Por Inglês de Sousa (1891)
Apesar dessa convicção que lhe entrara pouco a pouco no espírito, quando recapitulava as providências que tomara para defender-se dos ataques do escrivão e as pesava maduramente na balança da sua experiência de homem prático e de político velho, o capitão Fonseca ainda não estava tranqüilo, e um receio vago ficara-lhe sempre no fundo da consciência.
A tarde adiantava-se. A sombra da cordilheira ia-se estendendo sobre o lago e expelindo a luz branda do sol que se refugiava nas árvores da outra banda. E o capitão Fonseca, já cansado de esperar pelo Valadão, pelo João Carlos e pelo juiz municipal, sentia o coração apertado, como se, à semelhança do dia que ia morrendo, o seu prestigio fosse acabando aos poucos, e tivesse de desaparecer com a noite que se avizinhava para sepultar a negra ingratidão dos amigos ausentes.
Estaria já demitido do cargo de coletor das rendas gerais e provinciais, metido em processo, perseguido, obrigado a refugiar-se em algum sítio do Urubus?
Estaria nomeado em seu lugar o infame José Antônio Pereira, e àquela hora seria à porta dele que o Valadão, o João Carlos e o Natividade palestravam satisfeitos, esquecidos do amigo velho e inteiramente deslembrados dos benefícios recebidos, das atenções e finezas que lhe haviam merecido? O Valadão não se lembraria mais dos bons remédios que lhe receitara para a tosse, e de que obrigara o Bernardino Santana a dar-lhe uma satisfação completa depois daquela história do baile? O João Carlos estaria esquecido dos conselhos que lhe dera para bem administrar as coisas do município, dos despachos que lhe fornecia e do trabalho com que lhe redigia as indicações? O Dr. Natividade não se recordaria mais da pontualidade com que lhe pagava o ordenado mensal, chegando mesmo a fazê-lo adiantadamente?
À medida que se passava o tempo, mais a ingratidão o afligia. Vinham-lhe idéias negras, a mujica de pirarucu que comera ao jantar pesava-lhe no estômago, aumentando-lhe o mau humor. Já se cuidava abandonado de todos, sem apoio, sem prestígio, perdendo por contragolpe a confiança do Elias que lhe dava bons aviamentos e obrigado a fechar a casa e a rebaixar-se, em competência com o Costa e Silva, ao ofício de regatão, impróprio da sua idade e da posição que ganhara.
O lago mergulhava-se em sombra. A vila ficava escura. Os transeuntes rareavam. Pontos luminosos apareciam por janelas e portas abertas, aumentando a escuridão da vizinhança. Bois e cavalos vagabundos passavam lentamente, espichando o pescoço em busca de alguma erva esquecida pelas sarjetas, e bufando gravemente para assustar os cães que lhe saíam ao encontro de quase todas as portas. Ao longe a flauta do Chico Ferreira punha notas melancólicas no vago ruído da vila, ao rápido crepúsculo da tarde. Dentro da coletoria, D. Cirila ralhava com as negrinhas, e a sua voz alta e mordente irritava aos nervos do marido, fazendo-lhe sentir mais próxima a desgraça iminente, de que, por fim de contas, era D. Cirila a causa primeira, pois se não fora a sua mania de passar o S. João nas praias, o Pereira não teria tomado conta da coletoria, não teria ganho o desejo de ser coletor, e não teria lançado mão do infamíssimo expediente de que usara pára o conseguir. Não fora a insistência da mulher em partir para os castanhais, o Fonseca teria seguido os conselhos do padre vigário, não teria abandonado a vila, e àquela hora estaria descansado, com o seu prestígio seguro, o seu lugar garantido e a sua roda de amigos para dar-lhe as novidades do dia. Mas a senhora D. Cirila quisera passar o S. João nas praias, o S. Pedro, e não se contentara com isso, quisera ficar até o dia de Santana! E agora arrumassem-lhe com um trapo quente!
Vinha-lhe grande rancor contra a mulher, cuja voz continuava a irritar-lhe os nervos, afogueando-lhe a bílis. Aí estava em que davam as complacências dos maridos. Tivesse o Fonseca seguido os conselhos de padre Antônio de Morais, e estaria muito descansadinho. Esta idéia acudia-lhe com insistência, acompanhada duma irritação surda contra o vigário que se fora embora, abandonando as suas ovelhas que lhe cumpria guardar e proteger.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.