Por José de Alencar (1853)
Como o povo, tambem elle acreditava que á intercessão de N. Senhora da Gloria devia a constante fortuna que uma só vez não o desajudára; e por isso tinha uma devoção fervorosa pela divina padroeira de seu navio, a quem não esquecia de encommendar-se nos transes mais arriscados.
Tornando de suas correrias marítimas, Ayres da parte que lhe ficava liquida depois de repartir a cada marujo seu quinhão, separava metade para o dote de Maria da Goria e a entregava a Duarte de Moraes.
A menina crescêra, estava moça, e a mais prendada em formosura e virtude que havia então n'este Rio de Janeiro. Queria-lhe Ayres tanto bem como á sua irmã, si a tivesse; e ella pagava com usura esse affecto d'aquelle que desde criança aprendêra a estimar conto o melhor amigo de seu pai.
O segredo do nascimento de Maria da Gloria fôra respeitado, conforme o desejo de Ayres. Além do corsario e dos dois esposos, só o gageiro Bruno, agora piloto da escuna, sabia quem realmente era a gentil menina; para ella como para os mais, seus verdadeiros pais foram Duarte de Moraes e Ursula.
Nas torres os sinos a repicarem trindades, e da escuna um batel a largar emquanto roda o cabrestante ao pezo da ancora. Vinha no batel um cavalheiro de aspecto senhoril, cujas feições
tostadas ao sol ou crestadas pela salsugem do mar respiravam a energia e a confiança. Si nos combates o nobre parecer, assombrando-se com a sanha guerreira, infundia terror no inimigo, fóra, e ainda mais n'este momento, a expansão jovial banhava-lhe o semblante de affavel sorriso.
Era Ayres de Lucena, esse cavalheiro; não mais o gentil e petulante mancebo; porém o homem tal como o tinham feito as pelejas e trabalhos do mar.
Na ponta da ribeira, que actualmente occupa o arsenal de guerra, Duarte de Moraes com os seus ancioso esperava o momento de abraçar o amigo, e seguia com a vista o batel.
De seu lado Ayres tambem já os avistára do mar, e não tirava d'elles os olhos.
Ursula estava á direita do marido, e á esquerda Maria da Gloria. Esta falava a um mancebo que tinha junto de si, e com a mão lhe apontava o batel já proximo a abicar.
Apagou-se o sorriso nos labios de Ayres, sem que elle soubesse explicar o motivo. Sentíra um aperto no coração, que se dilatava n'aquella abençoada hora da chegada com o prazer de volver á terra, e sobretudo á terra da patria, que é sempre para o homem, o gremio materno.
Foi pois já sem effusão e com o passo moroso que saltou na praia, onde Duarte de Moraes abria-lhe os braços. Depois de receber as boas vindas de Ursula, voltou-se Ayres para Maria da Gloria que desviou os olhos, retrahindo o talhe talvez na intenção de esquivar-se ás caricias que sempre lhe fazia o corsario á chegada.
— Não me abraça, Maria da Gloria? perguntou o commandante com um tom de magua.
Córou a menina, e correu a esconder o rosto no seio de Ursula.
— Olhem só! Que vergonhas!... disse a dona a rir.
No emtanto Duarte de Moraes, pondo a mão na espadua do mancebo, dizia a Ayres;
— Este é Antonio de Caminha, filho da mana Engracia, o qual vai agora para tres semanas nos chegou do reino, onde muito se fala de vossas proezas; nem são ellas para menos.
Dito o que, voltou-se para o mancebo.
— Aqui tens tu, sobrinho, o nosso homem; e bem o vêdes que foi talhado para as grandes cousas que tem obrado.
Saudou Ayres cortezmente ao mancebo, mas sem aquella affabilidade que a todos dispensava. Esse casquilho de Lisboa, que de improviso e a titulo de primo se introduzira na intimidade de Maria da Gloria, o corsarion ão o via de boa sombra.
Quando á noite se recolheu a casa, levou Ayres a alma cheia da imagem da moça. Até aquelle dia não vira n'ella mais do que a menina graciosa e gentil, com quem se habituára a folgar. N'aquella tarde, em vez da menina, achou uma donzella de peregrina formosura, que elle contemplára enlevado nas breves horas passadas a seu lado.
IX
PECADO
Ia agora Ayres de Lucena todos os dias á casa de Duarte de Moraes, quando de outras vezes apenas lá apparecia de longe em longe.
Havia ahi um encanto que o attrahia, e este, pensava o corsario não ser outro sinão o affecto de irmão que votava a Maria da Gloria, e crescera agora com as graças e prendas da formosa menina.
Mui frequente era encontral-a Ayres a folgar em companhia do primo Caminha, mas á sua chegada ficava ella toda confusa e atada, sem animo de erguer os olhos do chão ou proferir palavra.
Uma vez, em que mais notou essa mudança, hão se poude conter Ayres que não observasse :
— Estou vendo, Maria da Gloria, que lhe metto medo?
— A mim, senhor Ayres? balbuciou a menina.
— A quem mais?
— Não me dirá porque?
— Está sempre alegre, mas é ver-me e fecharse como agora n'esse modo triste e...
— Eu sou sempre assim.
— Não; com os outros não é; tornou Ayres fitando os olhos em Caminha.
Mas logo tomando um tom galhofeiro continuou :
— Sem duvida lhe disseram que os corsarios são uns
demonios!...
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.