Por Eça de Queirós (1887)
Neste instante o jucundo Pote entrou a trazer-me o precioso embrulho da coroa de espinhos, redondo e nítido com o seu nastro vermelho; e alegremente deu-me as novas de Jerusalém. Colhera-as do barbeiro da Via-Dolorosa e eram consideráveis. De Constantinopla viera um firman exilando o patriarca grego, pobre velho evangélico, com uma doença de fígado, que socorria os pobres. O senhor Cônsul Damiani afirmara na loja de relíquias da Rua Armênia, batendo o pé, que antes do dia de Reis, por causa da birra do murro entre os franciscanos e a Missão Protestante, a Itália tomaria armas contra a Alemanha. Em Betlém, na Igreja da Natividade, um padre latino numa bulha, ao benzer hóstias, rachara a cabeça de um padre copta com uma tocha de cera... E enfim, novidade mais jubilosa, abrira-se para alegria de Sião, ao pé da porta de Herodes, deitando sobre o Vale de Josafate, um café com bilhares, chamado o Retiro do Sinai!
Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam a alma, foram varridas por um fresco vento de mocidade e de modernidade... Pulei sobre o ladrilho sonoro:
- Viva o belo Retiro! A ele! Às iscas! À carambola! Irra! Que estava morto por me refestelar! E depois às mulherinhas!... Põe aí o embrulho da coroa, belo Pote... Isso significa muito bago! Jesus, o que aí a Titi se vai babar!... Planta-o em cima da cômoda, entre os castiçais... E logo, depois da comidinha, Potezinho, para o Retiro do Sinai!
Justamente o sábio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa nova histórica! Durante a nossa romagem a Galiléia a Comissão de Escavações Bíblicas encontrara, sob lixos seculares, uma das lápides de mármore que, segundo Josefo e Fílon e os talmudes, se erguiam no templo, junto à Porta Bela, com uma inscrição proibindo a entrada aos gentílicos... E ele instava que marchássemos, engolida a sopa, a pasmar para essa maravilha... Um momento ainda me rebrilhou na memória uma porta, bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os seus quatorze degraus de mármore verde de Numídia...
Mas sacudi desabridamente os braços, numa revolta:
- Não quero! - gritei. - Estou farto!... Irra! E aqui lho declaro, Topsius, solenemente; de hoje em diante não torno a ver nem mais um pedregulho, nem mais um sítio de religião... Irra! Tenho a minha dose; e forte, muito forte, doutor!
O sábio, enfiado, abalou com a rabona colada às nádegas!
Nessa semana ocupei-me em documentar e empacotar as relíquias menores que destinava à tia Patrocínio. Copiosas e bem preciosas eram elas - e com devotíssimo lustre brilhariam no tesouro da mais orgulhosa Sé! Além das que Sião importa de Marselha em caixotes - rosários, bentinhos, medalhas, escapulários; além das que fornecem no Santo Sepulcro os vendilhões - frascos de água do Jordão, pedrinhas da Via-Dolorosa, azeitonas do Monte Olivete, conchas do Lago de Genesaré - eu levava-lhe outras raras, peregrinas, inéditas... Era uma tabuinha aplainada por São
José; duas palhinhas do curral onde nasceu o Senhor; um bocadinho do cântaro com que a Virgem ia à fonte; uma ferradura do burrinho em que fugiu a Santa Família para a terra do Egito; e um prego torto e ferrugento...
Estas preciosidades, embrulhadas em papéis de cor, atadas com fitinhas de seda, guarnecidas de tocantes dísticos - foram acondicionadas num forte caixote, que a minha prudência fez revestir de chapas de ferro. Depois cuidei da relíquia maior, a coroa de espinhos, fonte de celestiais mercês para a Titi - e de sonora pecúnia para mim, seu cavaleiro e seu romeiro.
Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa. Topsius aconselhava o cedro do Líbano - tão belo que, por ele, Salomão fez aliança com Hirão, Rei de Tiro. O jucundo Pote, porém, menos arqueológico, lembrou o honesto pinho de Flandres benzido pelo patriarca de Jerusalém. Eu diria à Titi que os pregos para o pregar tinham pertencido à Arca de Noé; que um ermitão os achara miraculosamente no Monte Arará; que a ferrugem que neles deixara o lodo primitivo, dissolvida em água benta, curava catarros... Tramamos estas cousas consideráveis, cervejando no Sinai.
Durante esta atarefada semana, o embrulho da coroa de espinhos permanecera na cômoda entre os dous castiçais de vidro; foi só na véspera de deixarmos Jerusalém que o encaixotei com carinho. Forrei a madeira de chita azul comprada na Via-Dolorosa; fiz fofo e doce o fundo do caixote, com uma camada de algodão mais branco que a neve do Carmelo; e coloquei dentro o adorável embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjara, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho - porque estas mesmas dobras do papel vincadas em Jericó, este mesmo nó do nastro atado junto ao Jordão, teriam para a senhora D. Patrocínio um insubstituível sabor de devoção... O esguio Topsius considerava estes piedosos aprestos, fumando o seu cachimbo de louça.
- Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá amiguinho, diga lá! Então acha que eu posso afirmar à Titi que esta coroa de espinhos foi a mesma que...
O doutíssimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidíssima máxima:
- As relíquias, D. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Pode dizer à Titi que foi a mesma!
- Bendito sejas, doutor!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.