirinha – Não
entendo.
Luís – Eu lhe
explico. Tenha a bondade de retirar-se.
Vieirinha –
Depois de dizer algumas palavras a esta mulher.
Helena – Já não
sabe como me chamo?
Ribeiro – De que
te admiras? Já não tens dinheiro para dar-lhe.
Helena – Que
quer de mim? Vem restituir o que roubou?... Quanto ao que lhe dei não é
necessário.
Vieirinha – Não
quero que me escreva. Suas cartas podem comprometer-me; estou em vésperas de
casar-me.
Helena – Que tem
isso?...
Vieirinha –
Podem suspeitar que tenho relações com gente de tal qualidade.
Helena – E o
senhor envergonha-se?...
Vieirinha – Não
lhe parece que é uma honra...
Helena – Não se
envergonha, porém, do que praticou; não se lembra que, por mais de um ano, foi
sustentado por uma mulher da minha qualidade.
Vieirinha– Não dou peso ao que diz.
Helena – E não deve dar mesmo: porque a mulher que chega a amar um homem como o senhor é bem desprezível!... (Vieirinha quer sair)
CENA V
(Os mesmos e Carolina)
Helena – Pois
não! Agora há de ouvir-me!
Araújo (à
Carolina) – Sente-se melhor?
Carolina –
Pouco... Mas os senhores aqui... Luís... Sr. Ribeiro...
Ribeiro –
Incomoda-lhe a minha presença?
Carolina –
Não!... Mas por que não a trouxe?
Ribeiro –
Nossa... Sua filha?...
Carolina – Tinha
tanta vontade de vê-la!...
Ribeiro –
Espere!... Voltarei antes de uma hora com ela.
Helena – Por que
te levantaste, Carolina? Estás tão fraca!....
Carolina –
Falavas tão alto!...
Helena – É este
sujeitinho... Tu o conheces bem! Fez-me exasperar!... diz que se envergonha de
conhecer-me... porque vai casar-se.
Carolina – Casar-se?... Ele!... Com quem, meu Deus?
Meneses – Com a filha de um homem de bem.
Araújo – Que não o conhece certamente.
CENA VI
(Carolina, Luís, Meneses, Araújo, Helena e Vieirinha)
Helena – Hei de
contar-lhe uma história. Ah! As minhas cartas o comprometem!...
Veremos as suas...
Vieirinha – As
minhas?...
Helena – Os
bilhetinhos que me escrevia pedindo-me que lhe valesse, que fosse desempenhar o
seu relógio.
Araújo – Serão um bom presente para o futuro
sogro do senhor.
Helena – Está
dito; vou mandá-las amanhã! Tenho-as aqui.
Vieirinha –
Helena!...
Meneses (a
Araújo) – Como lhe avivou a memória. Já sabe o nome.
Vieirinha –
Escuta!
Helena – Não me
comprometa, meu senhor!
Carolina – Vem
cá, Helena.
Helena – O que
queres?
Carolina – Nunca
te pedi nada. Dá-me estas cartas.
Helena – Para
quê?
Carolina – Dá-me!
Luís – Que vai
fazer?
Carolina –
Vingar-me!... Aí tem!... rasgue essas provas que o podem denunciar; case-se com
a filha desse homem de bem; entre no seio de uma família honrada; adquira
amigos!...É a minha vingança contra essa gente orgulhosa que se julga superior
às fraquezas humanas.
Luís – Não fale
assim, Carolina; a sociedade perdoa muitas vezes.
Carolina –
Perdoa a um homem como este; recebe-o sem indagar do seu passado, sem
perguntar-lhe o que foi; contanto que tenha dinheiro, ninguém se importa que a
origem dessa riqueza seja um crime ou uma infâmia. Mas, para a pobre moça que
cometeu uma falta, para o ente fraco que se deixou iludir, a sociedade é
inexorável! Por que razão? Pois a mulher que se perde é mais culpada do que o
homem que furta e rouba?
Meneses – Não, decerto!
Carolina – Entretanto, ele tem um lugar nessa sociedade, pode possuir família! E a nós, negam-nos até o direito de amar! A nossa afeição é uma injúria! Se alguma se arrependesse, se procurasse reabilitar-se, seria repelida; ninguém a animaria com uma palavra, ninguém lhe estenderia a mão... (Vieirinha sai, deixando aberta a rótula)
CENA VII
(Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)
Meneses – Talvez
seja uma injustiça, Carolina; mas não sabes a causa?... É o grande respeito, a
espécie de culto, que o homem civilizado consagra à mulher. Entre os povos
bárbaros ela é apenas escrava ou amante; o seu valor está na sua beleza. Para
nós, é a tríplice imagem da maternidade, do amor e da inocência. Estamos
habituados a venerar nela a virtude na sua forma a mais perfeita. Por isso na
mulher a menor falta mancha também o corpo, enquanto que no homem mancha apenas
a alma. A alma purifica-se porque é espírito, o corpo não!... Eis por que o
arrependimento apaga a nódoa do homem, e nunca a da mulher; eis por que a
sociedade recebe o homem que se regenera, e repele sempre aquela que traz em
sua pessoa os traços indeléveis do seu erro.
