Por Eça de Queirós (1870)
Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pe la última vez a ruão, aslágrimas, que até aí conseguira dificultosamente reprimir, saltaram-lhe dos olhos. — Acha horrível, não é verdade? — perguntou-lhe ela com um sorriso em que transparecia a estranha luz da resignação das mártires antigas. — Que queria que eu fizesse,meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me à conveniência da sociedade? Não posso.
Falta-me o valor para sacrificar ao meu infortúnio a salvação da minha alma, e escuso dedizerlhe que me falta igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao sossego ordinário da vida o pudor do meu coração. Bem vê, pois, que aceitei a solução mais sua ve. Coitado! como lhe dói a tristeza do meu destino! Deixe estar: prometo-lhe morrer breve, se me nãosuceder aquela desgraça receada por Santa Teresa de Jesus: que o prazer de me sentir mor rer me não prolongue mais a vida!
Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fora envolvida:- Adeus, meu primo — disse-lhe ela deixando-se beijar na testa -, adeus! Peça a Deus que me perdoe, e aos vivos que me es queçam.Aos primeiros passos que ela deu para lá da porta, esta fechou-se do mesmo modo por que havia sido aberta, sem que ninguém mais fosse visto, tendo mostrado um buraco lôbrego, negro e pro fundo como a goela de um abismo, e a amante de Rytmel entrou noclaustro. Os ferrolhos interiores rangeram sucessivamente nos anéis, expedindo uns sons entrecortados, semelhantes a soluços. arrancados de uma garganta de ferro.O mascarado alto passou parte dessa noite na vila, esperando a mala-posta que partia àuma hora. Ao subirmos juntos à carrua gem ouvimos uma espécie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era. O deputado da localidade, que nos acom panhava no coupé, respondeu, atirando fora um fósforo com que acendera um charuto:
— São as carmelitas que pedem o socorro da caridade, porque não têm que comer.O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, aba fando o vozear entristecido das sinetas com o estrépito que ia fa zendo pelas calçadas estreitas e tortuosas da povoação.Pouco mais tenho que contar-lhe.
O conde de W... recebeu em Bruxelas uma carta de sua mulher contendo estas linhas: «Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os direitos que porventura pudesse ter, um só peço que não seja contestado: o direito de acabar.Suplico-lhe que me per mita desaparecer, e que acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.»
O doutor está, como ele mesmo disse, nos hospitais de sangue do exército francês. Frederico Friedlann partiu repentinamente no mesmo dia em que lançou no correio a carta de F..., para ir incorporar-se na se gunda landwer do seu país.F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se há dias numa quinta dos subúrbios de
Lisboa escrevendo, debaixo das árvores e de bruços na relva, um livro que estão fazendo decolaboração, e no qual — prometem-no eles à natureza-mãe que viceja a seus olhos — levarão a pontapés ao extermínio todos os trambolhos a que as escolas literárias dominantes em Portugal têm querido sujeitar as invioláveis liberdades do espírito.Se me é lícito, por último, falar-lhe de mim, saberá, senhor re dactor, que estou recolhido numa pequena casa na província. Se ainda se lembrar de Teresinha, não estranharáque eu acrescente que estou casado há dias. Precisava disto o meu coração: da paz de um lar tranquilo. Presenciar as profundas comoções romanes cas da vida é como ter assistido a um grande naufrágio: sentese então a necessidade consoladora das coisas pacíficas: então maisque nunca se reconhece que o ser humano só pode ter a felicidade no dever cumprido. A. M. C.
A ÚLTIMA CARTA Senhor Redactor do Diário de Notícias. — Podendo causar re paro que em toda a narrativa que há dois meses se publica no fo lhetim do seu periódico não haja um sé nomeque não seja supos to, nem um só lugar que não seja hipoté tico, fica V. autorizado por via destas letras a datar o desfecho da aludida história — de Lis boa, aos vinte e sete dias do mêsde Setembro de 1870, e a subscrevê-la com os nomes dos dois signatários desta carta.
Temos a honra de ser, etc.
EÇA DE QUEIRÓS
RAMALHO ORTIGÃO
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.