Por Franklin Távora (1879)
— Talvez; mas, então, é a cópia fiel do Bezerra. Depois de três anos de liberdade e tranqüilidade, ser-me-ia por extremo penoso pensar, ainda que fosse por um momento, em voltar à antiga vida de humilhação e martírio, porque eu detesto esse homem, que não era para mim, que foi meu algoz por uma dúzia de anos, que hoje só me merece compaixão ou esquecimento. Como não há quem nos ouça, quero contar-lhe um episódio de minha escravidão conjugal; por ele, poderá o senhor ajuizar do baixo drama em que a mim me coube o papel de vítima, e a ele o de tirano sanguinário. Depois de proibir que eu conversasse em francês com as minhas amigas, impôs-me que não tocasse mais piano. Perguntei-lhe o porque; respondeu-me que ouvira na tarde anterior, por ocasião de eu estar tocando umas melodias de Schubert, um vizinho dizer que eu não devia ter casado com ele. Sabedora do quanto Bezerra era capaz, fechei imediatamente o meu piano, que assim tomava parte no meu infortúnio e martírio.
— Vejo que o seu sofrimento foi na verdade original.
— Oh! o senhor que tem espírito elevado, e no coração dotes surpreendentes, não imagina até onde pode descer um homem de curto entendimento, sem educação, sem alma. Ouça. Não podendo resignar-me inteiramente à privação daquelas vozes sublimes que eram o meu único conforto, que desde criança não se separavam de mim, que era as irmãs da minha voz, espiei qualquer momento em que o meu tirano se dirigisse
a algum arrabalde, deixando-me livre algumas horas. Esse momento ofereceu-se uma tarde em que Bezerra teve que entender-se com certo sujeito sobre negócios que lhes eram comuns. Logo que o vi montar a cavalo, corri como louca ao meu piano. Havia quase três meses que estava muda como túmulo aquela arca dos meus particulares afetos. Sobre as teclas caíram e correram meus dedos desvairados e febricitantes. O prazer que senti, ouvindo os primeiros acordes, desceu tão intensamente ao fundo do meu sistema nervoso que de meus olhos saltaram lágrimas, como contas de cristal, sobre a face de marfim insensível e fria, mas amiga. Irresistivelmente, a voz saiu-me da garganta, com a ternura apaixonada que nesse momento me transbordava do coração, ninho de sentimentos muito diferentes dos de Bezerra. Nunca a musa da harmonia, ao que me parece, havia socorrido tanto o meu canto com a sua paixão.
— Muito bem - disse Ângelo comovido.
— De repente, uma voz ressoou no âmbito da sala: “—Bravo! Bravo!” - dizia a voz.
— Era a de seu marido?
— Não, era a do tal meu vizinho, a quem meu marido ouvira dizer que não devia ter casado com ele. Este vizinho era um solteirão inofensivo e algum tanto parvo. Tinha chegado à varanda e daí alongava o pescoço para dentro da minha casa. — Estou de longe mesmo apreciando os seus dotes. - continuou ele, e mal tinha acabado de proferir estas palavras, senti sobre as mãos, que ainda percorriam o teclado, uma pancada violenta: o piano fora rudemente fechado, contra os meus dedos. Bezerra estava de pé junto de mim, fingira que ia para longe para pegar-me em culpa.
— Adivinho o resto - disse Ângelo.
— No mesmo instante - prosseguiu Maurícia - Bezerra corre à varanda com o intento talvez de pegar o solteirão pelas goelas e sufocá-lo; mas já não o encontrou; tinha fugido. Todo o seu furor se voltou, então, contra mim. Ergueu o chicote, que mal tocava a anca do seu cavalo. Eu estava de pé, e olhava para ele, horrorizada; nem me ocorrera fugir para um quarto e trancar-me por dentro. Mas quando, para que eu representasse todo o papel de escrava, só me faltava receber o golpe infamante, o braço de Bezerra descaiu, e ele empalideceu. Acovardara-se, vendo algumas gotas de sangue que tinham caído dos meus dedos sobre o meu vestido e aí deixavam escrita em caracteres vermelhos a história do seu crime. Foi esta brutal afronta que trouxe a nossa separação, pela minha fugida com minha filha para o Recife.
— A senhora tinha razão, hoje, quando me dizia que eu não sabia uma quarta parte dos seus padecimentos - disse Ângelo.
— Tenho ou não motivos de temer qualquer encontro com semelhante homem? Ah! Sr. Dr. Ângelo, se os maldizentes soubessem toda as particularidades da vida daqueles em quem aferram o dente envenenado, talvez recusassem praticar o seu torpe ofício.
Essas palavras foram proferidas alguns passos antes da entrada da casa de Martins.
Fizeram aí uma pequena parada. Pelas portas abertas, via-se de fora a sala ao clarão das luzes.
— Meu Deus! exclamou Maurícia. Veja quem está ali.
E apontou para a sala.
A um lado da mesa, três pessoas estavam sentadas, Martins, Eugênia e Bezerra.
Maurícia sentiu-se enfraquecer, e inclinou-se, para não cair, sobre o braço de Ângelo.
CAPÍTULO V
Albuquerque, senhor de engenho com quem Maurícia contratara os seus serviços, pertencia, segundo o está atestando o próprio apelido, a uma das primeiras famílias de Pernambuco. Em muitos pontos adiantado pela natural influência das idéias modernas, mostrava-se sumamente aquém do seu tempo no tocante às antigas regalias de sangue. Revia-se com vaidade que para assim dizermos trouxera do berço, nos pergaminhos da família. Esta vaidade era nele uma como intuição inata e irresistível. A educação, que se ajustara a esse molde tosco, dera-lhe novos acrescentamentos.
De seu natural, era brando e benévolo, não obstante serem rudes os sentimentos e algum tanto carregadas as tradições que herdara dos seus maiores.
Quando se sentia pisado na dignidade por pé, movido pela audácia, elevavase a toda à altura do passado, e no vasto arsenal da família encontrava, senão armas de aço fino e cortante com que rebater o agressor, as armas da soberba, do desdém, da altivez, e, às vezes, até as da ameaça e da hostilidade moral.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.