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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Um rijíssimo aperto de mão – e S. Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou... Excelente homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros, esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equívoco da carreira, escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fídias, se visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!...

No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa senti vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias heróicas, e igual lona escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num Concílio, pareciam separados do mundo pôr aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que eu perdera já a memória; e só a Mecânica suntuosa, pôr sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para exemplificar a instrumentação caduca dum mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da eletricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antigüidades; e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exata da vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da supercivilização, e, como eu, encolheriam desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.

Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo pó-de-arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da Couraça passou numa vitória, fixou em mim o monóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as Acácias, espapado em duas cadeiras, o diretor do Boulevard mamava o resto de seu charuto. E num landau, Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos.

Abalei para o Grand-Hotel, bocejando – como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta duma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, no meio de um áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como crinas, senti o Oriente, a sua provocação felina... Interroguei o criado, um medonho ser, duma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:

-Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a França ocupou a ilha!

(continua...)

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