Por Eça de Queirós (1887)
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a novena na Igreja da Flagelação quando a nossa caravana se formou à porta do Hotel do Mediterrâneo, para partirmos de Jerusalém. Os caixões das relíquias iam sobre o macho, entre os fardos. O beduíno, mais encatarroado, abafara-se num ignóbil cachenê de sacristão. Topsius montava outra égua, séria e pachorrenta. E eu, que por alegria pusera uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao pisarmos pela vez derradeira a ViaDolorosa: - "Fica-te, pocilga de Sião!"
Já chegávamos à porta de Damasco quando um grito esbaforido ressoou, no alto da rua, à esquina do convento dos abissínios:
- Amigo Pote, doutor, cavalheiros!... Um embrulho! Esqueceu um embrulho...
Era o negro do hotel, em cabelo, agitando um embrulho que logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha de dormir da Mary! E recordei que, com efeito, ao emalar, eu não o vira no guarda-roupa, no seu ninho de peúgas.
Esfalfado, o servo contou que depois de pararmos, varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detrás da cômoda; limpara-o carinhosamente; e como fora sempre seu afã servir o fidalgo lusitano, abalara, mesmo sem a jaleca...
- Basta! - rosnei eu, seco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava: "Como rolou ele para trás da cômoda?" Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o tirara do seu ninho de peúgas... Pois antes lá permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! Eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egito seria apertado pelos seus braços gordinhos, ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer perenemente à garupa a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta bretanha atrás de mim, pelas ruas de Jerusalém, querendo instalar-se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me à minha pátria?
E era essa idéia de pátria que me torturava em quanto nos afastávamos das muralhas da Cidade
Santa... Como poderia eu jamais penetrar com este pacote lúbrico na casa eclesiástica da tia Patrocínio? Constantemente a Titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, ásperas e ávida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas... Que cólera a esverdearia se numa noite de pesquisas ela encontrasse estas rendas babujadas pelos meus lábios, fedendo a pecado, com a oferta em letra cursiva "Ao meu portuguesinho valente!"
"Se soubesse que nesta santa viagem te tinhas metido com saias, escorraçava-te como um cão!" Assim o dissera a Titi, em vésperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Igreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a relíquia de uma luveira, perder a amizade da velha que tão caramente conquistara com terços, pingos de água benta e humilhações da razão liberal? Jamais!... E, se não afoguei logo o embrulho funesto na água de um charco, ao atravessarmos as choças de Coloniê, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas decidi que mal penetrássemos com a noite nas montanhas de Judá, retardaria o passo à égua, e longe dos óculos do historiador, longe das solicitudes de Pote, arrojaria a um barranco a terrível camisa de Mary; evidência do meu pecado e dano da minha fortuna. E que bem depressa os dentes dos chacais a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o túmulo de Samuel por trás dos rochedos de Emaús, já para sempre Jerusalém desaparecera aos meus olhos, quando a égua de Topsius, avistando uma fonte, num vale cavado junto à estrada, deixou a caravana, deixou o dever - e trotou para a água, com impudência e com alacridade. Estaquei, indignado:
- Puxe-lhe a rédea, doutor! Olhe que descaro de égua! Ainda agora bebeu... Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!
Mas debalde o filósofo, com os cotovelos saídos, as pernas esticadas, lhe repuxava bridões e crinas. A cavalgadura abalou com o filósofo.
Corri também à fonte, para não abandonar naquele ermo o precioso homem. Era um fio de água turva, escorrendo de uma quelha sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé branquejava, já tida, a grande carcaça de um dromedário. Os ramos de uma mimosa, ali solitária, tinham sido queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha escamada de uma colina, um pastor, negro no céu opalino, ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança pousada ao ombro. E na sombria mudez de tudo a fonte chorava.
Aquela quebrada era tão deserta, que me lembrou deixar ali a fazer-se, como a ossada do dromedário, o embrulhinho da Mary... A égua do historiador beberava com pachorra. E eu procurava aqui, além, um barranco ou um charco - quando me pareceu que, junto da fonte, e misturado ao pranto dela, corria também pranto humano.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.