Por Eça de Queirós (1878)
Conversava-se; e uma mulher de trinta anos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um xale de quadrados vermelhos:
- Pois não imagina, Sra. Ana, não faz idéia! É uma desgraça! É todas as noites como um carro.As vezes até acordo com o barulho que ele faz a falar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demônio adormeça com a luz e haja um rogo. Ah! É de todo!
- Quem? - perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanário, que falava de pé a umcriado alto, de suíças e gravata branca enxovalhada.
- O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!
- Piteireiro, hem? - disse o rapazola, enrolando o cigarro.
- Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro. A mãe, coitadinha,chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fora do emprego. Ai! Não estou nada contente, nada contente!
- Pois olhe que por lá também há desgosto grande - disse, baixando a voz, a do xale dequadrados.
Os dois homens aproximaram-se.
- O senhor - continuou ela com gestos aterrados - é um desaforo com a cunhada!... A senhorasabe, e aquilo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam numa bulha pegada. O homem toma as dores da rapariga; a mulher põe-se aos gritos... Ai! Aquilo vem a acabar mal!
- E então se a gente tem lá o seu descuido - disse o da gravata branca com indignação - é aquidel rei, e daqui e dali!
- Lá a sua gente é sossegada, Sr. João - observou a picada das bexigas.
- É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestido, a suaplaca... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!
E voltando-se para o trintanário, batendo-lhe no ombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:
- Mas isto sim! Isto é que é levá-la! O rapazola sorriu com satisfação:
- Ora! São mais as vozes do que as nozes!
- Vá lá, mostra lá - disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovelo -, mostra lá!
O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do colete de riscadinho um relógio de ouro.
- Muito bonito! Rica prenda! - disseram as duas mulheres.
- Suor do meu rosto - fez ele, acariciando o queixo.
O da gravata branca indignou-se:
- Ora seu maroto! - E baixo para as raparigas: - Suor do seu rosto, hem! - É o serafim da patroa, uma senhora da alta que aquilo são tudo sedas, muitíssimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitíssimo boa mulher; recebe destas lembranças, um relógio de um par de moedas - e ainda fala!
O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:
- E se quiser agora, há de largar a corrente!
- Há de lhe custar muito! - exclamou o da gravata branca.
- Uma gente que tem aí pela Baixa correntezas de casas! Metade da Rua dos Retroseiros édela!
- Mas muito agarrada! - disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto daboca: - Estou com ela há dois meses, e ainda se não desabotoou senão com o relógio e três libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé! - E cofiando o cabelo para a testa: - Não faltam mulheres! E das que têm Dom!
Mas a tia Vitória entrou, muito azafamada, com o xale no braço; e vendo Juliana:
- Olá! Por cá! Tive que dar umas voltas; estou na rua desde às seis. Bons dias, Sra. Teodósia;bons dias, Ana. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá pra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!
Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:
- E então, que há de novo?
Juliana pôs-se a contar longamente a cena da véspera, o desmaio...
- Pois minha rica - disse a tia Vitória -, o que está feito, está feito; não há tempo a perder; émãos à obra! Tu vais ao Brito, ao hotel, e entendes-te com ele.
Juliana recusou-se logo; não se atrevia, tinha medo...
A tia Vitória refletiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouveia, e voltando, fechando a porta do quarto:
- Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?
Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Vitória com desconfiança.
- Tens medo de largar os papéis, criatura? - exclamou ofendida a velha. - Arranja-te tu; entãoarranja-te tu...
Juliana deu-lhas logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...
- A pessoa - disse a tia Vitória - vai amanhã à noite falar com o Brito, e pede-lhe um conto deréis!
Juliana teve um deslumbramento. Um conto de réis! A tia Vitória estava a brincar!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.