Por Eça de Queirós (1887)
Nessa tarde, o erudito homem acompanhara aos túmulos dos reis a Comissão de Escavações. Eu parti, só, para o Horto das Oliveiras - porque não havia, em torno a Jerusalém, lugar de sombra onde mais gratamente, em tardes serenas, gozasse um pachorrento cachimbo.
Saí pela porta de Santo Estêvão; trotei pela ponte do Cédron; galguei o atalho entre piteiras até ao murozinho, caiado e aldeão, que cerra o jardim de Getsêmani. Empurrei a portinha verde, pintada de fresco, com a sua aldraba de cobre; e penetrei no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu sob a folhagem das oliveiras. Ali vivem ainda essas árvores santas, que ramalharam embaladoramente sobre a sua cabeça fatigada do mundo! São oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas de madeira, amodorradas, já esquecidas dessa noite de Nizam em que os anjos, voando sem rumor, espreitavam através dos seus ramos as desconsolações humanas do filho de Deus... Nos buracos dos seus troncos estão guardados enxós e podões; nas pontas dos galhos raras e tênues folhinhas, de um verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos de um moribundo.
E em redor que hortazinha caridosamente regada, estrumada com devoção! Em canteiros, com sebes de alfena, verdejam frescas alfaces; as ruazinhas areadas não têm uma folha murcha que lhes macule o asseio de capela; rente aos muros, onde rebrilham em nichos doze apóstolos de louça, correm alfobres de cebolinho e cenoura, fechados por cheirosa alfazema... Por que não floria aqui, em tempos de Jesus, tão suave quintal? Talvez a plácida ordem destes úteis legumes calmasse a tormenta do seu coração!
Sentei-me debaixo da mais velha oliveira. O frade guardião, risonho santo de barbas sem fim, regava com o hábito arregaçado os seus vasos de rainúnculos. A tarde caia com melancólico esplendor.
E, enchendo o cachimbo, eu sorria aos meus pensamentos. Sim! Ao outro dia deixaria essa cinzenta cidade, que lá embaixo se agachava entre os seus muros fúnebres, como viúva que não quer ser consolada... Depois uma manhã, cortando a vaga azul, avistaria a serra fresca de Sintra; as gaivotas da pátria vinham dar-me o grito de boa acolhida, esvoaçando em torno aos mastros; Lisboa pouco a pouco surgia, com as suas brancas caliças, a erva nos seus telhados, indolente e doce aos meus olhos... Berrando "oh Titi, oh Titi!", eu trepava as escadas de pedra da nossa casa em Santana; e a Titi, com fios de baba no queixo, punha-se a tremer diante da grande relíquia que eu lhe oferecia, modesto. Então, na presença de testemunhas celestes, de São Pedro, de Nossa Senhora do Patrocínio, de São Casimiro e de São José, ela chamava-me "seu filho, seu herdeiro!" E ao outro dia começava a amarelecer, a definhar, a gemer... Oh delícia!
De leve, sobre o muro, entre as madressilvas, um pássaro cantou; e mais alegre que ele cantou uma esperança no meu coração! Era a Titi na cama, com o lenço negro amarrado na cabeça, apalpando angustiosamente as dobras do lençol suado, arquejando com terror do diabo... Era a Titi a espichar, retesando as canelas. Num dia macio de maio metiam-na já fria e cheirando mal, dentro de um caixão bem pregado e bem seguro. Com tipóias atrás, lá marchava Dona Patrocínio para a sua cova, para os bichos. Depois quebrava-se o lacre do testamento na sala dos damascos, onde eu preparara, para o tabelião Justino, pastéis e vinho do Porto; carregado de luto, amparado ao mármore da mesa, eu afogava, num lenço amarfanhado, o escandaloso brilho da minha face; e dentre as folhas de papel selado senta, rolando com um tinir de ouro, rolando com um sussurro de searas, rolando, rolando para mim os contos de G. Godinho!... Oh êxtase!
O santo frade pousara o regador, e passeava com o breviário aberto numa ruazinha de murta. Que faria eu, na minha casa em Santana, apenas levassem a fétida velha, amortalhada num hábito de Nossa Senhora? Uma alta justiça; correr ao oratório, apagar as luzes, desfolhar os ramos, abandonar os santos à escuridão e ao bolor! Sim, todo eu, Raposo e liberal, necessitava a desforra de me ter prostrado diante das suas figuras pintadas como um sórdido sacrista, de me ter recomendado à sua influência de calendário, como um escravo crédulo! Eu servira os santos para servir a Titi. Mas agora, inefável deleite, ela na sua cova apodrecia; naqueles olhos, onde nunca escorrera uma lágrima caridosa, fervilhavam gulosamente os vermes; sob aqueles beiços, desfeitos em lodo, surgiam enfim, sorrindo, os seus velhos dentes furados que jamais tinham sorrido... Os contos de G. Godinho eram meus; e libertado da ascorosa senhora, eu já não devia aos seus santos nem rezas nem rosas! Depois, cumprida esta obra de justiça filosófica, corria a Paris, às mulherinhas!
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no ombro, chamou-me seu filho, lembroume que se fechava o santo horto e que lhe seria grata a minha esmola... Dei-lhe uma placa; e recolhi regalado a Jerusalém, devagar, pelo Vale de Josafate, cantarolando um fado meigo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.