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#Biografias#Literatura Brasileira

Como e por que sou romancista

Por José de Alencar (1873)

Que satisfação íntima não tive eu, quando um estudante que era então o inseparável amigo de Otaviano e seu irmão em letras, mas hoje chama-se o Barão de Ourém, releu com entusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem dúvida, pelo nome de pseudo-autor! É natural que hoje nem se lembre desse pormenor; e mal saiba que todos os cumprimentos que depois recebi de sua cortesia, nenhum valia aquele espontâneo movimento.

Os dois anos seguintes pertencem à imprensa periódica. Em outra ocasião escreverei esta, uma das páginas mais agitadas da minha adolescência. Daí datam as primeiras raízes de jornalista; como todas as manifestações de minha individualidade, essa também iniciou-se no período orgânico.

O único homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade, foi o político. Ou não tinha vocação para essa carreira, ou considerava o governo do estado coisa tão importante e grave, que não me animei nunca a ingerir-me nesses negócios. Entretanto eu saía de uma família para quem a política era uma religião e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de nossa história.

Fundamos, os primeiranistas de 1846, uma revista semanal sob o título – Ensaios Literários.

Dos primitivos colaboradores desse periódico, saudado no seu aparecimento pôr Otaviano e Olímpio Machado, já então redatores da Gazeta Oficial, faleceu, ao terminar o curso, o Dr. Araújo, inspirado poeta. Os outros aí andam dispersos pelo mundo. O Dr. José Machado Coelho de Castro é presidente do Banco do Brasil; o Dr. João Guilherme 

Whitaker é juiz de direito em São João do Rio Claro; e o conselheiro João de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministério e no parlamento, repousa das lides políticas no remanso da vida privada. 


VI

Foi somente em 1848 que ressurgiu em mim a veia do romance.

Acabava de passar dois meses em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão fagueiras recordações da infância, ali nos mesmos sítios queridos onde nascera.

Em Olinda onde estudava meu terceiro ano e na velha biblioteca do convento de São Bento a ler os cronistas da era colonial, desenhavam-se a cada instante, na tela das reminiscências, as paisagens de meu pátrio Ceará.

Eram agora os seus tabuleiros gentis; logo após as várzeas amenas e graciosas; e pôr fim as matas seculares que vestiam as seras como a ararróia verde do guerreiro tabajara.

E através destas também esfumavam-se outros painéis, que me representavam o sertão em todas as suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam até os Andes, os raios caudalosos que avassalam o deserto, e o majestoso São Francisco transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.

Cenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino dez anos antes, ao atravessar essas regiões em jornada do Ceará à Bahia; e que agora se debuxavam na memória do adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas frescas da palheta cearense.

Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto d’O Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou peço menos um protagonista, uma cena e uma época.

Recordo-me de que para o martírio do Padre Francisco Pinto, morto pelos índios do Jaguaribe, se volvia meu espírito com predileção. Intentava eu figurá-lo na mesma situação em que se achou o Padre Anchieta, na praia de Iperoíg; mas sucumbindo afinal à tentação. A luta entre o apóstolo e o homem, tal seria o drama, para o qual de certo me faleciam as forças.

Atualmente que, embora em cena diversa, já tratei o assunto em um livro próximo a vir a luma, posso avaliar da dificuldade da empresa.

Súbito todas aquelas lucubrações literárias apagaram-se em meu espírito. A moléstia tocara-me com sua mão descarnada ; e deixou-me uma espécie de terror da solidão em que tanto se deleitava o meu espírito, e onde se embalavam as cismas e devaneios de fantasia. Foi quando desertei de Olinda, onde só tinha casa de estado, e aceitei a boa hospitalidade de meu velho amigo Dr. Camarim, então colega de ano e um dos seis da colônia paulistana, a que também pertenciam o conselheiro Jesuíno Marcondes e o Dr. Luís Álvares.

Dormiram as letras, e creio que também a ciência, um sono folgado. De pouco se carecia para fazer então em Olinda um exame sofrível e obter a aprovação plena. Em novembro regressei à Corte, com a certidão precisa para a matrícula do 4º ano,. Tinha cumprido o meu dever.

Nessas férias, enquanto se desenrolava a rebelião de que eu vira o assomo e cuja catástrofe chorei com os meus olhos, refugiei-me da tristeza que envolvia nossa casa, na literatura amena.

Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assinatura em um gabinete de leitura que então havia à Rua da Alfândega, e que possuía copiosa coleção das melhores novelas e romances até então saídos dos prelos franceses e belgas.

(continua...)

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