Por José de Alencar (1864)
Bem diferente nisso de certas moças que passeiam nas salas reclinadas ao peito de seus pares, Emília não consentia que a manga de uma casaca roçasse nem de leve as rendas do seu decote.
Uma noite, dançando com o Amorim, sócio de seu pai, recolheu a mão de repente, e deixou cair sobre ele um dos seus olhares de Juno irritada:
—Ainda não sabe como se dá a mão a uma senhora? disse com desprezo.
Proferidas estas palavras, sentou-se no meio da quadrilha, e nunca mais dançou com ele. O Amorim em uma das marcas, tinha-lhe inadvertidamente tomado a mão, em vez de apresentar-lhe a sua.
Frequentava as reuniões de D. Matilde um moço oficial de marinha, o tenente Veiga. Tinha uma nobre figura e o cunho da verdadeira beleza marcial. Era um dos mais ferventes adoradores de Emília. Tirando-a para dançar uma noite, ela ergueu se e ia dar-lhe o braço; mas retraiu-se logo e tornou a sentar.
—Desculpe-me. Não posso dançar! —Por que motivo, D. Emília? Ela calou-se; mas fitou-lhe as mãos com olhos tão expressivos que o moço compreendeu e corou:
—Tem razão. Tirei as luvas para tomar chá e esqueci-me de calçá-las.
Estes e muitos outros pequenos fatos eram comentados no salão de D. Matilde pelas outras moças, que não perdoavam a Emília tantas superioridades, como ela tinha; pois cingia-lhe a fronte a tríplice coroa da beleza, do espírito e da riqueza.
Muitas vezes eu assistia calado aos tiroteios dessa guerra feminina.
Alguma rival, observando a suprema delicadeza do gesto casto e gracioso de Emília, ralava-se de inveja e dizia para as amigas:
—Ai gentes! Não me toquem!...
—É mesmo um alfenim! acudia outra.
—Pois há quem suporte aquilo? —Ora! É rica! Tem bom dote! —Já repararam? Nem ao mano ela se digna apertar a mão! —Tem medo que não lha quebrem, coitadinha!...
—Não falem assim! dizia Júlia voltando-se com um gesto suplicante. Que mal lhes fez Mila?... Pois olhem! Eu acho aqueles modos tão bonitos!...
E Julinha, a flor exale da sua fragrância, tomava a defesa da prima, e fazia com uma doce melancolia o elogio daquele suave matiz de pudicícia, que ela, mísera, tão cedo perdera. Ouvindo-a, eu me sentia atraido para essa boa alma, que Deus tinha feito para a família e a mãe desterrara para o mundo.
Apesar da esquivança constante de Emília, eu observei, depois de algumas semanas, que ela tinha um círculo especial de admiradores, onde escolhia habitualmente seus pares.
Esses felizes preferidos obtinham, além do favor da costumada contradança, um largo intervalo de conversa íntima.
Nessas ocasiões ela falava pouco; apenas de espaço a espaqo dizia algumas palavras; mas escutava com visível interesse, séria umas vezes, outras sorrindo.
Quando confirmei esta minha observação, senti n'alma o agridoce dos prazeres, que à semelhança do vinho se derrancam no coração.
—É uma namoradeira! murmurou minha alma vingada, porém triste.
A beleza sem mácula dessa menina humilhava-me; mas a profanação de sua alma, que eu lobrigava naquelas preferências de sala, me confrangeu o coração.
—Não é por ela que eu sinto, pensava eu. É por sua família, especialmente por seu pai a quem estimo. Como procurava eu iludir-me!
V
POR esse tempo Emília fez a sua entrada no Cassino.
—Já viu a rainha do baile? disseram-me logo que cheguei.
—Ainda não. Quem é? —A Duartezinha.
—Ah! Realmente, a soberania da formosura e elegância, ela a tinha conquistado. Parecia que essa menina se guardara até aquele instante, para de improviso e no mais fidalgo salão da corte fazer sua brilhante metamorfose. Nessa noite ela quis ostentar-se deusa; e vestiu os fulgores da beleza, que desde então arrastaram após si a admiração geral.
Seu trajo era um primor do gênero, pelo mimoso e delicado.
Trazia o vestido de alvas escumilhas, com a saia toda rofada de largos folhos. Pequenos ramos de urze, com um só botão cor-de-rosa, apanhavam os fofos transparentes, que o menor sopro fazia arfar. O forro de seda do corpinho, ligeiramente decotado, apenas debuxava entre a fina gaza os contornos nascentes do gárceo colo; e dentre as nuvens de rendas das mangas só escapava a parte inferior do mais lindo braço.
Era o toque severo do pudor corrigindo a túnica da vestal imolada à admiração ardente das turbas. Quando Emília sentava-se, abatendo com a mão afilada os rofos da Escócia, parecia-me um cisne colhendo as asas à margem do lago, e arrufando as níveas penas. Quando erguia-se e coleava o talhe flexível fazendo tremular as brancas roupagens, lembrava o gracioso mito da beleza, que surgiu mulher da espuma das ondas.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.