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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

E aproximando-se da porta, correu a chave que a fechava por dentro, abriu-a de par empar, e dirigindo-se à condessa, com voz respeitosa e grave, acrescentou: — Vá, minha senhora: tem amais plena liberdade. Poderia dis putar-lha a justiça oficial, não pode empecer-lha a rectidão dos homens de bem a quem foi entregue a decisão da suacausa. O seu futuro, violentamente assinalado pela desgraça, não pertence aos criminosos, pertence aos desgraçados. Leve-lhes a melancólica lição destes desenganos, e permita Deusque perante a suprema justiça, possam os benefícios obscuros e ignorados que houver de espalhar em volta de si, compensar os erros que atravessaram o seu passado! Os vestígios da sua culpa ficarão sepultados nesta casa.Nós abrimos-lhe passagem para que saísse. A condessa, numa palidez cadavérica, vacilava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em pé. O mascarado alto deu-lhe obraço. Ela fez uni movimento como se tentasse falar; o seu rosto contraiu-se numa profunda expressão de dor; hesitou um momento; por fim compri miu os beiços no lenço e saiu abafando uma palavra ou estrangulando um soluço.Momentos depois ouvimos a carruagem afastando-se com aquilo que fora no mundo a condessa de

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Havíamos acordado no modo de ocultar o cadáver, o que se tor nava tanto mais fácil quanto era inteiramente ignorada a assis tência do capitão em Lisboa.Viéramos para o pavimento inferior do prédio, a uma casa tér rea, a que se descia por quatro degraus para baixo do solo. Era o fim da tarde. Estávamos alumiados com a luz dasvelas, porque não entrava na loja a luz do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentiase o cheiro húmido e acre da terra revolvida. Dois dos indivíduos a que tenho chamado os mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas cor-de-rosa. Dê travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e prateadas as teias de aranha rasgadas pelo peso do pó.

Desenrolámos o fardo que tínhamos colocado junto da cova, e contemplámos peladerradeira vez a figura do morto estendido so bre a sua manta de viagem.

Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o colete e vestido a casaca azul de botões de ouro, em cuja carcela se via ainda pendida uma rosa murcha. A cabeça dele, na luz a queestava su jeita, era de uma expressão ideal. Os olhos, de que se não viam as pupilas, apagados e imóveis, davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigasestátuas. Nos lábios entreabertos pa recia pairar um leve sorriso sob o bigode arqueado. Os anéis do cabelo, despenteados pelo contacto da manta em que viera envolto o cadáver, destacavam na lividez da fronte como um velo de ouro nu ma superfície de marfim.Havia um silêncio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relógios que tínhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face do morto. Eu, fitandoocom os olhos marejados de lágrimas, pensava melancolicamente...

Pobre Rytmel! Se neste momento solene, em que o teu corpo es pera à beira da cova pelo seu descanso eterno, te faltam na terra as pompas fúnebres devidas à tua jerarquia; se tenão seguiu até aqui um préstito de uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua derradeira morada as orações de um padre e a luz de um círio, cubra-te aomenos a bênção da amizade! Des cendente de lordes, moço, inteligente e belo, quando todas as flo res que perfumam a vida desabrochavam debaixo dos teus passos, apaga-se de súbito no firmamento a estrela que presidiu ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente maisdesprezível no fundo de uma sepultura sem lápide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurara última expressão da tua felicidade, à luz das mes mas velas que alumiaram o teu derradeiro beijo! Os outros desgra çados que morrem têm ao menos na terra um lugarassinalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ires que às amaram, chorar por eles.

É mais cruel o teu destino; tu morres e desapare ces! Não ensombrarão a tua campa asárvores tristes dos cemitérios. As aves que passarem nos céus não baixarão a beber da água que as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoléu. A Lua, terna amiga dos mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos ciprestes, a brancura da tua campa. O orvalho dasmadrugadas não chorará nas flores do teu jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmoque pudesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pálida, procurará debalde agrade em que se ampare para dobrar os joelhos e levantar para o Céu esse olhar de interrogação em que a lembrança dos filhosmortos se envolve como na túnica luminosa de uma ressurreição.

O mascarado alto curvou-se sobre o cadáver de Captain Rytmel e ergueu-ovigorosamente pelos ombros. Nós amparámos o corpo e descemo-lo ao fundo da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o rosto do morto e disse, como se estivesse falando a uma criança adormecida:- Descansa em paz! Eu irei dizer à tua mãe o lugar em que re pousa o teu corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura de pois de ter recebido no meu próprio seio aslágrimas que ela derramar por ti. Adeus, Rytmel! Adeus!

E impeliu em seguida para dentro da cova uma grande porção de terra amontoada aos seus pés. A terra desabou de chofre sobre o cadáver, levantando um som baço e mole.

II



(continua...)

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