Por Bernardo Guimarães (1872)
Se via um grupo de mulheres passeando ao longo das colinas verdes, e entre elas alguma menina, seu coração suspirava. Margarida! murmurava ele, e aquele nome tão doce, que lhe escapava como um soluço do fundo do coração, ia morrer nas asas da brisa perfumada, abafado pela algazarra de seus alegres companheiros. Era um arrulho de juritis perdido no meio da atroadora garrulice dos melros.
Outras vezes ficava olhando para o ocidente. Era desse lado que ficava a sua terra natal. Por largo tempo ficava com os olhos pregados nas nuvens brilhantes, que como franjas de ouro pairavam sobre os cumes das últimas colinas, e lá iam boiando a atufar-se no vapor esbraseado do ocidente. Ele se transportava em espírito para o seio daquelas nuvens de ouro, donde pensava poder-se enxergar as colinas e vargedos da fazenda paterna, e dali conversava com a saudosa companheira de sua infância. Tinha inveja da andorinha e do corvo, que talhando os ares lá se iam perder nas douradas brumas do ocaso demandando os sítios venturosos onde morava a bem querida do seu coração, e pesaroso por não poder acompanhá-los dizia-lhes do íntimo d'alma: — dai saudades a Margarida!
O sino da capela badalando ave-marias o vinha despertar daquelas doces e saudosas cismas.
— Anda, sorumbático!... vamos, meu sonso!... que estás aí banzando? bradavam-lhe seus galhofeiros e alegres companheiros.
Então os meninos, descobrindo-se com as mãos postas dentro de seus barretes, os olhos baixos, e a fronte venerabunda postavam-se em semicírculo em face do regente, e murmuravam em voz baixa a prece das Ave-Marias.
Eugênio, posto que com o espírito preocupado pelas inquietações e saudades de um afeto terreno, rezava com mais fervor e recolhimento do que seus frívolos e descuidosos companheiros. Seu espírito apurado ao fogo de um amor infantil e casto, como o sutil e rosado vapor da manhã, despegava-se da terra com facilidade remontando ao firmamento.
As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus.
CAPÍTULO V
No seminário o menino Eugênio era um exemplo de boa conduta e aplicação. Cordato, dócil e obediente, depressa granjeou a benevolência e estima dos padres, e a simpatia de seus companheiros. No estudo, porém, não deu a princípio muito boas contas de si, nem apresentou os progressos que eram de esperar de sua boa memória e inteligência.
A imagem de Margarida e a saudade do lar paterno enchiam-lhe de sombra o espírito e o coração para deixarem lugar às fastidiosas lições de gramática latina. O compêndio de Antônio Pereira foi para ele um pesadelo, diante do qual teve de gemer e suar por alguns meses. Lia e relia as páginas da lição a ponto de as esfarelar para conseguir gravar na memória algumas palavras. É que eram seus olhos somente que passeavam por sobre aquelas letras mortas, que nada diziam ao seu espírito.
Aquelas definições e classificações tão frias e áridas, aquelas enfiadas enfadonhas de declinações e conjugações, como um bando de morcegos e corujas, recusavam-se obstinadamente a penetrar no cérebro inflamado do adolescente, onde como em um santuário ardente e luminoso fulgurava incessantemente a imagem de Margarida. Se desde o começo lhe tivessem posto nas mãos o livro dos Testes de Ovídio ou as Éclogas de Virgílio, talvez aquela calma impressionável e apaixonada se tivesse mais depressa congraçado com o latim.
Foi pois com muita lentidão e um insano trabalho, que só a muita perseverança e força de vontade tornara suportável, que Eugênio conseguiu ir gravando na memória os seus rudimentos de latim.
Entretanto, era preciso saber para ser padre, e portanto Eugênio entregavase ao estudo com um ardor inexcedível, e fazia esforços inauditos para banir do espírito a sedutora visão que o perturbava. Neste empenho a sua tendência ao misticismo e à vida religiosa vieram eficazmente auxiliá-lo, e mesclando-se às suas afeições terrenas contribuíram para extingui-las até certo ponto, tirando-lhes o caráter ardente e inquieto, e confundindo-as com aquele culto respeitoso e sereno, com aquela adoração calma e extática, que o menino consagrava à Virgem Mãe de Deus.
Amor e devoção se confundiam na alma ingênua e cândida do educando, que ainda não compreendia a incompatibilidade que os homens têm pretendido estabelecer entre o amor do criador e o amor de uma das suas mais belas e perfeitas criaturas — a mulher; a mulher, que Deus criou para amar e ser amada, a mulher que sem o amor é como a caçoula de perfumes, a que o ministro do templo esqueceu-se de comunicar o fogo santo, que os faz arder e subir em nuvens recendentes a beijar os pés de Deus.
Assim, o coração naturalmente afetuoso e terno de Eugênio, não podendo dar ampla expansão a seus afetos mundanos, se refugiava no ascetismo da devoção religiosa, e derramava-se com efusão aos pés do altar, sem que esse culto da divindade excluísse dele o terno sentimento que experimentava por Margarida, sentimento de que ele ainda ignorava a natureza, e nem lhe sabia o verdadeiro nome.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.