Por Visconde de Taunay (1871)
(1) Fora em fins de dezembro de 1864 Corumba tomada e devastada pelos paraguaios. Era a principal praça comerciante de Mato Grosso: e o inimigo ali realizou mui considerável presa. Haviam-se os habitantes refugiado na matas vizinhas, mas Barrios os perseguiu. Saqueadas as casas, vários objetos roubados, e dos mais valiosos, remeteram-se a Lopez que não hesitou em os guardar, sobressaindo-se Barrios entre todos os que assim procederam. A um brasileiro rico, e sua filha, levaram a bordo do seu navio: e quando o pai recusou deixar a menina a sós com o chefe paraguaio, arrastaram-no à força, ficando a infeliz criança no navio. Pôs Barrios em tratos todos os que Ihe caíram as mãos, quando queriam ou não podiam dar-lhe as informações pedidas, ordenando que os espancassem: foram vários lanceados como espiões.
The War in Paraguay por G. Thompson, vol. In 12, 1869. Jovem engenheiro ao serviço de Lopez, entrara o Sr. Thompson em campanha, crente que ia defender o fraco contra a opressão. A experiência dos fatos testemunhados dissipa-se, porém, a generosa ilusão.
CAPÍTULO IV
Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho de guerra.
Arrancou a coluna a 25 de fevereiro de 1867, indo acampar a uma légua da vila, à margem do rio Nioac. Logo que pudemos, visitamos o comandante. Tinha a barraca sobre um montículo pedregoso, a meio abrigado por palmeiras que tornavam aprazível aquele local. Estava agitado: já para o rancho da tarde faltava gado. A 26 estávamos no Canindé; a 27 no Desbarrancado.
Dois dias demorou a coluna neste lugar, 28 de fevereiro e 1.° de março. A 2 marchava até o Feio, rio da vizinhança, onde, devido ao mau tempo, passou o dia 3. Nesse mesmo dia voltou José Francisco Lopes de sua estância do Jardim trazendo-nos, mais ou menos, duzentos e cinqüenta cabeças de gado, circunstância que naturalmente veio aumentar a grande confiança que nele e em sua palavra já depositávamos. A 4, à uma hora da tarde, ocupamos o lugar onde fora a colônia de Miranda, distante 80 quilômetros S.S.O. de Nioac (1). Apenas ali restavam alguns vestígios de construções incendiadas.
Principiou o coronel Camisão por fazer explorar os diversos pontos que se ligavam à nossa posição e ordenou que, em todas as direções, se abrissem picadas através das matas, mandando ocupar as estradas do Apa e da colônia por piquetes. Ao mesmo tempo eram os aproches da frente e da retaguarda resguardados por destacamentos consideráveis.
O que teria convindo seria investir com as fortificações paraguaias e tomá-las. Na primeira confusão desta surpresa, poderíamos devastar o Norte da República antes que o governo de Assunção soubesse de nossa marcha. Deu-se inteiramente o contrário: teve o inimigo tempo de perceber a diretriz e o alcance da empresa.
Continuava sempre iminente a fome. Segundo rebanho de duzentas cabeças, que Lopes ainda trouxera de suas terras, estava a acabar. Nenhuma remessa nova se anunciava e a Intendência em ofício, datado de Nioac, declarava achar-se incapaz de prover, daí em diante, ao abastecimento de gado. Nesta contingência acentuaram-se as hesitações do coronel com maior freqüência. Deixou mesmo pressentir a necessidade que talvez o compelissem a retrogradar até Nioac e abandonar provisoriamente os projetos de ofensiva. Como fazia praça em observar, tal idéia, aliás, jamais fora favoravelmente acolhida.
Quis em todo o caso pôr a salvo a responsabilidade, por meio de documento oficial com que, oportunamente, pudesse justificar-se, quer perante o governo, quer perante o público. Assim, pois, a 23 de março, oficiou ao presidente da comissão de engenheiros, determinando-lhe que convocasse os colegas para deliberarem sobre a possibilidade de um movimento ofensivo e os meios de o executarmos. A tarde desse mesmo dia. graças a um contraste, cuja recordação nos ficará inapagável à mente, reuniu-se este conselho pejado de tantas desgraças, quando a luz crepuscular enchia os espaços de paz e alegria. A principio solene, acabou por violências nascidas da exaltação conscienciosa.
Por diversas vezes esforçaram-se três dos membros da comissão em pintar a posição do corpo do exército tal qual realmente era; a insuficiência de víveres; a inópia absoluta dos meios de transporte; a ausência da cavalaria e a escassez das munições; a impossibilidade de angariar reforços ou socorros para um punhado de homens internados em terra inimiga. Daí a eventualidade infalivelmente próxima de uma retirada a executar-se, sem dados de antemão estudados, e sob condições em que as tentativas só podiam conduzir a um desastre, e isto com a deplorável conseqüência de atrair novamente para o território brasileiro, a ocupação paraguaia, acompanhada de todos os horrores.
Razão, mais que sobeja, assistia incontestavelmente aos que assim pensavam. Dois dos colegas, porém, encarando a questão sob um ponto de vista diverso, e buscando argumentos em mais elevada esfera, pretenderam que ao corpo de exército assistia uma missão que, a todo o transe, devia cumprir. Tornara-se-lhe a marcha para o Norte do Paraguai absolutamente indispensável no plano de conjunto da guerra. Era sem dúvida a coluna mais fraca e talvez sucumbisse, mas útil e gloriosamente. Dir-se-ia, pelo menos, que se compunha de valentes brasileiros.
Éramos todos moços; tais pensamentos, tais modos de sentir invocados a propósito de opiniões contrárias, trouxeram troca de palavras ásperas e afinal recriminações pessoais.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.