Carolina – É um
triste privilégio!...
Meneses –
Compensado pelo orgulho de haver inspirado ao homem as coisas mais sublimes que
ele tem criado.
Luís – Penso
diversamente, Sr. Meneses. Por mais injusto que seja o mundo, há sempre nele
perdão e esquecimento para aqueles que se arrependem sinceramente: onde não o
há é na consciência. Mas não se preocupe com isto agora, Carolina; vê que não
lhe faltam amigos, e essa mão que deseja, aqui a tem!
Carolina – Deixa-me beijá-la!
Luís – Não se beija a mão de um irmão; aperta-se!
CENA VIII
(Os mesmos e Pinheiro)
Helena – Quem é
o senhor?
Pinheiro – Um
moço que veio no meu tílburi entrou aqui... Não posso esperar mais tempo; são
nove horas.
Helena – Como se
chama?
Pinheiro –
Vieirinha.
Helena – Ah! Já
saiu! Pregou um calote!
Araújo – Para
não perder o costume.
Meneses – Helena
não lhe deu os dez tostões!
Pinheiro –
Helena!... Os senhores!... Aqui!... E ela! Carolina!...
Carolina – Quem
me chama?
Pinheiro – Ah!
Helena – Sr.
Pinheiro!...
Pinheiro – Como
está magra e pálida!... Oh!... Deus é justo!
Luís– Cale-se,
senhor! Se não respeita a fraqueza de uma mulher, respeite ao menos o leito de
uma enferma!
Pinheiro – Não é
minha intenção ofendê-la; ao contrário... O acaso fez que o homem pobre, mas
honrado, encontrasse diante das mesmas testemunhas, reduzida à miséria, a
mulher que o arruinou, e que lhe respondeu com uma gargalhada quando ele
pedia-lhe que o salvasse da vergonha. Esqueço tudo; e lembro-me que sou
cristão. Dou a minha esmola!
Carolina – Toda
esmola não pedida é um insulto; e um homem nunca tem o direito de insultar uma
mulher!
Pinheiro –
Recebeu-as quando eram de brilhantes!...
Carolina – Nunca
recebi esmolas; recebia o salário da minha vergonha! Mas fique certo que não há
dinheiro no mundo que a pague. Todos os senhores que estendem a uma mulher a
mão cheia de ouro; que depois de matarem a alma cobrem o seu corpo de jóias e
de sedas para reanimar um cadáver, julgam-se muito generosos!... Não sabem que
um dia essa mulher daria a sua vida para resgatar o bem perdido; e não o
conseguiria!... Portanto não nos acusemos; o senhor perdeu a sua fortuna, eu
perdi a minha felicidade; estamos quites. Se, hoje, sou uma mulher infame, não
é o senhor, que concorreu para essa infâmia, que foi cúmplice dela, quem me
pode condenar.
Meneses – Aproveite a lição, Sr. Pinheiro; e guarde a sua esmola. Quando tiver passado este primeiro momento de irritação há de reconhecer o que já lhe disse uma vez. Há criaturas neste mundo que se tornam instrumentos da vontade superior que governa o mundo. Não foi Carolina que o arruinou, que do moço rico fez um cocheiro de tílburi; foi, sim, a vaidade, a imprudência, e o desregramento das paixões, sob a forma de uma moça. Incline-se pois diante da Providência ; e respeite na mulher desgraçada a vítima do mesmo erro, e o agente de uma punição justa.
Pinheiro – Sempre respeitei a
desgraça, Sr. Meneses; e ainda agora mesmo, se ela precisar de mim... Já não
sou rico, mas economias de pobre ainda chegam para aliviar um sofrimento.
Carolina –
Aceitei quando tinha que dar! Hoje, não vê?... Sou uma sombra! Só peço aquilo a
que os mortos têm direito... Que respeitem as suas cinzas!
Pinheiro – Eu me
retiro, Carolina; desculpe se a ofendi!
Carolina – Não
conservo o menor ressentimento contra aqueles que encontrei no meu caminho.
Corríamos todos atrás do prazer; o acaso nos reuniu; o acaso separou-nos. Hoje
que somos um para os outros nas recordações vivas e bem tristes, devemos
esquecer-nos mutuamente. Entre nós a estima, a mesma piedade seria irrisão.
Pinheiro – Quer assim?... Pois seja! Adeus. (Sai)
CENA IX
(Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)
Meneses – Eis um
exemplo de coragem bem raro no Rio de Janeiro.
Luís– Qual?
Meneses – O
desse moço. Outros em seu lugar, tendo perdido a sua fortuna, andariam por aí a
incomodarem os amigos do seu pai, e o seus antigos conhecidos, para lhe
arranjarem emprego, que "não estivesse abaixo de sua posição".
Araújo – Como eu
conheço muitos. Não têm vintém, e entendem que se desonram em ser caixeiros.
Luís – É um
prejuízo que já vai desaparecendo.
