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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

BENJAMIM – Não, senhora; será de tenor; mas só por culpa da natureza que me deu por engano garganta de homem (Cantam)

BENJAMIM – Dagoberto o cavaleiro

Sem pajem nem escudeiro

Do torneio a liça entrou

JOANA, BRITES e INÊS – Viseira baixa e no escudo

Belo mote que diz tudo

INÊS – “De Beatriz escravo sou”

TODOS – De Beatriz escravo sou.

BENJAMIM – Dez cavaleiros desmonta

Dos mais já nenhum afronta

O paladim vencedor.

JOANA, BRITES e INÊS – Quem é, o conde pergunta

Quem é a condessa ajunta.

INÊS – E Beatriz murmura amor!

TODOS – E Beatriz murmura amor.

BENJAMIM – Dagoberto triunfante

Ao conde chega ofegante,

Ergue a vieira e lhe diz:

JOANA, INÊS e BRITES – Não sou barão mas guerreiro,

Fui armado cavalheiro;

INÊS – E escravo sou de Beatriz.

TODOS – Escravo sou de Beatriz.

BENJAMIM – Dagoberto espera e o conde

Olhando a filha, responde:

Cavaleiro, sê feliz!

JOANA, INÊS e BRITES – Quem é paladim tão bravo

De Beatriz não seja escravo,

INÊS – Seja esposo de Beatriz.

TODOS – Seja esposo de Beatriz.

BRITES – A senhora Antonica da Silva canta muito bem.


Cena VI

Inês, Benjamim, Joana, Brites e Matinho assustado.


MARTINHO – Um oficial seguido de muitos soldados tem já a casa cercada, e quer entrar por ordem do vice-rei.

JOANA – Oh!... e Peres ausente!...que será?... (Inês aflita).

BENJAMIM – Claro como o dia! vem prender-me... e eu não me escondo mais...

entrego-me.

INÊS —(Aflita) —Não!... não!...

BENJAMIM – Sim: só me assusta o ridículo (A Joana) Minha senhora, me empreste um casaco e um colete do Sr. Peres... Calções eu trago por baixo das saias.

JOANA – Não; meu marido me recomendou a segurança de sua pessoa...

INÊS – Brites, vai escondê-lo atrás do altar da capela... depois sai e tranca a porta...

JOANA – É um recurso... leva-o, Brites, vá senhor...

BENJAMIM – Perdão! quero entregar-me preso...

INÊS – E eu não quero!... (Terna) peço-lhe que vá... entende?... eu peço que vá...

BENJAMIM – Ah! eu vou! (À parte) Positivamente... agora foram-se as

aparências!... (Segue Brites e vai-se)

MARTINHO (Vindo do fundo) – Um soldado já está de sentinela ao portão...

JOANA – Faze entrar o oficial (Martinho vai-se: Joana à parte) O lhe peço de Inês, e a obediência do rapaz tem dente de coelho... mas agora não é tempo de tomar contas...

estou a tremer...


Cena VII

Inês, Joana, Alferes Paula, soldados, gente da casa a observar.


PAULA – Em nome e por ordem do senhor vice-rei conde da Cunha!...

JOANA – Que manda o senhor vice-rei!

PAULA – Minha senhora, incumbido de importante diligência, tenho de correr a sua casa em busca severa.

JOANA – Meu marido está ausente: vou mandar chamá-lo já.

PAULA – É inútil: trago ordens precisas, e não posso esperar. Vou proceder à busca.

JOANA – Pode ao menos dizer-me com que fim?...

PAULA – O Sr. Peres Nolasco tem asilado em sua casa um rapaz que se disfarça vestido de mulher, e veio ontem da vila de Macacu. ... chama-se Benjamim.

INÊS – E perseguido cruelmente; porque deu e devia dar uma bofetada no capitãomor de Macacu.

JOANA – Menina!...

PAULA – A senhora o sabe? ... pois eu venho prender esse valentão Benjamim.

INÊS – Aqui o tem: sou eu.

JOANA – Oh!...

PAULA (A Inês) – Está preso.

JOANA – Não! esta é Inês, é minha filha!.

INÊS (Alto a Joana) – Minha senhora, eu agradeço a sua nobre generosidade... não devo abusar mais...

PAULA – Vamos!... siga para diante... (A Inês).

JOANA – Mas eu lhe juro que esta é minha filha!

INÊS (Ao oficial) – Conceda um momento à gratidão do pobre asilado... devo abraçar a minha protetora (Abraçando Joana) Mamãe, não tenha medo; enquanto vou presa, salve Benjamim e mande avisar a meu padrinho. (A Paula) Estou às ordens.

JOANA – Senhor oficial, veja o que faz! não pode levar minha filha! não pode!...

(Atirando-se a Inês).

PAULA (Apartando Joana) – Minha senhora... retire-se!...

JOANA – Não leve minha filha!... ela se chama Inês!... não a leve!... o Benjamim está escondido lá dentro... eu lho trago!...

INÊS – Obrigado, minha senhora!... mas é inútil.

PAULA – E esta? pretende fazer-me crer que uma verdadeira donzela e de família honesta deseje ir presa para um quartel de soldados?... (A Inês) Como te chamas? ...

INÊS – Benjamim.

PAULA – Marcha para diante!

JOANA – Minha filha!... doida!... senhor oficial, é minha filha!... (Agarrando-se a Inês).

(continua...)

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