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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Carlos — Ta, ta, ta... Ande, deixe-me fazer uma obra de caridade; para isso é que somos frades. Entre para este quarto, dispa lá o seu vestido e mande-me, assim como a toca e xale. Ó Juca? Juca? (Empurrando ROSA:) Não se demore. (Entra JUCA.)Juca, acompanha esta senhora e faze o que ela te mandar. Ande, senhora, com mil diabos! (ROSA entra no quarto a esquerda, empurrada por CARLOS.)

CENA XIV

Carlos, só —Bravo, esta é de mestre! (Chegando à janela:) Lá estão eles conversando com o vizinho do armarinho. Não tardarão a dar com o rato na ratoeira, mas o rato é esperto e os logrará. Então, vem o vestido?

Rosa, dentro — Já vai.

Carlos —Depressa! O que me vale é ser o mestre de noviços catacego e trazer óculos. Cairá na esparrela(Gritando:) Vem ou não?

Juca, traz o vestido, toca e o xale — Esta.

Carlos — Bom. (Despe o hábito.) Ora vá, senhor hábito. Bem se diz que o hábito não faz o monge. (Dá o hábito e o chapéu a JUCA.) Toma, leva à moça. (JUCA sai.) Agora é que são elas... Isto é mangas? Diabo, por onde se enfia esta geringonça? Creio que é por aqui... Bravo acertei. Belíssimo! Agora a toca. (Põe a toca.) Vamos ao xale... Estou guapo; creio que farei a minha parte de mulher excelentemente.

(Batem na porta.) São eles. (Com voz de mulher.) Quem bate?

Mestre, dentro — Um servo de Deus.

Carlos, com a mesma voz — Pode entrar quem é.

CENA XV

Carlos, Mestre de Noviços e três meirinhos

Mestre — Deus esteja nesta casa

Carlos — Humilde serva de Vossa Reverendíssima...

Mestre — Minha senhora, terá a bondade de perdoar-me pelo incômodo que lhe damos, mas nosso dever...

Carlos — Incômodos, Reverendíssimo Senhor?

Mestre — Vossa Senhoria há de permitir que lhe pergunte se o noviço CARLOS, que fugiu do convento...

Carlos — Psiu, caluda!

Mestre — Heim?

Carlos — Está ali...

Mestre — Quem?

Carlos — O noviço...

Mestre — Ah!

Carlos — E preciso surpreendê-lo ...

Mestre — Estes senhores oficiais de justiça nos ajudarão.

Carlos — Muito cuidado. Este meu sobrinho dá-me um trabalho...

Mestre — Ah, a senhora é sua tia?

Carlos — Uma sua criada.

Mestre — Tenho muita satisfação.

Carlos — Não percamos tempo. Fiquem os senhores aqui do lado da porta, Muito calados; eu chamarei o sobrinho. Assim que ele sair, não lhe dêem tempo de fugir; lancem-se de improviso sobre ele e levem-no à força.

Mestre — Muito bem

Carlos — Diga ele o que disser, grite como gritar, não façam caso, arrastem-no.

Mestre — Vamos a isso.

Carlos — Fiquem aqui. (Coloca-os junto à porta da esquerda.) Atenção. (Chamando para dentro:) Psiu! Psiu! Saia cá para fora, devagarinho! (Prevenção.)

CENA XVI

Os mesmos e Rosa vestida de frade e chapéu na cabeça.

Rosa, entrando — Já se foram? (Assim que ela aparece, o Mestre e os meirinhos se lançam sobre ela e procuram carregar até fora.)

Mestre— Está preso. Há de ir. E inútil resistir. Assim não se foge... (Etc., etc.)

Rosa, lutando sempre — Ai, ai, acudam-me! Deixem-me! Quem me socorre? (Etc.)

Carlos —Levem-no, levem-no. (Algazarra de vozes; todos falam ao mesmo tempo, etc. CARLOS, para aumentar o ruído, toma um assobio que está sobre a mesa e toca. Juca também entra nessa ocasião, etc. Execução.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO SEGUNDO

A mesma sala do primeiro ato

CENA I

Carlos, ainda vestido de mulher, está sentado e Juca à janela.

Carlos — Juca, toma sentido; assim que avistares teu padrasto lá no fim da rua, avisa-me.

Juca — Sim, primo.

Carlos — No que dará tudo isto? Qual será a sorte de minha tia? Que lição! Desanda tudo em muita pancadaria. E a outra, que foi para o convento?... Ah, ah, ah, agora é que me lembro dessa! Que confusão entre os frades quando ela se der a conhecer! (Levantando-se:) Ah, ah, ah, parece-me que estou vendo o D. Abade horrorizado, o mestre de noviços limpando os óculos de boca aberta, Frei Maurício, o folgazão, a rir-se às gargalhadas, Frei Sinfrônio, o austero, levantando os olhos para o céu abismado, e os noviços todos fazendo roda, coçando o cachaço. Ah, que festa perco eu! Enquanto eu lá estive ninguém lembrou-se de dar-me semelhante divertimento. Estúpidos! Mas, o fim de tudo isto? O fim?...

Juca, da janela — Aí vem ele!

Carlos —Já? (Chega à janela.) É verdade. E com que pressa! (Para JUCA:) Vai tu para dentro. ( JUCA sai.) E eu ainda deste modo, com este vestido... Se eu sei o que hei de fazer?... Sobe a escada...Dê no que der... (Entra no quarto onde esteve

ROSA)

CENA II

Entra Ambrósio; mostra no semblante alguma agitação.

(continua...)

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