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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias ainda andavam pelas portas com os

seus ceirões d'hortaliças: varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia um toque fino de missa.

Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, estendeu um olhar á esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas librés, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia - onde fazia mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas côres, o bello riso, o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe dava um arranque de heroe jovial, lançando o seu carro de guerra... Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera lhe ficara nos labios.

- Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta de ir a Cintra?

Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart, e pelas fugas de Bach? Pois bem, a idéa era vir a Cintra, respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguem!

E accrescentou, rindo:

- Deixa-te levar, que não te has de arrepender...

Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Cintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou por confessar que desde os nove annos não voltara a Cintra.

O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então era necessario ficarem lá, fazer as peregrinações classicas, subir á Pena, ir beber agua á Fonte dos Amores, barquejar na varzea...

- A mim o que me está a appetecer muito é Sitiaes; e a manteiga fresca.

- Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim, uma ecloga!

O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu masso de cigarros á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!

Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot – e declarou-se morto de fome.

Felizmente estavam chegando á Porcalhota.

O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado, - mas, como era cedo para esse acepipe, decidiuse, depois de pensar muito, por uma bella pratada de ovos com chouriço. Era uma cousa que não provava havia annos, e que lhe daria a sensação de estar na aldêa... Quando o patrão, com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando aquillo deliciosamente campestre.

- A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle, puxando para o prato uma montanha de ovo e chouriço.

Tu não tomas nada?...

Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de café.

D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:

- O Rheno tambem deve ser magnifico!

Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... É que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idéas de viagens e de paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde ha neve, os rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir á

Allemanha, percorrer a pé, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...

- Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou Carlos accendendo o charuto.

O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases sybillinas:

- Tudo contradanças!...

Carlos então fallou de um certo plano de ir á Italia, com o Ega, no inverno. Ir á Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual: precisava calmar aquella imaginação tumultuosa de nervoso peninsular entre a placida magestade dos marmores...

- O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.

E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da Gazeta. Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de uma sabujice indecorosa. E o que o affligia é que o Ega, com aquelle talento, aquella verve fumegante, não fizesse nada...

- Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que fazes?

Cruges, depois de um siléncio, rosnou encolhendo os hombros:

- Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a representava?

- E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que lh'o lia?

O maestro terminou por dizer:

- Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar café.

(continua...)

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