Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — Escuta: há vinte cinco anos aquela mulher supunha-se amada por ti, e viu em Hortênsia uma rival preferida, quando com esta te ligaste em casamento. O desprezo de um homem abre no seio da mulher uma ferida envenenada que nunca cicatriza. A ofensa, foste tu que a fizeste, mas a mulher desprezada detesta ainda mais que ao ofensor a rival que triunfou. Assim, pois, diz a lógica, que Fabiana aborrece profundamente a tua esposa.
Maurício — Viste ainda há pouco como ela beijou-a com ardor?
Anastácio — Judas também beijou a Cristo poucas horas antes de vendê-lo. Tua mulher escapou outrora à vingança de Fabiana, porque esta, casando com um oficial do nosso exército, teve de acompanhá-lo para o Rio Grande do Sul donde só voltou há dois anos, depois de viúva.
Maurício — Estás perfeitamente informado da sua história.
Anastácio — Estabelecendo a sua residência nesta capital, Dona Fabiana dissipa loucamente a medíocre fortuna que lhe deixou seu marido, e mancha-lhe o nome honrado, conquistando uma reputação tristemente famosa. É uma libertina, para quem são apenas vãos prejuízos alguns dos preceitos que constituem a moral das famílias: sua casa é o ponto de reunião de um círculo licencioso; sua conversação espalha princípios desmoralizadores, e o se exemplo é uma lição corruptora.
Maurício — És severo demais, e por isso, sem o pensar, te fazes o eco de indignas calúnias.
Anastácio — Cometeste o erro de abrir s portas de tua casa à natural inimiga de tua mulher. Tu...que se importa ela contigo?...uma mulher nunca fere um homem, quando tem uma mulher para ferir; minha cunhada está defendida por um passado que a abona, e pela idade precisa para escapar às ciladas de algum galanteio que a leve á desonra; mas leonina, moça e bela, aí está, e Dona Fabiana, envenenando a vida inteira de Leonina, de um só golpe fará a tua desgraça e a da sua antiga rival. Maurício! Abre os olhos! Por aquela rua foi um algoz arrastando consigo a sua vítima.
Maurício — Faz-me tremer, Anastácio!
Anastácio — E, supondo extinto o ódio de Dona Fabiana, não bastam os seus princípios demasiadamente livres e sua reputação dilacerada pelo público, para que o dever te mande afastar Leonina de sua companhia? Um pai que expõe sua filha às conseqüências das relações perigosas, não é um pai, é um louco, para não ser um monstro. Oh! quando uma pobre moça, uma filha pervertida pela más companhias se deixa corromper, e se avilta, o mundo antes de castigá-la com o seu desprezo, devia primeiro cuspir na face do pai desnaturado que a levou pelo caminho do vício. Era isto, que eu precisava dizer-te: agora podes ir fazer os teus cumprimentos a Dona Fabiana.
Maurício — Dezoito anos de ausência da corte puderam tornar-te hoje, e apesar da tua instrução, como um estrangeiro no meio dela; desconheces os costumes e os usos da alta sociedade, e confundes a civilização com a licença.
Anastácio — No Rio de Janeiro, como em todas as capitais do mundo, a alta sociedade conta duas classes de freqüentadores que a deslustram: uma, é dos imorais e libertinos, que dela devia ser expelidos como indignos; a outra, é a dos elegantes caricatos, ridículos macaqueadores dos grandes; pobres tolos que são castigados em sua própria vaidade: a gente que te cerca, meu irmão, pertence a essas duas classes, e tu fazes parte da última.
Maurício — Anastácio, é demais!
Anastácio — Qual demais! Eu tenho ainda que dizer-te um milhão de verdades amargas...
Maurício — Pois eu não as ouvirei, agora ao menos; e fica certo de que nem sempre são os mais avisados aqueles que presumem ter mais juízo que os outros. (Vai-se)
Anastácio — Vai, abre porém os olhos, Maurício! (Seguindo-o) Porque por aquela rua foi um algoz arrastando a sua vítima!
CENA III
Anastácio, e logo Henrique.
Anastácio — Eis aí um homem que tem uma cabeça de ferro; mas tão oca como um cabaço sem miolo!
Henrique — Meu tio, o que vossa mercê praticou hoje comigo chama-se uma traição: foi provocar-me a um passeio no Jardim Botânico, sabendo que vinham aqui passar o dia pessoas que me olham com o mais insultuoso desprezo, e obriga-me, para não encontrá-las, a correr a medo para as alamedas mais solitárias e afastadas, como se eu fora um miserável criminoso.
Anastácio — E vossa mercê, chegou há quatro meses da Europa com fumaças de artista de gênio; foi ao baile, apaixonou-se por sua prima que o não conhecia, e que voltou-lhes as costas, mal soube que o seu namorado era um pintor; então, lembrouse vossa mercê do seu tio da roça; correu a Minas, confessou-me o seu amor, pôsme ao fato da vida que levam seus tios da cidade, e arrancou-me da fazenda, sob o pretexto de que só eu podia salvá-los.
Henrique — E ainda bem que veio...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.