Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Autos#Literatura Portuguesa

Auto da Festa de São Lourenço

Por José de Anchieta (1587)

Com efeito quiseste abrasar a jeito o virtuosos São Lourenço. Hoje te castigo e venço e sobre as brasas te deito para morrer, segundo penso.

(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois levam o seu.)

Vinde aqui e aos malditos conduzi para em bom queimarem, seus corpos sujos tostarem, na festa em que os seduzi para cozidos bailarem

(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas dos imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor, o que as más cabeças quebra, sou um chefe de valor e hoje me decido por me chamar Cururupeba.

Como eles,

mato os que estão em pecado, e os arrasto em minhas chamas. Velhos, moços, jovens, damas, tenho sempre devorado. De bom algoz tenho fama.

QUARTO ATO

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e no fim acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno vossa grande devoção que tendes, e com razão, a Lourenço, o mártir digno

de toda a veneração,

determinam, por seus rogos e martírio singular, a todos sempre ajudar, para que escapeis dos fogos em que os maus se hão de queimar.

Dois fogos trazia n’alma, com que as brasas resfriou, a no fogo em que se assou, com tão gloriosa palma, dos tiranos triunfou.

Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, e, como servo leal, por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal.

Outro foi o Amor fervente de Jesus, que tanto amava, que muito mais se abrasava com esse fervor ardente

que co’o fogo, em que se assava,

Estes o fizeram forte. Com estes purificado como ouro refinado, padeceu tão crua morte por Jesus, seu doce amado.

Estes vos manda o Senhor a ganhar vossa frieza, para que vossa alma acesa de seu fogo gastador, fique cheio de pureza.

Deixai-vos deles queimar como o mártir São Lourenço, e sereis um vivo incenso que sempre haveis de cheirar na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)

Pecador, sorves com grande sabor o pecado, e não ficas afogado com teus males!

E tuas chagas mortais não sentes, desventurado!

O inferno como seu fogo sempiterno, Já te espera, se não segues a bandeira da cruz, sobre a qual morreu Jesus para que tua morte morra.

Deus te envia esta mensagem com amor, a mim que sou seu Temor me convém declarar o que contém para que temas ao Senhor.

(Glosa e declaração do recado.)

Espantado estou de ver, pecador, teu vão sossego. Com tais males a fazer, como vives sem temer, aquele espantoso fogo?

Fogo que nunca descansa, mas sempre provoca a dor, e com seu bravo furor dissipa toda a esperança

ao maldito pecador.

Pecador, como te entregas tão sem freio ao vício extremo? Dos vícios de que estás cheios engolindo tão às cegas a culpa, com seu veneno.

Veneno de maldição tragas sem nenhum temor, e sem sentir sua dor, deleites da carnação sorves com grande sabor.

Será o sabor do pecado muito mais doce que o mel, mas o inferno cruel depois te dará um bocado

bem mais amargo que o fel

Fel beberás sem medida, pecador desatinado, tua alma em chamas ardida. Esta será a saída do deleite do pecado.

Do pecado que tu amas Lourenço tanto escapou que mil penas suportou, e queimado pelas chamas, por não pecar, expirou.

Ele a morte não temeu. Tu não temes o pecado no qual et tem enforcado Lucifer, que te afogou, e não ficas afogado.

Afogado pela mão do Diabo pereceu Décio com Valeriano, infiel, cruel tirano, no fogo que mereceu.

Tua fé merece a vida, mas com pecados mortais quase a tiveste perdida,

e teu Deus, bem sem medida, ofendeste, com teus males.

Com teus males e pecados, tua alma de Deus alheia, da danação na cadeia há de pagar com os danados a culpa que a incendeia.

Pena sem fim te darão dentre os fogos infernais teus deleites sensuais. Teus tormentos dobrarão, e tuas chagas mortais . Que mortais são tuas feridas pecador. Porque não choras? Não vês que nestas demoras, estão todas corrompidas, a cada dia pioras?

Pioras e te confinas, mas teu perigoso estado, na pressa e grande cuidado com que ao fogo te destinas, não sentes, desventurado?

Oh, descuido intolerável de tua vida! Tua alma está confundida no lodo, e tu vais rindo de tudo, não sentes tua caída!

Oh, traidor!

Que negas teu Criador, Deus eterno, que se fez menino terno por salvar-te. E tu queres condenar-te e não temes ao inferno!

Ah, insensível! Não calculas o terrível espanto, que causará o juiz, quando virá com carranca muito horrível, e à morte te entregará.

E tua alma será sepultada em pleno inferno, onde morte não terá mas viva se queimará com seu fogo sempiterno!

(continua...)

123456789
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →