Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Ao longo do mar se criam umas árvores, a que os portuguêses chamam espinheiros, e os índios tatajiba, que tem as folhas como romeira, e os ramos cheios de espinhos; a madeira por fora é muito áspera, e por dentro amarela de cor fina; a qual se lavra muito bem, sem embargo em ser dura; e é tão fixa que não há quem visse nunca um pau deste podre, de que se fazem muitas obras boas.Pelo salgado há uma casta de mangues, o que os índios chamam sereíba, que se criam onde descobre a maré, os quais lançam muitos filhos ao pé todos de uma grossura, delgados, direitos, de grossura que servem para encaibrar as casas de mato, e os mais grossos servem para as casas dos engenhos, por serem muito compridos e rijos, e de grossura bastante. Destes mangues se faz também lenha para os engenhos, aos quais caem algumas folhas, que se fazem amarelas, de que se mantêm os caranguejos, que por entre elas se criam; e dão estas árvores umas espigas de um palmo, de feição das dos feijões, e têm dentro um fruto à maneira de favas, de que tornam a nascer ao pé da mesma árvore, e por derredor dela.Canapaúba é outra casta de mangues, cujas árvores são muito tortas e desordenadas, muito ásperas da casca, cujas pontas tornam para baixo em ramos muito lisos, enquanto novos e direitos, e vêm assim crescendo para baixo, até que chega a maré; e como esta chega, a eles logo criam ostras, com o peso das quais vêm obedecendo ao chão até que pega dele, e como pega logo lança ramos para cima, que vão crescendo muito desafeiçoados e lançam mil filhos ao longo dágua, que têm tão juntos que se afogam uns aos outros.


C A P Í T U L O LXXI
Em que se trata de algumas árvores moles.


Há umas árvores muito grandes, a que o gentio chama copa-nibuca, cuja madeira é mole, e não serve senão para cinza, para os engenhos fazerem decoada. Estas árvores têm umas raízes sobre a terra, feitas por tal artifício, que parecem tábuas postas ali a mão, as quais lhe cortam ao machado; de que se tiram ta-buões, de que se fazem gamelas de cinco, seis palmos de largo, e sete e oito de comprido, de onde se fazem também muitas rodelas, que são como as de adargueiro, e davantagem na levidão, cuja madeira é estopenta e muito branda, que não fende.Paraparaíba é uma árvore que se dá em boa terra que já foi lavrada, a qual em poucos anos se faz muito alta e grossa, e tem a casca brancacenta, a qual ao longe parece na brancura e grandura o álamo. Tem esta árvore a folha como figueira, mas os pés mais compridos, a madeira é muito mole e oca por dentro, de que fazem bombas aos caravelões da costa; e por dentro tem muitas infindas formigas.Apeíba é uma árvore comprida muito direita, tem a casca muito verde e lisa, a qual árvore se corta de dois golpes de machado, por ser muito mole; cuja madeira é muito branca, e a que se esfola a casca muito bem; e é tão leve esta madeira, que traz um índio do mato às costas paus destes de vinte e cinco palmos de comprido e da grossura da sua coxa, para fazer dele uma jangada para pescar no mar a linha; as quais árvores se não dão senão em terra muito boa.Penaíba é uma árvore comprida e delgada, muito direita, cuja madeira é leve e de cor de pinho, que serve para mastros e vergas das embarcações da terra, a qual dá de si muito e não estala; mas não dura muitos anos, porque a corrompe a chuva.Geremari é outra árvore que se dá pela terra dentro, a qual é delgada no pé, e muito grossa em cima; e dá umas favas brancas; cuja madeira não serve mais que para o fogo.Dão-se nas campinas perto do mar umas árvores, que se parecem com cajueiros, de que já falamos, que não dão fruto, que se chamam cajupebas. Têm estas árvores a folha brancacenta, crespa e áspera como de amoreira, e a casca dessas árvores é seca como de sobreiro. A madeira é leve, mas muito liada, que não fende, de que se tiram curvas para barcos, e que se fazem vasos de selas, e destas folhas podem manter bichos-de-seda, e os levarem a estas partes.Pelo sertão da Bahia se criam umas árvores muito grandes em comprimento e grossura, a que os índios chamam ubiragara, das quais fazem umas embarcações para pescarem pelo rio e navegarem, de sessenta e setenta palmos de comprido, que são faci-líssimas de fazer; e porque se cortam estas árvores muito depressa, por não ter dura mais que a casca e o âmago, é muito mole e tanto que dois índios em três dias tiram com suas foices o miolo todo a estas árvores, e fica a casca só, que lhe serve de canoas, tapadas as cabeças, em que se embarcam vinte e trinta pessoas.


C A P Í T U L O LXXII
Em que se apontam algumas árvores de cheiro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7879808182...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →