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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Olhe, sabe que mais? Não estou para a aturar! E arremessou violentamente a vassoura.

- Saia! - berrou Luísa. - Saia imediatamente! Nem mais um momento em casa!

Juliana pôs-se diante dela, e com palmadas convulsivas no peito a voz rouca:

- Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!

- Joana! - bradou Luísa.

Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguém! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:

- A senhora não me faça sair de mim! A senhora não me faça perder a cabeça! - E com a vozestrangulada através dos dentes cerrados: - Olhe que nem todos os papéis foram pra o lixo!

Luísa recuou, gritou:

- Que diz você?

- Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui! E bateu naalgibeira, ferozmente.

Luísa fitou-a um momento com os olhos desvairados e caiu no chão, junto à causeuse, desmaiada.

CAPÍTULO VIII

A primeira impressão, mal-acordada, de Luísa foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ela. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio de um frasco de vidro, pousado sobre o mármore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:

- Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, Sra. Juliana?

- De repente.

- Eu vi-a entrar tão afogueada...

Passos sutis pisaram o tapete; a voz de Joana perguntou-lhe junto do rosto:

- Está melhor, minha senhora?

Abriu os olhos; a percepção nítida das coisas foi-lhe voltando; estava estendida na causeuse; tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovelo, devagar, com um olhar errante, vago:

- E a outra?...

- A Sra. Juliana? Foi-se deitar. Também se não achava bem. Foi de ver a senhora, coitada...Está melhorzinha?

Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscilar brandamente:

- Pode ir, Joana, pode ir - disse.

- A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...

Luísa, só, pôs-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janelas cerradas. Uma luva ficara caída no chão; ergueu-se, ainda trôpega; foi apanhá-la; esteve a esticar-lhe os dedos maquinalmente, como sonâmbula, pô-la na gaveta do toucador. Alisou o cabelo; achavase mudada, com outra expressão, como se fosse outra; e o silêncio do quarto impressionava-a, como extraordinário.

- Minha senhora - disse a voz tímida de Joana.

- Que é?

- É o cocheiro.

Luísa voltou-se, sem compreender:

- Que cocheiro?

- Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar...

- Ah!

E como a uma luz de gás que salta subitamente e alumia uma decoração, viu, num relance, toda a sua desgraça.

Ficou tão trêmula que mal podia abrir a gavetinha da cômoda:

Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido... - balbuciava. Deu o dinheiro a Joana; e vindo cair sobre a causeuse:

- Estou perdida! - murmurou, apertando as mãos na cabeça.

Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espírito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação de uns, o escárnio dos outros; e estas imagens caindo com ruído na sua alma, como combustíveis numa fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.

Que lhe restava? - Fugir com Basílio!

Aquela idéia, a primeira, a única, apossou-se dela impetuosamente, traspassou-a - como a água de uma inundação que subitamente alaga um campo.

Ele tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu apartamento da Rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas; poria no seu pequeno saco de marroquim alguma roupa branca, as jóias da mamã... E os criados? A casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul - ou o preto! Mais nada. O resto compra-lo-ia longe, noutras cidades...

- Se a senhora quer vir jantar... - disse Joana à porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

A Sra. Juliana está deitada, diz que está com a dor, não pode servir à mesa.

- Já vou.

Tomou apenas uma colher de sopa, bebeu um grande gole de água; e erguendo-se:

- Que tem ela?

- Diz que é uma dor muito forte no coração.

Se morresse! Estava salva, ela! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:

- Vá ver, Joana, vá ver como está!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dor! Iria logo ao quarto dela rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silêncio da morte, fiem da lividez do cadáver...

- Está mais descansada, minha senhora - veio dizer a Joana - diz que logo que se levanta.Então a senhora não come mais nada? Credo!

- Não.

(continua...)

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