Carolina – Mas,
Sr. Meneses...
Meneses – O que
é, Carolina?
Carolina – Por
que os senhores apareceram todos de repente?... Nem de propósito!...
Meneses – É
verdade!
Carolina – Como
souberam a casa?
Helena –
Escrevi-lhes.
Carolina –
Pedi-te tanto, Helena!
Luís – Não queria que viéssemos?
Carolina –
Para que afligi-los?...
Meneses – Mais
nos afligiríamos se soubéssemos que tinha sofrido privações por falta de
amigos.
Carolina – Por
isso não! Não preciso de nada.
Araújo –
Como!... Não pode ficar nesta casa. É tão úmida...
Carolina – Quem
não tem melhor!
Araújo – Para
que estamos nós aqui?
Carolina – Não,
senhor Araújo!... Não aceito coisa alguma.
Meneses –
Deixa-te de caprichos.
Carolina – Já
não os posso ter! (Luís e Araújo conversam baixo)
Meneses – Helena, há pouco, me revelou as tuas circunstâncias!...Ontem não teve com que comprar um frango para dar-me um caldo.
Carolina – Oh! Neste ponto é escusado, Sr. Meneses!... Não cedo.
Meneses – Nem eu!
CENA X
(Carolina, Helena, Meneses e Luís)
Luís – Não a
contrarie!... Nada obteremos. Deixe-me com ela! Eu conseguirei persuadi-la.
Meneses – Com
uma condição, porém.
Luís – Qual?
Meneses – Que me
tratará nisso como um amigo.
Luís – Era minha
intenção, e a prova... Araújo foi buscar Margarida.
Meneses – A mãe
de Carolina?
Luís – Sim; precisava de alguém que fosse à minha casa, e a fizesse preparar para recebê-la hoje mesmo; porque o essencial é tirá-la daqui. Contei com o senhor...
Meneses – E fez muito bem. Vou
esperá-lo.
Carolina –
Helena!
Meneses – Até
logo, Carolina!
Helena – Tu me
chamaste?
Carolina (à meia
voz) – Toma esta cruz!... É uma lembrança de minha filha! Sinto separar-me
dela!... Mas é por pouco tempo.
Helena – Não
penses nisto!
Carolina – Vê se
dão alguma coisa por ela... e compra-nos água de flor! Tenho uma sede!...
Luís – Vai sair?...
Helena – Vou à botica; volto já.
CENA XI
(Luís e Carolina)
Luís - Está
sofrendo muito, Carolina?
Carolina –
Muito!... Mas enquanto sinto a dor não penso... Não me lembro!...
Luís –
Incomodam-lhe as recordações do passado?
Carolina –
Envergonho-me do que sou, Luís! Creio que não há martírio como este a que me
condenei. Agora é que entendo as palavras que me disse naquela noite.
Luís – Procure
esquecer, Carolina...
Carolina – Não é
possível. Seria preciso arrancar a alma deste corpo, e ainda assim ela se
lembraria.
Luís – O tempo
há de acalmar essa excitação.
Carolina –
Duvido!... Se soubesse, Luís, que mistérios profundos encobre esta vida! Quem
vê uma dessas mulheres, sempre alegre e risonha, vestida ricamente, zombando de
todos e de tudo, não adivinha o que se passa dentro daquele coração, não sabe
que miséria se esconde sob essa aparência dourada!... É o desprezo do mundo,
começando pelo desprezo de si mesma! O vício a torna incapaz de qualquer
afeição, até mesmo do egoísmo!...
Luís –
Compreendo!...
Carolina – Mas o
que não compreende, nem pode compreender, é a tortura que sofre essa mulher por
causa de seu próprio erro. Para ela a beleza é tudo! É o luxo, é a estima, é a
vaidade, é o sustento, é a existência enfim! Com que susto lança ela os olhos
para o espelho a todo o momento para interrogá-lo!... E com que ansiedade
espera a resposta muda desse juiz implacável que pode dizer-lhe: "Tu já
não és bonita!" A menor sombra, a palidez, o cansaço de uma noite de
vigília, lhe parecem a velhice prematura que vem destruir assuas esperanças, e
condená-la à miséria.
Luís – Com
efeito deve ser cruel!
Carolina – E
quando chega o dia em que a moléstia lhe rouba as cores, a formosura, a
mocidade, e da moça bonita que todos admiravam faz uma múmia; quando vem a
pobreza, e é preciso, para não morrer de fome... vender-se!... Oh!... É
horrível!.. Prefira, Luís, vender o meu sangue gota a gota.!...
Luís – Sossegue,
Carolina! Esse horror que lhe causam as faltas que cometeu, é já o sinal do
arrependimento, ele lhe dará a força para repelir essa existência.
Carolina – Se
fosse possível!...
Luís – Como? Que
diz?
Carolina – Por
mais forte que seja a vontade, Luís, há ocasiões em que a necessidade a
subjuga! Quem sofre privações não reflete, não pensa...
Luís – Então é
isso que a aflige?
Carolina – Como
deve ser amargo o sustento ganho com tanta vergonha e tanta humilhação!...
Luís– Mas,
Carolina... A minha presença deve tranqüilizá-la.
Carolina –
Obrigada, Luís. Não posso... É um orgulho ridículo, bem o sei. Porém nunca
aceitarei...
Luís – Nem de
mim, Carolina?
Carolina – De
meu primo, menos do que dos outros!...
Luís – Por que
razão?
Carolina – Não
se lembra?
Luís – De
quê?... Não... Não me lembro!...
Carolina – Não
lhe disse uma vez!... No meio dessa existência louca não perdi de todo a minha
alma. Uma afeição a salvou. Supliquei-lhe um dia que a aceitasse. Depois que a
suportasse apenas! Recusou e eu lhe agradeço! Conservei puro e virgem esse
amor!... Não me obrigue a fazer dele um dever.
Luís – Pois bem,
Carolina, não quer aceitar de mim, aceite de sua mãe.
Carolina – De
minha mãe?...
Luís – Não
deseja vê-la?
Carolina –
Queria pedir-lhe, mas não me animava.
Luís – Adivinhei
o seu peso.
Carolina – E me
perdoará ela, Luís?
Luís – Já perdoou.
Carolina – Ah!... (Recosta-se extenuada)
CENA XII
(Os mesmos e Helena)
Helena –
Demorei-me, porque a botica é longe.
Carolina –
Dá-me; tenho uma sede!
Helena – estás
com febre! Não tomes em água fria. Vou fazer-lhe um chá. Sim?
Carolina – Como
quiseres... A cabeça arde-me!...
Luís – Veja se
consegue dormir um pouco.
Carolina – Antes
acordada! Se durmo tenho sonhos horríveis! Vejo meu pai como naquela noite!
Minha mãe que chora... Dê-me a sua mão, Luís... Deite-a sobre minha cabeça...
assim... Talvez me tire este fogo... (Pausa) A vela apagou-se?
Luís –
Incomoda-lhe a falta de luz?
Carolina – Tenho
medo!... No escuro é que me aparecem as visões...
Luís – Espere um
momento.
Carolina – Onde
vai? Não me deixe!
Luís – Volto já; vou ver luz. Não quer?
Carolina –
Sim!... Sim!...
Luís – Helena!
Helena –
Chamou-me?
Luís – Levou a
vela?
Helena – Para
fazer o remédio.
Luís – Não tem
outra?
Helena –
Esqueci-me comprar. Mas a venda é aqui junto; vou num momento.
Luís – Deixe
estar; irei eu mesmo. Faça o que ela lhe pediu.
Helena (à Carolina) – Não te agonies; já está quase pronto.
CENA XIII
(Carolina e Antônio)
Antônio – Ó de
casa! Menina!... Deixaste a porta aberta? Ah! Ah! Ah!
Carolina – Quem
anda aí?
Antônio – Sou
eu. Onde estás?
Carolina – Mas
quem é?
Antônio – Tu não
me conheces, mas é o mesmo! Por que estás no escuro?
Carolina –
Apagou-se a luz. Que me quer?
Antônio – Nada,
menina. Vamos conversar!
Carolina –
Deixe-me!... Helena!...
Antônio – Tens
as mãos tão frias!...
Carolina – Estou
doente!... Sinto arrepios!...
Antônio – Por
que não tomas um golezinho? A aguardente aquece.
Carolina – A
aguardente?
Antônio – Sim; é
o melhor remédio.
Carolina – Dizem
que faz aquecer... É verdade?
Antônio – Se é!... Queres?
Carolina – Oh! Se houvesse alguma coisa que me matasse esta sede!...
CENA XIV
(Os mesmos, Luís, Margarida, Araújo, Helena, Ribeiro e uma
menina)
Antônio – Há de
matar!... Mas por que não te curas?
Carolina – Não
vale a pena curar-me!
Antônio – Por
que, menina?
Carolina – Já sou um cadáver! Pouco me resta de vida!...
Antônio – São cantigas!...
Carolina – Luís...
Luís...
Luís – É tua
filha! Antônio!
Carolina – Meu
pai!
Margarida –
Antônio!...
Antônio – Quem
és tu?
Margarida – Não
conheces tua mulher?
Antônio – Ah!...
Minha mulher e minha filha...
Luís – Cala-te!
Antônio – Não me toques!... (A Ribeiro) Também veio ver? Ria-se... ria-se... Não me roubou minha filha?... Eu queria roubar sua amante!... Ah!... Ah!... Ah!...
EPÍLOGO (Em casa de Luís. Sala simples, mas
elegante)
CENA I
(Carolina e Margarida)
Carolina – Luís
ainda não voltou, minha mãe?
Margarida – Não!
Creio que anda muito ocupado.
Carolina – O que
será?
Margarida – Não
sei. Não lhe perguntei.
Carolina – Não
consentiu que eu lá entrasse um instante.
Margarida – Para
não interrompê-lo nos seus estudos.
