Por Inglês de Sousa (1891)
Mas, enquanto o coletor gozava a sua licença, e mesmo, a excedia alguma coisa, à sombra dos castanheiros, o presidente da província do Amazonas deixara a administração sem aviso prévio, e sucedera-lhe interinamente um cônego, que o gabinete Paranhos esquecera na lista dos vice-presidentes, em segundo ou terceiro lugar, e que, por mal dos pecados, era um católico ardente e ativo depositário da confiança da panelinha da Boa nova, o jornal que atiçava a questão religiosa na diocese do Grão-Pará.
O presidente resignatário passara por Silves muito zangado com o governo, que o não satisfizera numas tantas coisas, e que para vingar-se passara a administração ao cônego Marcelino, que mostraria aos amigos do gabinete de que pau era a canoa. Até que chegasse a notícia ao Rio de Janeiro e o ministério pudesse pôr na presidência um dos seus amigos do peito, seriam precisos três meses bons, e isso mesmo se o João Alfredo, atrapalhado com as Câmaras, não se descuidasse da longínqua província que só lhe servia para dar ao governo dois deputados da maioria. Ora, em dois meses padre Marcelino tinha tempo de sobra para reagir contra os que se julgavam obrigados, na qualidade de amigos da situação, a fazer praça de liberalismo, falando mal dos padres e defendendo a maçonaria. Padre Marcelino era cabeçudo, sem entranhas, de poucas brincadeiras, e tinha ódio mortal a tudo que era ou lhe parecia maçom. E o patife do Pereira não se lembrara de escrever para Manaus que o capitão Fonseca era maçom, amigo do Chico Fidêncio e assinante do Democrata?
Aquela infâmia do Pereira desatinava o coletor, dava-lhe uma vontade invencível de agarrar o escrivão da coletoria pelas goelas e de o mandar desta para melhor vida. Ele, maçom! O capitão Fonseca amigo do Chico Fidêncio! Isto só lembrava ao diabo! E o tal escrivãozinho não se limitara a isso, falara em certas irregularidades da repartição, em certos desfalquezinhos, verdadeiras insignificâncias, que nunca apareceriam se o coletor não tivesse caído na asneira de deixar o exercício, porque sabia passá-los de trimestre para trimestre, cuidadosamente velados sob a denominação de - saldo em caixa - e, valha a verdade, dando-se tão bem com esse sistema que até estavam engordando. Ainda acrescentara o cachorro que toda a gente estranhava o dinheiro que o coletor gastava em pândegas nos castanhais, e, requinte de perfídia! ousara aquele incomparável patife, recordar aos inspetores da Tesouraria de Fazenda e do Tesouro Provincial que o capitão Manuel Mendes não tinha fiança, como se um homem da sua qualidade precisasse prestar fiança, como qualquer troca-tintas!
Todas as pequenas faltas que lhe atribuíam não lhe causariam o menor abalo se o Pereira não se tivesse lembrado da intriga do maçonismo, com que o queria deitar a perder no conceito do vice-presidente da província. Outros mais pintados do que José Antônio Pereira já tinham feito as mesmas acusações e nada haviam conseguido. A respeito da tal fiança, a Reforma liberal escrevera notícias furibundas de que os presidentes nenhum caso fizeram. Mas agora, com essa história de questão religiosa, as coisas mudavam muito e o coletor não se sentia tranqüilo. O tal padre Marcelino queria ser um Catão, e tratando-se de maçons, era duma severidade até ridícula!
O que valia era que, tendo notícia dos boatos traiçoeiros do escrivão, o coletor não perdera tempo, escrevera para Manaus, deixara de ir à casa do Costa e Silva e até arranjara meios de levar uma descompostura do Chico Fidêncio, numa correspondência para o Democrata. O trecho fora transcrito, à custa do Fonseca, no Jornal do Amazonas, que era o órgão do governo, precedido duma defesa, em que um amigo dizia que o capitão Manuel Mendes da Fonseca, conhecido em todo o vale do Amazonas pela sua honradez e sólidos princípios, estimava os ataques da maçonaria, porque constituíam uma glória para um verdadeiro católico.
Não contente com isso, Fonseca procurara por todos os meios ostentar os seus sentimentos católicos. Lembrara-se mesmo de fazer reviver a idéia do professor Aníbal Americano. Oferecera-se para custear a tipografia que devia publicar a Aurora cristã.
O professor Aníbal viera à sua casa e combinara com ele a forma que daria ao prospecto a remeter para Manaus, e que devia trazer em letras graúdas:
AURORA CRISTÃ
folha católica, noticiosa e comercial propriedade do capitão Manuel Mendes da Fonseca
REDATOR - ANÍBAL A. S. BRASILEIRO
A falar a verdade a coisa era cara, mas também não havia necessidade de a levar a cabo, bastava anunciá-la, fazer constar que o jornal ia aparecer, para dar tempo ao João Alfredo de mandar outro presidente ou de nomear um vicepresidente em substituição ao primeiro da lista que se achava entrevado na cama. Enquanto o pau ia e vinha folgariam as costas. Em vista da demonstração de tão apurado sentimento religioso o terrível cônego Marcelino desprezaria as intrigas do Pereira, e ainda ficaria muito contente com o auxilio que ao partido católico prestaria a adesão do capitão Fonseca.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.