Por Inglês de Sousa (1891)
O vigário devia-lhe, como toda a gente, muitas obrigações. Dera-lhe um opíparo jantar no dia dos seus anos, encarregara-se de lhe mandar lavar e engomar a roupa, pusera-o a par de todos os negócios da vila, dando-lhe conselhos. No transe aflitivo em que o Fonseca se achava, muito lhe poderia valer padre Antônio de Morais. Bastava uma cartinha sua ao cônego Marcelino e tudo estaria arranjado, o José Antônio Pereira ficaria chuchando no dedo, desmoralizado. Mas não, S. Rev.ma preferira ir converter mundurucus! S. Rev.ma abandonara a paróquia, deixara os seus fregueses privados dos socorros espirituais, e lá fora por esses sertões fora pregar aos tapuios bravos, como se os tapuios o pudessem entender! E iria mesmo pregar aos tapuios, ou, talvez, gozar uma vidinha livre, à maneira de padre João da Mata, vigário de Maués, que fora amigo de viver nas malocas indígenas entre bandos de tapuias, como um sultão da Turquia? Fonseca já estava arrependido de ter defendido o vigário de Silves quando o Chico Fidêncio o atacara com os seus sarcasmos ferinos e as suas críticas audazes. Defendê-lo para quê? De que lhe serviria agora o serviço que em boa fé prestara? O padre estava ausente, metido entre selvagens, morto segundo dissera o sacristão Macário, não lhe poderia valer!
A sua tristeza aumentava. Uma última esperança, reunida à repugnância de se encontrar cara a cara com a mulher, na disposição de espírito em que se achava, prendia-o à cadeira de braços, à porta da rua, descontente de tudo e de todos, doendo-se profundamente da traição do Pereira e da ingratidão do João Carlos, do Valadão, do juiz municipal, do vigário e de toda a gente. Um grande desânimo o invadia e uma lágrima teimosa, aproveitando a escuridão da noite que fechava a vila num círculo de trevas, descia-lhe lentamente pela face abaixo, vindo perder-se na farta barba grisalha.
As pressas um homem veio do porto, subindo a rampa com muita agilidade, e chegando ao pé do coletor, que se endireitou na cadeira, disse alvoroçado:
— Morreu agora mesmo. Parecia um passarinho!
Era o vereador João Carlos que, cedendo aos hábitos inveterados da sua vida, vinha consolar o capitão Fonseca no seu isolamento.
No dia seguinte, caminhava o coletor para o domicílio mortuário, azafamado e esbaforido, lamentando o caiporismo que o perseguia agora nas menores coisas da vida. Ia quase a correr, para não faltar à cerimônia, ele, o homem grave, sempre pontual, exato, sempre correto na atitude. Que série de calamidades se desencadeara contra ele, de certo tempo àquela parte, que até nas mínimas circunstâncias a sorte se lhe mostrava adversa!
Primeiro, ao abotoar a sobrecasaca enquanto D. Cirila a escovava, tivera de pregar-lhe um sermão para a convencer que não era decente, para uma senhora séria, estar a lastimar a morte do Totônio Bernardino, atribuindo-a ao amor. E então com que maneiras novas dizia aquilo D. Cirila, batendo-lhe no lombo com a escova, sorrindo entre lágrimas, suspirando - ai! coisa rara! morrer um homem de amor!
Fonseca tivera de repreendê-la. Aquilo eram tolices de rapazes vadios e de raparigas delambidas! Totônio Bernardino não morrera de amor, nem isso era coisa de que se morresse. Segundo o parecer de Regalado, o rapaz recolhera uma constipação, que se complicara com o miasma palustre, e dera em resultado uma tísica furiosa e galopante. Demais o Totônio era um criançola, a quem lá no Pará haviam metido coisas na cabeça. Nunca havia de dar para nada. Não safra ao irmão, que tão moço já era tenente da guarda nacional. O Cazuza, sim, era um rapaz trabalhador e sério. Vivia muito bem com a mulher e ajudava o pai na lavoura, ao passo que o outro era um vadio, cheio de idéias esquisitas, um poeta, afinal!
Após essa altercação que tivera com a mulher, já pronto para sair, Fonseca só depois duma campanha, encontrara o seu chapéu de pêlo, um belo chapéu, comprado em 1868, em Manaus, para a posse do primeiro presidente conservador. Zangara-se. D. Cirila gritara conforme o seu costume. As negrinhas tonteavam pelos cantos, vasculhando os armários e as arcas da roupa guardada. Afinal fora o chapéu encontrado dentro da sua caixa verde atrás de uma porta. Parecia caçoada. Atrás da porta!
Em seguida pediu o seu guarda-sol. D. Cirila gritara de novo. As negrinhas corriam em todas as direções, como baratas pressentindo chuva. E nada do chapéude-sol!
— Pois havia de ir ao enterro sem chapéu-de-sol? Quem fora o canalha que lhe furtara o traste?
Busca e mais busca. Nada. Talvez o tivesse emprestado ao Valadão.
— Negrinha, gritou D. Cirila, corre à casa do seu tenente Valadão. Dize que vais de minha parte fazer uma visita e saber como passou a família toda. E pergunta se não está lá o chapéu-de-sol do teu senhor.
— Já, sim, senhora, disse a escrava. E saiu correndo.
Não estaria o chapéu na casa do João Carlos? Parecia que na véspera, estando a ameaçar chuva, Fonseca lhe oferecera o chapéu-de-sol quando se retirara. Com certeza lá estaria! Era isto. Querer fazer bem aos outros e passar privações e dissabores! Fonseca arrependia-se' daquela mania que tinha de servir a toda a gente, fazendo sacrifícios. De que lhe servia isso? Era uma súcia de ingratos! Pois agora havia de ir ao enterro sem chapéu-de-sol!
— Negrinha, disse D. Cirila a outra rapariga, vai à casa do seu João Carlos, na carreira. Dize que vais da minha parte fazer uma visita e saber a senhora e os meninos como passaram. Que nós estamos bons, muito obrigados. Que eu mando pedir o favor de mandar o chapéu-de-sol de teu senhor que ele emprestou ontem ao João Carlos.
— Já, sim, senhora, respondeu a escrava. E saiu num pulo.
Fonseca sentara-se desanimado abrindo as abas da sobrecasaca para as não amarrotar na cadeira. O tempo corria. O relógio marcava quatro horas. D. Cirila, por desencargo de consciência, continuava a procurar o chapéu-de-sol por todos os cantos, auxiliada por duas escravas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.