Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Sem que um entrasse nos segredos do outro, os dois diziam se amigos, e até certo ponto apoiavam se reciprocamente, havendo muitos respeitos entre ambos, perfeito acordo de intenções e inteira comunidade de interesses.

As barras vinham quebrando quando a canoa dirigida por Teodósio encostou na beira do Capibaribe, junto à ponte dos Afogados. Dentro em pouco a pingue messe da noite. colhida às custas de sustos, sangue e morte, passou para os esconderijos da taverna. Beberam em comum os quatro; celebraram todos a magistral façanha. Timóteo aplaudiu a coragem do pai e do filho, e a finura e as mágicas do Teodósio.

De repente este levou a mão à testa e correu como desesperado à margem. Os companheiros meteram mãos às armas e prepararam se para o que desse e viesse.

Timóteo, chegando à porta e estendendo os olhos pelo aterro dos Afogados afora, nada descobriu na extensa solidão que pudesse justificar a inquietação do seu digno conviva.

Só o Teodósio, de pé sobre uma das mais altas ribanceiras, olhava para um e outro lado do rio, e dava mostras de querer arrancar os cabelos no auge do desespero. José dispôs se a arrostar com o que pudesse acontecer e foi ter com o consternado amigo.

— Que diabo tens tu, Teodósio?

— O dinheiro, Cabeleira, o dinheiro!

E o pardo, com o semblante desfigurado por uma dor profunda, apontou o rio que suavemente discorria por entre o deserto, mobilizando as águas azuladas em que se refletia o belo céu pernambucano que disputa a primazia ao céu de Itália.

— O dinheiro que tirei das gavetas do armazém lá se foi no camarote da canoa!—disse o Teodósio, fulo de pesar que se não descreve.

— E que fim levou ela? — interrogou José.

— Fugiu, desapareceu ! Lá se foi tudo pela água abaixo.

Não acabava quando, ei-la que aponta movida por dois meninos que, tendo ido encher os potes no rio, se haviam apoderado dela para brincarem como costumavam sempre que davam com alguma canoa sem dono. Pobres crianças !

Tanto que os viu, Teodósio empalideceu. Cabeleira porém correu a encontrálos aceso em ira, gritando e ralhando como louco. Amedrontados saltaram na margem os pobrezinhos e fugiram, ao passo que a canoa, ficando solta, desaparecia novamente impelida pela enchente da maré.

Fazendo conta José que os meninos se haviam assenhoreado do dinheiro, continuou a correr no encalço deles sem ter outra idéia que apanhá-los para arrancar lhes das mãos o que considerava propriedade sua. Mas como sua cólera aumentou com a fugitiva resistência dos pequenos, atirou ele sobre o primeiro que lhe ficou ao alcance o facão com tanta certeza, que o pobrezinho, cravado pelas costas, caiu banhado em seu próprio sangue.

Não parou aí então a fereza inaudita. José, achando limpas as mãos da vítima, lançou-se com encarniçada fúria atrás do camarada, o qual, tendo já ganho grande distancia, e sentindo que era perseguido tenazmente, se lembrou de trepar no primeiro coqueiro que descobriu com os olhos pávidos, crendo escapar por este modo ao terrível assassino. Reconheceu, porém, que se havia enganado, quando deu com as vistas em José que do chão diligenciava feri-lo com o facão.

— Acuda, mamãe, que o homem me quer matar — gritou o menino das alturas aonde havia subido.

— Ah, tu pões a boca no mundo, caiporinha ? — observou José. — Pois vou tirar te a fala em um instante.

Um tiro cobarde, cruel, assassino, atroou os ares. Sangue copioso e quente gotejou como granizo sobre a areia e no mesmo instante o corpo do inocentinho, crivado de bala e chumbo, caindo aos pés de Cabeleira, veio dar lhe novo testemunho de sua perícia na arte de atirar contra seu semelhante.

Quem estivesse com os olhos em Teodósio no momento em que Cabeleira correra atrás dos meninos, teria visto atirar dentro em uma moita de muçambés e manjeriobas, que ficava perto da ribanceira, um pesado pacote que tirara do bolso. Neste pacote achava se o dinheiro roubado ao lojista pelo astucioso ladrão que agora o furtava novamente aos próprios companheiros de rapinas, depois de haver concorrido, por sua trapaça, para a morte das inocentes criaturas.

Quando se soube que Cabeleira estava na terra e tinha sido o autor do latrocínio, a povoação horrorizada tratou unicamente de escapar a sua ferocidade.

Grande parte dos moradores fugiu para os matos e praias circunvizinhas. Outros, dos mais corajosos, fortificaram se nas próprias habitações, contando que seriam assaltados pelos matadores.

Felizmente estes demoraram se no lugar unicamente o tempo que lhes foi preciso para porém em boa espécie os objetos roubados segundo usavam depois de suas depredações.

CAPÍTULO III

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →