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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Quando o almocreve, firmando-se pelos dois primeiros dedos do pé, sempre descalço, sobre a raiz da curva da perna do seu cavalo, ganha de um pulo a cangalha, se ele está descarregado, ou a anca se o animal tem carga, considerase mais feliz e garboso do que um general de mil batalhas. A seus olhos aquela altura que o homem de pé atinge com a mão, lhe parece superior a todo poder humano. Dai não teme o agente da autoridade publica, nem o golpe ou o tiro mortal que lhe desfechem. Reputa-se inacessível a todos os males da terra. Entre suas pernas, querendo-o ele, o cavalo é uma locomotiva que se perde na imensidade dos caminhos ou dos descampados; é a faisca elétrica que corre terra a terra e desaparece, rompendo fechados e abatendo folhagens, na massa densa e sombria das selvas. O touro afasta-se, a onça recua, para o deixar passar livremente na vertiginosa carreira.

De ordinário, porém, a marcha do animal do almocreve não sai do rojão de todo dia. Tendo sempre presente na lembrança o muito que lhe custou ganhar o seu precioso bem, poupa-lhe as forças quanto pôde, e só em caso extraordinário exige dele a corrida afanosa, os saltos súbitos, o galope, o cansativo esquipar.

Do numero dos almocreves saem os cantadores e os repentistas, que, não obstante as privações ordinárias de sua vida quase errante, têm dias de consolação e regozijo.

Pelas festas do ano ajuntam-se na casa dos camaradas para cantar, dançar e beber.

A esses saráos campestres, conhecidos por sambas, não faltam as moças mais desembaraçadas das vizinhanças, - fadas da roça, que com suas chinelas de marroquim, seus vestidos de chita ou de cassa de florões, nos lábios, que estão a verter sangue e frescura, o riso vergonhoso e a promessa duvidosa, os cabelos enastrados de jasmins, manjericões e malmequeres, dão alma a pastoris episódios, a curiosos melodramas e muitas vezes a tragédias medonhas e fatais. Algumas delas mais desgarradas trazem os seios mal cobertos por vistosos cabeções de que pendem, não sem acertadas combinações e fantasias, bicos e rendas bem feitas e elegantes.

Tais festas têm o seu lado bom e providencial, - fazem esquecer as magoas passadas e as privações presentes.

O primeiro e o mais proveitoso resultado delas é o seguinte: diminuem a estatística dos crimes graves e infamantes.

Pobres matutos!

Quantas vezes, ao ver-vos descalços, mal vestidos e mal passados, não senti apertar-se-me o coração com pena de vós?! Esta pena redobrava sempre que, passando pela frente dos vossos casebres, eu descobria ai por mobília um banco tosco, uma caixa grosseira, um pote de água suspenso entre os braços de uma forquilha enterrada no canto da salinha, e por leito de dormida para vós e vossos filhinhos uma esteira ou um giráo de varas!

Então eu compreendia a razão por que em nossos encontros nos caminhos éreis vós os primeiros que tiráveis o vosso chapéu e me salváveis com mostras de profunda humildade, sem saberdes sequer quem eu era. É que vós tínheis sempre presente no entendimento a consciência da vossa pobreza e consequentemente vossa fraqueza. Esta consciência, este aguilhão intimo, que nunca se embota, vos dava uma falsa idéia de superioridade de minha parte sobre vós. Pobres criaturas sois vós, ó matutos, mais dignos de compaixão e amparo do que do riso mofador de que vos fazem alvo os que na ignorância, na simplicidade e na miséria alheia acham assumpto para desenfado e divertimento próprio! Pobres sois vós dobradamente: porque recebestes de vossos pais por herança esta lamentável condição, e porque não podeis deixar em dote a vossos filhos condição diferente desta!

Francisco pertencia – é verdade – á classe dos almocreves; mas tinha seu cavalo, que não era qualquer, antes pelo contrario, era passeiro, carregava baixo e esquipava tão maciamente que quem nele ia, levava a ilusão de que era conduzido e embalado em uma rede.

Entremeava o oficio de almocreve com o de trabalhador de campo. Tinha mesmo plantações, posto que fracas. Por felicidade sua casará com Marcelina, cabocla ainda nova das proximidades da Alhandra, trabalhadeira poupona e ajuntadeira, que com as escassas economias de suas industrias ajudava o marido a achar a felicidade no seio da pobreza, e guardava a idéia de libertar-se deste estado ás custas do seu esforço.

Tempos depois de mudado de Cruangi, onde ao principio morou, para o seu sitio do Cajueiro, nome que ficou pertencendo não só ao sitio mas ao lugar de que Francisco foi o fundador, teve ele umas maleitas tremedeiras na força de rigoroso inverno. A moléstia pegou-o desprevenido, sem vintém nem dez réis, como diz o povo – ilustre saibo que versa a ciência da linguagem com autoridade e propriedade que lhe invejam os sábios de maior conta.

Mas durante ela nunca lhe faltaram remédios nem dietas: Marcelina supria as faltas e a casa com admirável prontidão.

- Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco á sua mulher.

(continua...)

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