Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Entre as árvores de cheiro que se acham na Bahia, há uma a que os índios chamam carunje, que se parece na folha, na casca e no cheiro aos loureiros da Espanha, mas não na baga; cuja madeira é sobre o mole que se gasta, no fogo dos engenhos.Anhaibatãa é uma árvore que se dá em várzeas úmidas e de areia, a qual na grandeza e feição é como o louro, cuja madeira é muito mole e de cor almecegada; o entrecasco desta árvore é da cor de canela; e cheira, queima e sabe como canela; mas tem a quentura mais branda, e sem dúvida que parece canela, e parece que se a beneficiarem, que será muito fina, porque o entrecasco dos ramos queima mais do que o do tronco da árvore. Jacarandá é uma árvore de bom tamanho, que se dá nas campinas, em terras fracas, cuja madeira é preta com algumas águas; e é muito dura, e boa de lavrar para obras-primas; e é muito pesada, e não se corrompe nunca sobre a terra, ainda que lhe dê o sol e a chuva, a qual tem muito bom cheiro.Jucuriaçu é uma árvore que se dá em terras fracas, e não é demasiada na grandeza, mas, contudo, se acham algumas, que dão três palmos de testa; a madeira desta árvore não se corrompe nunca, é dura, pesada e muito boa de lavrar para obras-primas. Há uma casca de cor parda, com águas pretas, e outra vermelhaça, com águas também pretas, umas e outras da feição do chamalote; e umas e outras têm o cheiro suavíssimo, e na casa onde se lavra sai o cheiro por toda a rua, e os seus cavacos no fogo cheiram muito bem; a qual madeira é muito estimada em toda a parte pelo cheiro e formosura.Mucetaíba é uma árvore que se dá em terras boas e não é de demasiada grandeza, a que chamam em Pernambuco pau-santo; cuja madeira é de honesta grossura, muito rija e pesada, mas boa de lavrar e melhor de tornear, e tem boas águas, para se dela fazer obras de estima; nunca se corrompe do tempo, e cheira muito bem.Ubirataia é uma árvore que não é grande, cuja madeira é mole, de cor parda, que cheira muito bem; e na casa onde se queima recende o cheiro por toda a rua.Entagapena é uma árvore que tem a madeira dura, com água sobre aleonado, cheira muito bem, de que se fazem contas muito cortesãs, e o gentio as suas espadas.
C A P Í T U L O LXXIII
Em que se trata de árvores de que se fazem remos e hastes de lanças.
Atrás tratamos do jenipapo no tocante ao fruto, agora lhe cabe tratar no tocante à madeira; cujas árvores são altas e de honesta grossura, tem a folha como castanheiro; a madeira é de cor branca, como buxo, de que se fazem muitos e bons remos, que duram mais que os de faia; enquanto verdes são pesados, mas depois de secos são muito leves; esta madeira não fende nem estala, de que se faz também toda a sorte de poleame, por ser doce de lavrar; e cabos e cepos para toda a ferramenta de toda a sorte.Uacá é outra árvore de que se fazem remos para os barcos, a qual se dá em terras úmidas e de areia. São estas árvores de meã grossura, e quando se lavram fazem um roxo claro muito formoso, mas dura-lhe pouco a cor; as quais, depois de derrubadas, as fendem os índios de alto a baixo em quartos, para fazerem os remos, que não duram tanto como os de jenipapo.Há outras árvores, a que os índios chamam ubiratinga, que não são grossas, mas compridas e direitas, e têm a casca áspera; a cor da madeira é açafroada e boa de fender, o que se lhe faz para fazerem hastes de lança e arremessões, que se fazem muito formosos, e de dardos que são mais pesados que os de Biscaia; mas mais duros e formosos. Dão-se estas árvores em terras baixas e úmidas perto do salgado.
C A P Í T U L O LXXIV
Em que se diz de algumas árvores que têm ruim cheiro.
Nestes matos se acham umas árvores meãs e direitas, de que se fazem obras de casas; a sua madeira por fora é almecegada e o âmago por dentro muito preto; mas quando a lavram não há quem lhe sofra o fedor, porque é pior que o de umas necessárias, e chegar os cavacos aos narizes é morrer, que tão terrível fedor têm; e metendo-se no fogo se refina mais o fedor; a estas árvores chamam os índios ubirarema, que quer dizer "madeira que fede muito".Há outra casta de ubirarema, cujas árvores são grandes e desordenadas nos troncos, como as oliveiras; cujos ramos, folhas, cascas e madeira fedem a alhos, de feição que quem os aperta com as mãos lhe fica fedendo de maneira que se lhe não tira em todo o dia o cheiro, e têm árvores as folhas da feição das ameixeiras.Ao pé de algumas árvores se criam uns ramos como parreira, da grossura e da feição de uma corda meã, a que os índios chamam cipós, os quais trepam pelas árvores acima como as videiras; os quais cipós cheiram a alhos, e quem pega deles não se lhe tira o cheiro em todo aquele dia, por mais que se lave.
C A P Í T U L O LXXV
Em que se apontam algumas árvores que dão frutos silvestres que se não comem.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.