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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito ditas, através dos sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, dum verde de resedá, verde-cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, pôr cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.

Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grande-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma torre Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, a própria tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali permanecera à porta do GrandHotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas... Santo Deus! Pensei, há que anos eu estou em Paris! Comprei, então, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados: – e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas nádegas... Eu outra vez murmurei: - Santo Deus! No café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó-de-arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao meu apetite, pôr ser tão tarde, um linguado frito e uma costeleta.

-E que vinho, Sr.Conde?

-Chablis, Sr. Duque!

Ele sorriu à minha deliciosa coluna, através duma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de Dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloqüentes celebravam vinhos digestivos e tônicos. Depois eram os crimes do costume. – Não há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris – e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trêmula. Gritei pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. Duma garfada findei a costela. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com a polidez requintada duma civilização muito difundida, havia dois francos falsos. E pôr aquela doce tarde de Maio saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava.

(continua...)

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