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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Examinámos depois os papéis de Rytmel a fim de coordenar mos os seus negócios. Verificouse a existência de mil e trezentas libras em notas do banco de Inglaterra.. Entre as cartas não ha via uma só letra de miss Shorn.Nenhum de nós tinha o espírito bastante sossegado para poder reentrar imediatamente nos assuntos triviais da existência. Re solvemos permanecer ali até que decorressem algunsdias sobre a catástrofe de que tínhamos sido testemunhas.

O prédio em que estávamos foi comprado em nome de Lady... a mãe de Rytmel, e nele se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um cofre de ferro, damasquinadode ouro e destinado a receber as cinzas do morto, foi colocado no lugar em que ele se achava sepultado.O mascarado alto dispunha-se a partir para Londres quando tivemos notícia da publicação das cartas do doutor neste periódi co. A condessa declarou que se entregaria à polícia, se não levantássemos na imprensa as suspeitas formuladas na carta de Z... acerca daprobidade do médico, e se F... se não desdissesse catego ricamente das injúrias que nos dirigira na carta intempestivamente mandada ao Dr... por intermédio de Friedlann. Acondessa autorizava-nos a tornarmos pública a sua historia, dizendo que ti nha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a bio grafia que ela lhe legava seria talvez um exemplo profícuo.Foi então, senhor redactor, que determinámos referir-lhe to dos os pormenores deste doloroso acontecimento, ocultando ou substituindo os nomes das pessoas que tiveram partenele, e deixando à sociedade a faculdade de as descobrir e o direito de conde ná-las ou absolvê-las.

A condessa resolveu em seguida entrar num convento, que ela mesma escolheu depoisde miúdas indagações. O mascarado alto acompanhou-a e eu segui-o a uma vila daprovíncia do Minho, onde existe ainda, regido com todo o rigor ascético do estatuto, um velho convento de carmelitas descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estasmulheres decrépitas vivem como dantes tia pobreza de que fizeram voto, mantendo a oração, a penitência e o jejum com a mesma exaltação mística, com o mesmo fervor cató lico dosprimeiros anos das suas núpcias com o divino Esposo. Tra zem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do ano se permitem carne às suas refeições. Comem juntas noantigo refeitório, havendo sempre uma que revezadamente se prostra à entrada da sala, segundo o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar e ao sairda mesa. Não têm património de nenhuma espécie, nem outro algum rendimento que não seja o produto dos trabalhos que fazem. Furtadas a toda a convivência externa vivem na clausura mais estreita e na miséria extrema. Ninguém no mundo tornou a ver as moradorasdaquela casa desde que entraram nela. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não há dístico nem outrosinal que diferencie as que deixam de existir. A morte para todas elas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo é sepulcro. A morte é simplesmente a mudança de cubículo.Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asilo do resto de seus dias.

O exterior do edifício era misterioso e lúgubre Cingia-o em to da a sua amplitude umaalta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as casas habitadas pela freiras ao exame de fo ra. Era um prédio emparedado. Amuralha, que media a altura de quatro andares, era da cor da estamenha, sombra e triste, manchada de grandes nódoas esverdeadas e negrascomo o capuz de um ermita, tinia espécie de lençol em que se enrolasse para o enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta faixa se recolhia, formando o pátio por onde seentrava para o convento, cuja porta, mordida pelos anos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo através dos grossos varões dó uma grade de ferro. Pe las juntas desarticuladas das grandes pedras que lajeavam o pá tio, rompiam moitas de ortigas, com a rudeza de cabelos hirsutos, saídos pelos rasgões de um barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde, seguro por uma corda dó esparto, pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os andrajos das pobres da vizinhança, que vinham laválos ao pé dopoço, e nesse recin to os deixavam a enxugar juntamente com as enxe rgas dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do pátio pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma si neta interior. A este sinal via-se uma abertura daalvenaria rodar no muro um cilindro de madeira, que por um movimento vagaro so metia para dentro a sua superfície côncava e mostrava para fo ra o seu interior convexo. Pareciaquando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a pálpebra, deixando ver uma órbita sem olho. Este aparelho chama-se a roda. A condessa pronunciou aí uma palavra, a que respondeu de dentro uma espécie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da portanegra ao fundo do pátio.



(continua...)

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