Por Martins Pena (1838)
Aninha − Sim senhor, Sr. Juiz. Há muito tempo que o amo, e como achei ocasião, aproveitei.
Juiz − A menina não perde ocasião! Agora, o que está feito está feito. O senhor não irá mais para a cidade, pois já está casado. Assim, não falemos mais nisso. Já que estão aqui, hão de fazer o favor de tomar uma xícara de café comigo, e dançarmos antes disto uma tirana. Vou mandar chamar mais algumas pessoas para fazerem a roda maior. (Chega à porta.) Ó Antônio! Vai à venda do Sr. Manuel do Coqueiro e dize aos senhores que há pouco saíram daqui que façam o favor de chegarem até cá. (Para JOSÉ:) O senhor queira perdoar se o chamei de biltre; já aqui não está quem falou.
José − Eu não me escandalizo; Vossa Senhoria tinha de algum modo razão, porém eu me emendarei.
Manuel João − E se não se emendar, tenho um reio.
Juiz − Senhora Dona, queira perdoar se ainda a não cortejei. (Cumprimenta.)
Maria Rosa, cumprimentando − Uma criada de Sua Excelência.
Juiz − Obrigado, minha senhora... Aí chegam os amigos.
CENA ÚLTIMA
Os mesmos e os que estiveram em cena.
Juiz − Sejam bem-vindos, meus senhores. (Cumprimentam-se.) Eu os mandei chamar para tomarem uma xícara de café comigo e dançarmos um fado em obséquio ao Sr. Manuel João, que casou sua filha hoje.
Todos − Obrigado a Vossa Senhoria.
Inácio José, para Manuel João − Estimarei que sua filha seja feliz.
Os outros − Da mesma sorte.
Manuel João − Obrigado.
Juiz − Sr. Escrivão, faça o favor de ir buscar a viola. (Sai o ESCRIVÃO.) Não façam cerimônia; suponham que estão em suas casas... Haja liberdade. Esta casa não é agora do Juiz de paz − é de João Rodrigues. Sr. Tomás, faz-me o favor? (TOMÁS chega-se para o JUIZ e este o leva para um canto.) O leitão ficou no chiqueiro?
Tomás − Ficou, sim senhor.
Juiz − Bom. (Para os outros:) Vamos arranjar a roda. A noiva dançará comigo, e o noivo com sua sogra. Ó Sr. Manuel João, arranje outra roda... Vamos, vamos! (Arranjam as rodas; o ESCRIVÃO entra com uma viola.) Os outros senhores abanquem-se. Sr. Escrivão, ou toque, ou dê a viola a algum dos senhores. Um fado bem rasgadinho... bem choradinho...
Manuel João − Agora sou eu gente!
Juiz − Bravo, minha gente! Toque, toque! (Um dos atores toca a tirana na viola; os outros batem palmas e caquinhos, e os mais dançam).
Tocador,
cantando - Ganinha, minha senhora,
Da maior veneração;
Passarinho foi-se embora.
Me deixou penas na mão.
Todos - Se me dás que comê,
Se me dás que bebê,
Se me pagas as casas,
Vou morar com você. (Dançam.)
Juiz − Assim, meu povo! Esquenta, esquenta!...
Manuel João − Aferventa!
Tocador,
cantando -Em cima daquele morro
Há um pé de ananás;
Não há homem neste mundo
Como o nosso Juiz de paz.
Todos - Se me dás que comê,
Se me dás que bebê,
Se me pagas as casas,
Vou morar com você.
Juiz − Aferventa, aferventa!...
FIM
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Juiz de Paz da Roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17003 . Acesso em: 29 jan. 2026.