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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Ergui-o: a alucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pen deu-lhe inanimada. Desaperteilhe a gravata. Amparei-o nos braços, e nesse momento senti o volume, asaliência que na sua casaca fazia a carteira. Veio-me a ideia das cartas. Tudo tinha si do pelo desejo de as ler. Tirei-lhe a casaca; era difícil; os seus mús culos estavam hirtos. Junto com acarteira havia outros papéis e um maço de notas de banco. Ao tomá-los, os papéis e as cartas espalharamse no chão. Apanhei-as, apertei-as na gravata branca e meti tudo no bolso.

Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos emRytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o, falei-lhe! Estava frenética! Porque não queria ele acordar? Empurrei-o, irritei-me com ele. Porque esta vaassim; porque me fazia chorar? Tinha vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.

— Acorda! Acorda! Insensível! Insensível! Morto! Ouvi passar na rua um cano. Havia pois alguém vivo!De repente, não sei porquê, lembrei-me que tinha esvaziado o frasco! Deviam ser só duas gotas! Estava morto!

Gritei:- Betty! Betty!

Ela apareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto dele. Ajoelhei.Chamei-

o. Quis dar-lhe um beijo: to quei-lhe com os lábios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive honor dele. Tive medo do seu rosto lívido, das suas mãos geladas!

— Betty, Betty, fujamos!Consciência, vontade, raciocínio, pudor, perdi tudo aos peda ços. Tinha medo, somente medo, um medo trivial, vil!- Fujamos! Fujamos!

Não sei como sal. Fora da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! Caminhava, crescia!Havia alguém, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser sangue! A luz crescia.

Esperei, a tremer. Aquilo caminhava para mim. Aproximava-se! Eu estava encosta da àporta, na sombra, fria de pedra. A luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma lanterna. Iam levar a alguém a extrema-unção...

Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar, sem saber para onde, como louca .....................................

Seguiam-se as linhas em que se contava o encontro que teve comigo, as quais linhas elimino por se referirem a sucessos que eu mesmo narrei e que V., senhor redactor, já conhece. — A. M. C.

CONCLUEM AS REVELAÇÕES DE A.M. C.

I

Convidada a expor o que sabia, a condessa disse de viva voz, com humildade e comfirmeza, a causa e o modo como involunta riamente mata ra Rytmel. — Eis as cartas e as notas que ele trazia consigo — concluiu ela, colocando sobre a mesaum maço de papéis atados numa gravata branca. — As minhas derradeiras disposições — acrescentou — estão feitas. Dêemme o destino que quiserem. Inflijam-me o castigo que mereço.Estávamos todos calados. F... adiantou-se para o centro da sa la e ergueu a voz:

— Castigar é usurpar um poder providencial. A justiça huma na que se apodera doscriminosos não tem por fim vingar a socie dade, mas sim protegê-la do co ntágio e da infecção de culpa. Todo o crime é uma enfermidade. A acção dos tribunais sobre os criminosos, posto que nem sempre cesse de facto, cessa efectivamente de direito no momento emque termina a cura. Sequestrar aqueles em que o mal deixou de ser uma suspeita fisiológica, e por conse guinte uma verdade científica, é fazer à sociedade uma extorsão, que, por sermuitas vezes irremediável não deixa de ser monstruo sa e horrível. Todo aquele que não épernicioso, é necessário, é in dispensável ao conjunto dos sentimentos, ao destino das ideias, à aritmética dos factos no problema da humanidade. A natureza do acto que estamosponderando, as razões que o determinaram, as circunstâncias que o revestiram, a intenção que lhe deu origem, tu do isto nos convenc e de que a liberdade desta senhora não pode constituir um perigo. Encarcerada e entregue à acção dos tribu nais, seria uma causa-crime,interessante, escandalosa, prejudicial. Restituída a si mesma, será um exemplo, uma lição.



(continua...)

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