Carolina – E
todos os dias, enquanto ele trabalha, não vou arranjar-lhe os livros,
endireitar-lhe os papéis e mudar as flores dos vasos?... Nem por isso o
perturbo. Às vezes ele mesmo me chama, e conversamos tanto tempo!... Outras,
apenas levanta a cabeça, me vê, sorri e continua a trabalhar.
Margarida –
Talvez hoje precisasse estar só... Porém mudaste o teu vestido escuro?...
Fizeste bem! Assim ficas mais alegre.
Carolina – Nunca
mais poderei ter alegria, minha mãe!... Por meu gosto não mudaria! Mas Luís
pediu-me que me vestisse de branco.
Margarida – Ah!
Foi ele...
Carolina – De
manhã quando nos vimos chegou-se a mim muito sério e disse-me que desejava
pedir-me um favor. Cuidei que era outra coisa...Não tive ânimo de recusar-lhe.
Margarida – Já o
habituaste a fazer-lhe todas as vontades!...E assim deve ser porque ele te
estima como um verdadeiro irmão.
Carolina –
Infelizmente não mereço essa estima.
Margarida – Não
digas isto, Carolina!
Carolina – De
que serve negá-lo? Não é a verdade?
Margarida – Não
te importes com o que pensa o mundo; não é para ele que vives, e sim para a tua
mãe, para aqueles que te amam. O teu mundo, o nosso, é esta casa...
Carolina – E
nesta mesma casa não falta alguém?... O amor de minha mãe não me lembra que eu
tenho um pai que não me quer ver, que foge de sua filha como de um objeto
repulsivo?...
Margarida – Isto
te faz sofrer e a mim também! Mas consola-te. Luís me prometeu que havia de
trazê-lo...
Carolina – E
poderá cumprir essa promessa?
Margarida –
Tenho esperança.
Carolina – Há
mais de um ano que esperamos!...
Margarida – Por
isso mesmo! O único motivo que ainda te separa de Antônio é a vergonha que ele
tem...
Carolina –
Vergonha?... De que, minha mãe?
Margarida – Do
que fez!... bebia... tanto... Como tu viste.
Carolina – Então
é só este motivo?...
Margarida – Só.
Podes acreditar. Não conserva a menor queixa de ti.
Carolina –
Perdoou tudo então?
Margarida – Tudo!
Carolina – Oh!
Mas Deus não perdoou, porque a todo momento vejo...
Margarida – O
quê?...
Carolina – Nada,
minha mãe, nada!
Margarida – Não chores!... Falemos de outra coisa... Luís deve ter voltado. São cinco horas.
Carolina (enxugando os olhos) – Chorar não me entristece, minha mãe, ao contrário me consola.
CENA II
(As mesmas, Luís e Meneses)
Margarida (a
Luís) – Chegaste enfim.
Carolina – Ah!
Luís!
Margarida – Sr.
Meneses...
Meneses – Adeus,
Margarida. (à Carolina) Hoje está mais coradazinha!... Só falta o sorriso nos
lábios.
Carolina – As
lágrimas assentam-me melhor.
Luís – Por que
choravas, Carolina?
Margarida –
Começou a lembrar-se...
Luís – Não te é
possível então esquecer.
Carolina – E que
servia que eu esquecesse? Os outros se lembram.
Luís – Como
estás iludida, Carolina! O mundo é inconstante mo seu ódio, como na sua
simpatia. Não tem memória e esquece depressa aquilo que um momento o
impressionou.
Carolina – Com os homens sucede assim! Com a mulher não: aquela que uma vez errou nunca mais se reabilita. Embora ela se arrependa; embora pague cada um dos seus momentos de desvario por anos de expiação e de martírio; embora, iluminada pelo sofrimento, ela compreenda toda a sublimidade da virtude, e aceite como gozo aquilo que para tantas é apenas um dever, um sacrifício ou um costume!... Nada disto lhe vale! Se ela aparecer o mundo arrancará o véu que cobre o seu passado.
Luís – Quando o arrependimento não é sincero, porque então a sociedade é severa.
Carolina – Não tem direito de ser! Deve lembrar-se que é a causa da alucinação de tantas moças pobres... Porque ao passo que atira a lama ao ente fraco que se deixou iludir, guarda um elogio e um cumprimento para o sedutor.
Meneses – E assim deve ser, Carolina.
CENA III
(Carolina, Luís e Meneses)
Carolina – O
senhor defende esta injustiça?
Meneses –
Defendo a lei social, que, na minha opinião, deve ser respeitada até mesmo nos
seus prejuízos. Como filósofo, posso condenar algumas aberrações da sociedade;
como cidadão, curvo-me a elas e não discuto.
Carolina – Mas
por que razão toda a falta recai unicamente sobre a parte mais fraca?
Meneses – Porque
a virtude de uma senhora é um bem tão precioso, que quando ela o dá a um homem
eleva-o, rebaixando-se.
Carolina – E a
sociedade aproveita-se desse erro, aplaude o vencedor e encoraja-o para novas
conquistas?
