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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estritor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ônibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este espírito, pôr cinco anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ônibus parado, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca; mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ônibus: - e, recomeçava o rolar retumbante . Imóveis, decerto, estavam os altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, pôr toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam: - e mais me cansava o perceber a tenaz incessância do trabalho latente, a devorante canseira do lucro, arquejante pôr trás das frontarias decorosas e mudas. Então, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão Bem certamente estava ali como perdido num mundo, que não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria pôr Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Pôr mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard – “ oh homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão – o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da cidade – encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacinto perante a Natureza me invadiam perante a cidade. Aquele Boulevard reçumava para mim um bafo mortal, extraído dos seus milhões de micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola dum fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só podridão pôr dentro. E considerava duma melancolia funambulesca as formas de toda aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a afetação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas da vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cômico da minha parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de mergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernandico!

Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: - Que será feito de Madame Colombe? E, oh miséria! Pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto pôr aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações sutis do seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo de comando:

-Eh, Fernandes!

O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me reconhecera.

-E Jacinto? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:

-Ó lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem perdido! Ora não há!... E um rapaz útil! Que nos divertia, e tinha gosto! Aquele Jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame de Oriol... Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... Potável, mulher ainda muito potável... Não é todavia o meu gênero... adocicada, leitosa, pomadada, neve à la vanile... Ora esse Jacinto!...

-E vossa Alteza, em Paris, com demora?

O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:

-Nenhuma. Paris não se agüenta... está, estragado, positivamente estragado...Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gailon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada! Não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê: Para cá as mulheres! – engraçada, bem despida... A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o Amor no Water-Closet, que diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?

-No Grand-Hotel, meu senhor.

-Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabeça:

-Sua Majestade, bem.

-Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola! Vá ver a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal Amor no Water-Closet.

(continua...)

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