Por Bernardo Guimarães (1872)
Debaixo daqueles céus ardentes, em meio daqueles plainos infindos tão cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de tão opulenta vegetação e banhados de tanta luz, parece que a imaginação se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o coração nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais força, sentir com mais energia. A índole do homem ali é plácida e calma na aparência como o céu, que o cobre, mas no fundo é ardente de sentimento e de paixão. O sopro das paixões lhe ruge n’alma violento e tormentoso como os pavorosos temporais que atroam aquelas solidões.
Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeirão do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de serão a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horríveis histórias de sangue e vingança, e interessantes e românticos episódios de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja história vos estou contando.
Eduardo, – assim se chamava o caçador ferido – era um moço natural da Vila Franca na província de S. Paulo, alto, bem feito, e de fisionomia agradável e simpática, onde transluziam os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos à feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas províncias de S. Paulo, Minas e Goiás. Andava então no giro de seu negócio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha, pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem já aludimos no capítulo antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em caçadas, a que era muitíssimo afeiçoado, o que deu ocasião ao lamentável incidente, que teve lugar na roça de Joaquim Ribeiro.
O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram também da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente, despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros caçadores, recomendando-lhe toda a paciência e cuidado com o ferido, por ser muito seu amigo, e digno de toda a estima e apreço. Roberto, porém, a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas não fazia mais do que aproveitar-se com avidez da ocasião que se lhe oferecia de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde criança tinha uma paixão louca. Havia mesmo já como um ajuste tácito entre os pais para o casamento dos dois primos, e já desde a infância os entretinham em ar de brinco com essa idéia; – mau costume que há nas nossas famílias, e que às vezes produz funestos resultados. Disse – ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte ouvia sempre falar nisso com a maior indiferença, e entendia que aquilo não passava de um brinquedo entre crianças. Roberto, porém, moço que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira e ardente paixão, alimentada constantemente desde a infância com os mais lisonjeiros sonhos de esperança e de futuro. Além disso encantava-o a perspectiva de uma rica herança que teria de vir-lhe às mãos inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.
Roberto era um sertanejo de grosseira educação, de gênio áspero, e asselvajado na superfície, posto que no fundo não tivesse má índole. Com tais predicados bem se vê, que era impossível ser agradável aos olhos da delicada e sensível Paulina.
Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia, tornava impossível qualquer simpatia entre dois caracteres talhados por moldes tão diferentes.
No dia seguinte ao do desastre pela manhã, Paulina, seu pai e o primo achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira a grande perda de sangue, não permitia levantar-se da cama. Paulina acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio do mais terno reconhecimento.
– Coitadinha da prima! dizia Roberto, – que susto não rapou ontem!
por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.
– Com efeito, primo! que fraco gosto! que graça podia achar em ver uma cara de defunta?... eu fiquei sem pinga de sangue, e caí logo sem acordo.
– Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para pagar o susto, que lhe pregou, prima.
– Ora!... o susto nada foi, já se passou; mas o golpe, que deu no senhor Eduardo?... para esse sim, é que toda a vingança seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo tão valente, não acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajudá-lo a matar a onça; talvez tivesse evitado semelhante desastre.
– Isso é que é verdade; acudiu o velho; – se algum dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez não tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada pateteou...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.