Meneses – Toda a
virtude que não luta, não é virtude; é um hábito. Se não houvesse sedutores, a
honestidade seria uma coisa sem merecimento! Creia-me, Carolina, o mundo é
feito assim; deixemos falar os moralistas: eles podem dizer muita palavra
bonita, mas não mudarão nem uma pedra desse edifício social que as maiores
revoluções não têm podido abater.
Carolina– Ouve, Luís; tudo se defende, menos a falta de uma pobre mulher.
Meneses – Não há dúvida! Fiz uma das minhas. Esse maldito costume
de escrever folhetins!... Mas desculpe; não me lembrei que a afligia.
Carolina – Já
estou resignada! Não pertenço mais a este mundo!...
Luís – Hás de
voltar a ele. Eu te prometo!...
Carolina – Como,
meu Deus!...
Luís – Não me
acreditas?
Carolina –
Desejava mas não posso...
Luís –
Espera!...
Carolina – Por
que não me explicas?
Luís – Vai ter
com Margarida; preciso conversar com Meneses.
Carolina – E
depois?
Luís – Depois eu
te chamarei.
Carolina (a
Meneses) – Até logo?
Luís – Ele demora-se.
Meneses – Mas, de agora em diante, pode acusar a quem quiser!...
Carolina – Eu só acuso a mim mesma, Sr. Meneses.
CENA IV
(Luís e Meneses)
Meneses – Pobre
moça!... Quem diria que depois daquele delírio de prazer viria uma tão nobre e
tão santa resignação!
Luís – Isto
prova, Meneses, que nem sempre o mundo tem razão; que estas faltas que ele
condena encerram, às vezes, uma grande lição. As mais belas almas são as que
saem do erro purificadas pela dor e fortalecidas pela luta.
Meneses –
Concordo; para Deus assim é, para o homem não.
Luís – Para os homens também. Eu hoje respeito e admiro a virtude de Carolina!
Meneses – Não duvido; há virtudes que
se respeitam e admiram, mas que não se podem amar.
Luís – Por que
razão?
Meneses – Porque
o amor é um exclusivista terrível; foi ele que inventou o monopólio e o
privilégio. Já vês que este senhor não pode admitir a concorrência nem mesmo do
passado.
Luís – Julgas
então impossível amar-se uma mulher como Carolina?
Meneses –
Concedo que ela excite um desejo ou um capricho; mas um verdadeiro amor, não.
Luís – O que
dizes é verdade se o amor aspira à posse; mas se ele é apenas um gozo do
espírito?
Meneses – Não
creio na existência de semelhante sentimento.
Luís –
Entretanto é assim que amo Carolina.
Meneses – Ainda?
Luís – Mais do
que nunca.
Meneses – E que
futuro tem semelhante amor?
Luís – É justamente sobre isso que desejo conversar contigo. Araújo não deve tardar; mandei-o chamar!
Meneses – Se não me engano ouço a sua voz.
Luís – É ele.
CENA V
(Os mesmos e Araújo)
Araújo – Por que
razão o teu criado não me quis deixar entrar pelo teu gabinete?
Luís– Foi ordem
que lhe dei.
Araújo – Pois
deves revogá-la... É maçada!...
Luís – É por
hoje unicamente.
Araújo (a
Meneses) – Como vais?
Meneses – Já me
estás com uns ares de capitalista.
Araújo –
Infelizmente são ares apenas.
Meneses – A realidade não tarda: o mais difícil já conseguiste, estás estabelecido.
Araújo – Por falar nisto, adivinha quem
me apareceu hoje querendo que o tomasse para caixeiro do balcão.
Meneses – Quem?
Araújo – O
Vieirinha.
Meneses – Ah!...
Luís – Fala mais
baixo; Carolina pode ouvir-te.
Araújo – O
engraçado, porém, é que depois do não redondo que lhe preguei na bochecha, a
dois passos da porta foi recrutado.
Meneses – Não
merecia essa honra. A missão de defender o seu país é muito nobre para ser
confiada ao primeiro tratante que se agarra na rua.
Araújo – Que te
importa isso? O país não ganhará um soldado, porém ao menos ensinará um
velhaco.
Luís – Não
percamos tempo. Senta-te!
Araújo – É
verdade! Por que me mandaste chamar?
Luís – Para
comunicar-te, e a Meneses, uma resolução minha.
Araújo – Que
solenidade!
Luís – O objeto
exige.
Araújo – Pois
então fala de uma vez.
Luís – Tu me
tens acompanhado desde o princípio da minha vida, sabes qual foi o meu primeiro
amor. O que porém não sabes, é que apesar de tudo, apesar da vergonha e do
escândalo, nunca deixei de amar Carolina. Combati essa paixão louca e
extravagante; não pude extingui-la; consegui apenas dominá-la.
Araújo – Mas
hoje é ela que te domina.
Luís – Não,
Araújo; Carolina nem suspeita! Habituei-me por tanto tempo a reprimir os meus
sentimentos, que eles me obedecem facilmente. Não é pois o coração, é a razão
que ditou a resolução que tomei.
Araújo – Que
resolução, Luís?
Luís – Vou
casar-me com Carolina.
Araújo – Como
teu amigo, não consentirei que dês semelhante passo.
Luís – Por quê?
Dois anos de expiação e de lágrimas remiram essa alma que se extraviou. À força
de coragem e de sofrimento ela conquistou a virtude em troca da inocência
perdida. O mundo já não tem o direito de a repelir: mas exigente como é, quer
que o nome de um homem honesto cubra o passado.
Araújo – E tu
fazes o sacrifício?
Luís – Sem a
menor hesitação. Tenho morto o coração; todo o amor que havia em minha alma
dei-o a Carolina; a fatalidade quis que ele se consumisse em desengano: era o
meu destino. Que posso eu fazer agora de uma vida gasta e sem esperança? Não é
melhor aproveitá-la para dar a felicidade a uma criatura desgraçada, do que
condená-la à esterilidade? Que dizes, Meneses?
Meneses – Digo
que terás de sustentar contra o mundo um combate em que muitas vezes sentirás a
tua razão vacilar. A sociedade abrirá as portas à tua mulher: mas quando se
erguer a ponta do véu, hás de ver o sorriso de escárnio e o gesto de desprezo,
que a acompanharão sempre. Toda a virtude de Carolina, toda a honestidade de
tua vida, não farão calar a injúria e a maledicência. Tens bastante força e
bastante coragem para aceitar esse duelo terrível de um homem só contra uma
sociedade inteira?
Luís – Tenho!
Meneses – Então,
faz o que te inspira o amor; é um nobre mas inútil sacrifício.
Araújo –
Carolina já sabe da tua resolução?
Luís – Não; e só
deve saber no momento. Conheço-a e temo uma recusa! Por isso dispus tudo em
segredo; ali está preparado um altar...
Araújo – Para
hoje?
Luís – Sim; é
preciso não deixar um instante à reflexão.
Meneses – Pensas
bem!
Araújo – Contudo
essa precipitação...
Luís – A vida
não é tão longa que valha a pena gastá-la em calcular o que se deve fazer.
Araújo – Na minha opinião nunca é tarde para fazer uma loucura.
Meneses – Vamos conversar com Carolina. O Sr. Ribeiro e Luís naturalmente desejam ficar sós.
CENA VI
(Luís, Ribeiro e uma menina)
Ribeiro –
Custou-me a cumprir minha promessa.
Luís – É sempre
triste separar-se um pai de sua filha.
Ribeiro – Oh!
Não faz idéia... Mas virei abraçá-la todos os dias.
Luís – Perdão,
Sr. Ribeiro! De hoje em diante esta menina deixa de ser sua filha!
Ribeiro – Que
diz, senhor?... Podia eu consentir em semelhante coisa?
Luís – Falta à
sua palavra?
Ribeiro .
Entendi mal. Julguei que me pedia deixasse minha filha em companhia de sua mãe,
podendo vê-la quando quisesse.
Luís – O senhor
ignora que amanhã Carolina terá um marido. A sociedade exige que esse marido
seja reputado o pai de sua filha.
Ribeiro – Um
marido!... Quem?...
Luís – Eu,
senhor!
Ribeiro – Ah!
Luís – É com esse título que reclamo o
cumprimento da promessa que ontem me fez.
Ribeiro – Um pai
não pode deixar que sua filha passe como filha de um estranho.
Luís – Então
esse pai deve legitimar o seu direito.
Ribeiro – Que
quer dizer?
Luís – Quero
dizer que em vez do meu, Carolina pode ter o seu nome.
Ribeiro – Nunca!
Luís – Neste
caso é uma crueldade recusar a filha à mãe a quem se roubou a honra. Lembre-se,
Sr. Ribeiro, que essa moça, de cuja desgraça o senhor foi a primeira causa, só
pode ter uma felicidade neste mundo: a maternidade; enquanto que o senhor daqui
a alguns dias amará uma mulher, terá uma família e gozará das afeições puras
que Carolina perdeu para sempre.
Ribeiro – Ela
fará o mesmo. Não vai casar-se?
Luís – O senhor
não me compreendeu bem. Dou a Carolina o meu nome; não exijo dela um amor
impossível.
Ribeiro – Sou
pai, senhor!
Luís – E ela é
mãe. Entre os dois, quem terá mais direito a esta menina? O senhor para quem
ela representa uma afeição que pode ser substituída; ou Carolina, para quem ela
é a existência inteira?
Ribeiro – Não
exija uma coisa contra a natureza.
Luís - Exijo uma reparação que um homem honesto não
pode recusar.
Ribeiro – Essa reparação ofereci-a outrora.
Luís – Isto não o desobriga; todas as faltas que ela cometeu eram conseqüências necessárias da primeira. entra precipitadamente e abraça a menina)
CENA VII
(Os mesmos, Carolina e Margarida)
Carolina – Minha
filha!... Como está bonita!... Tu conheces tua mãe?... Abraça-me!
Luís – Tem ânimo
de separá-las?
Ribeiro –
Custa-me!... É verdade!
Luís – Não lhe
digo nada mais, Sr. Ribeiro. Ali está uma mulher que o senhor fez desgraçada;
hoje que ela vai reabilitar-se, consulte a sua consciência, e proceda como
entender. Se julga que depois de a ter seduzido deve ser um obstáculo à sua
regeneração, arranque-lhe a filha dos braços e complete a sua obra.
Ribeiro – Se
soubesse como amo esta menina!
Luís – Não
mostra!
Ribeiro – Que
diz, senhor!
Luís – Se a
amasse verdadeiramente não hesitaria em fazer-lhe esse sacrifício. Que
responderá o senhor um dia à sua filha quando ela lhe perguntar por sua mãe?...
Ribeiro – Basta,
senhor!
Carolina (assustada)
– Quer levá-la outra vez?
Ribeiro – Quero
dizer-lhe adeus.
Carolina –
Ah!...
Margarida (baixo, a Luís) – Antônio está aí.
Luís – Mande que espere um momento. (Sai Margarida com a menina)
CENA VIII
(Luís e Carolina)
Luís – Estás
satisfeita, Carolina?
Carolina – Tanto
quanto me é possível!
Luís – Ainda te
falta alguma coisa, não é verdade?
Carolina – Falta-me o que nunca mais poderei obter!...
Luís – Por quê? Não te prometi há pouco?
Carolina – Sim:
mas essa promessa não se realizará...
Luís – Depende
de uma palavra tua.
Carolina –
Como?...
Luís – Consentes
em ser minha mulher?
Carolina –
Luís!...
Luís – Responde!
Carolina – Não!
Luís – Recusas,
Carolina?
Carolina – Eu te
amo, Luís! Deus sabe que poder tem este amor em minha alma; Deus sabe que para
partilhá-lo contigo, para ser amada por ti, eu daria, talvez não creias, eu
daria o amor de minha filha! Porém nada neste mundo me faria sacrificar a tua
felicidade!
Luís – Como te
enganas! Não é um sacrifício.
Carolina –
Queres dar-me à custa de tua honra, um título de que eu me tornei indigna. Não
devo aceitá-lo.
Mas eu também te amo!...
Carolina –
Tu?... Tu me amas... Luís?... Não acredito!...
Luís – Deves
acreditar.
Carolina – Não!
Não é possível! Depois do meu crime, Deus não podia dar-me tanta ventura! Que
reservaria Ele para a virtude?
Luís– Deus já te
perdoou, Carolina. Vê!
Carolina – Um
altar?
Luís – Que nos
espera.
Carolina – Luís,
pelo que há de mais sagrado, responde-me: este casamento é necessário para a
tua felicidade?
Luís – Eu te juro!...
Carolina – Então... Cumpra-se a tua vontade!
CENA IX
(Antônio)
(Cena muda. Toca a música durante o tempo em que celebra o casamento. Pouco depois de esvaziar-se acena, Antônio, quebrado pelos anos e encanecido, entra; olha com uma admiração profunda o que se passa na sala imediata. Ajoelha e reza)
CENA X
(Antônio, Luís e Carolina)
Antônio – Ah!...
Luís – Antônio,
eu te restituo a filha que perdeste.
Carolina – Meu
pai!...
Antônio –
Carolina!...
Luís – Abençoa
tua filha!
Antônio – Depois
que ela me perdoar!
Carolina – Sou eu que preciso de perdão!... Meu pai!... (Abraçam-se)
Luís – Agora, Antônio, entra naquela sala; deixa-me dizer duas palavras à minha mulher.
CENA XI
(Luís e Carolina)
Carolina – Tua
mulher!... Ainda não creio, Luís! Perdoada por meu pai, estimada por ti!...
Gozar ainda esse prazer supremo de ocupar a tua alma, de viver para a tua
felicidade!... Nunca pedi tanto a Deus!... Dize!... Dize que me amas, para que
não me arrependa de ter aceitado este sacrifício!...
Luís– Amo-te,
Carolina!
Carolina – Mas
se não puderes esquecer... Se a lembrança do passado surgir como um espectro...
Não me acuses, Luís!... Foste tu que o exigiste!
Luís – Não
tenhas esse receio, Carolina. Tu és minha mulher perante o mundo. Perante
Deus...
Carolina – O que
sou?
Luís – És minha
irmã.
Carolina – Tens
razão! O nosso amor é impossível.
Luís – É puro e
santo!... Há de ser feliz!
Carolina – Já
não existe felicidade para mim!...
Luís – Existe, Carolina! Existe ao pé de um berço. Sê mãe!...
Carolina – Minha filha!... Sim!... Viverei para ela... (A cena enche-se)
Luís – E agora... Conheces estas
fitas?...
Carolina – Ainda as conservas!...
Luís – São o emblema de tua vida e a história da minha. São as asas de um anjo que as perdeu outrora, e a quem Deus as restitui neste momento.
Carolina – Ah!...
Fim
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.