Por Bernardo Guimarães (1875)
— Olha, Isaura; ninguém mais do que eu está nas circunstâncias de conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Leôncio a te libertar, porque, se me não engano, já lhe adivinhei os planos e as intenções, e protesto-te que hei de burlálos todos; é uma infâmia em que não posso consentir. Além da liberdade terás tudo o que desejares, sedas, jóias, carros, escravos para te servirem, e acharás em mim um amante extremoso, que sempre te há de querer, e nunca te trocará por quanta moça há por esse mundo, por bonita e rica que seja, porque tu só vales mais que todas elas juntas.
— Meu Deus! — exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa; — tanta grandeza me aterra; isso faria virar-me o juízo. Nada, meu senhor; guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou contente com a minha sorte.
— Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta, — disse o moço lançando o braço ao pescoço de Isaura.
— Senhor Henrique! - gritou ela esquivando-se ao abraço, — por quem é, deixe-me em paz!
— Por piedade, Isaura! - insistiu o rapaz continuando a querer abraçá-la; — oh!... não fales tão alto!... um beijo... um beijo só, e já te deixo...
— Se o senhor continua, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar um momento, que não me venham perturbar com declarações que não devo escutar...
— Oh! como está altaneira! - exclamou Henrique, já um tanto agastado com tanta resistência. – Não lhe falta nada!... tem até os ares desdenhosos de uma grande senhora!... não te arrufes assim, minha princesa...
— Arre lá, senhor! — bradou a escrava já no auge da impaciência.
— Já não bastava o senhor Leôncio!... agora vem o senhor também...
— Como?... que estás dizendo?... também Leôncio?... oh!... oh! bem o coração me estava adivinhando!... que infâmia!... mas decerto tu o escutas com menos impaciência, não é assim?
— Tanto como escuto ao senhor.
— Não duvido Isaura; a lealdade, que deves a tua senhora, que tanto te estima, não te permite que dês ouvidos àquele perverso. Mas comigo o caso é diferente; que motivo há para seres cruel assim?
— Eu cruel para com meus senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de Deus!...
Não esteja assim a escarnecer de uma pobre cativa.
— Não! não escarneço... Isaura!... escuta, — exclamava Henrique forcejando para abraçá-la e furtar-lhe um beijo.
— Bravo!... bravíssimo! — retumbou pelo salão uma voz acompanhada de sardônica e estrepitosa gargalhada.
Henrique voltou-se sobressaltado. Toda a sua amorosa exaltação tinha-selhe gelado de súbito no âmago do coração.
Leôncio estava em pé no meio da porta, de braços cruzados e olhando para ele com sorriso do mais insultante escárnio.
— Bravo! muito bem, senhor meu cunhado! - continuou Leôncio no mesmo tom de mofa. — Está pondo em prática belissimamente as suas lições de moral!... requestando-me as escravas!... está galante!... sabe respeitar divinamente a casa de sua irmã!...
— Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os dentes de cólera, e seu primeiro impulso foi investir de punho fechado, e responder com cachações aos insolentes sarcasmos do cunhado.
Refletindo porém um momento, sentiu que lhe seria mais vantajoso empregar contra o seu agressor a mesma arma de que se servira contra ele, o sarcasmo, que as circunstâncias lhe permitiam vibrar de modo vitorioso e decisivo. Acalmou-se, pois, e com sorriso de soberano desdém:
— Ah! perdão, meu cunhado! — disse ele não sabia que a peregrina jóia do seu salão lhe merecesse tanto cuidado, que o levasse a ponto de andá-la espionando; creio que tem mais zelo por ela do que mesmo pelo respeito que se deve à sua casa e à sua mulher. Pobre de minha irmã!... é bem simples, e admira que, há mais tempo, não tenha conhecido o belo marido que possui!...
— O que estás dizendo, rapaz? — bradou Leôncio com gesto ameaçador; — repete; que estás dizendo?
— O mesmo que o senhor acaba de ouvir, — redargüiu Henrique com firmeza, — e fique certo que o seu indigno procedimento não há de ficar por muito tempo oculto à minha irmã.
— Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?...
— Faça-se de esquerdo!... pensa que não sei tudo?... enfim adeus, senhor Leôncio: eu me retiro, porque seria altamente inconveniente, indigno e ridículo da minha parte estar a disputar com o senhor por amor de uma escrava.
— Espera, Henrique... escuta...
— Não, não; não tenho negócio nenhum com o senhor. Adeus! — disse e retirou-se precipitadamente.
Leôncio sentiu-se esmagado, e arrependeu-se mil e uma vezes de ter provocado tão imprudentemente aquele leviano e estouvado rapaz.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.