Por Padre Antônio Vieira (1674)
A reverência do Tejo a Isabel, e a irreverência do Jordão à Arca.
23. Outra demonstração em maiores corpos. Chega Santa Isabel a Santarém, para atravessar o Tejo. Estava prevenida uma galé real para a pessoa, gôndolas e bargantins toldados para a corte: mas, em aparecendo Isabel na praia, abre-se o rio de repente, levantam-se dois muros de Cristal de uma e outra parte, os peixes, como às janelas, em cardumes e atônitos, pasmando da maravilha, e Isabel caminhando sobre o seu bordão por aquela rua nova, juncada de limos verdes, mas sobre areias de ouro. Não é afetação minha, que já o disse o Espírito Santo em caso semelhante: Campus germinans de profundo ninio.23 Passemos agora de Portugal à Palestina, e do Tejo ao Jordão. Para o Jordão à vista da Arca do Testamento, cabeça também coroada: Facies que supra coronam aureum per circuntum24 – Pinta o caso Davi, e exclama: Quid est tibi mare quod fugisti, et tu Jordanis, quia conversus es retrorsum (Sl. 113, 5)? Rio que paras, mar que foges, que é o que viste? – Bizarra e elegante prosopopéia de Davi, mas em pequeno teatro; maior é o nosso. Que rio e que mar eram aqueles com quem falava Davi? O mar era o Mar Morto, chamado por outro nome Vallis Salivarum, porque era uma saliva do oceano.25 Cuspiu o Oceano, e fez aquele mar. O rio era o Jordão, composto de dois regatos, um o Jor, outro o Dan, que para terem cabedal com que ir morrer no Mar Morto, se ajuntaram e fizeram companhia um com outro. Esta era a grandeza do rio, a quem aquele pequeno lago engolia de um bocado, como diz o profeta: Et fiduciam habet quod influat Jordanis in os ejus.26
24. Comparai-me agora rio com rio, e mar com mar. Assim como a Arca do Testamento passou por aquela parte onde as águas do Jordão se misturam com as do Mar Morto, assim passou Isabel por aquela parte onde as águas do Tejo se confundem com as do Oceano. O Oceano é aquele pego vastíssimo e imenso, que ele só é todo o elemento da água, e, estendendo infinitos braços, está recebendo como nas pontas dos dedos o tributo de todos os rios do universo. Este foi o mar que se retirou e fez pé atrás à vista de Isabel. E o rio, qual era? Aquele soberbíssimo Tejo, primeiro domador do mesmo Oceano, a quem pagaram páreas em pérolas o Indo e o Ganges, não coroados de juncos e espadanas, como o Padre Tibre, mas com grinaldas de rubis e capelas de diamantes. Este soberbo mar, este soberbo rio são os que fizeram praça a Isabel, e lhe descobriram nova terra para que pisasse. Davi, respondendo à sua pergunta, disse: Afacie Domini mota est terra, afacie Dei Jacob.27 E aqui está o maior excesso de maravilha. Lá o Jordão parado, cá o Tejo parado; lá a Arca coroada, cá Isabel coroada; lá a Arca caminhando a pé enxuto, cá Isabel a pé enxuto; mas lá, porque o rio viu a face de Deus: cá, porque viu a face de Isabel; lá, porque viu a face do Senhor de Israel; cá porque viu a face da Rainha de Portugal: Afacie Domini, afacie Dei Jacob. Que Deus visto refreie a corrente dos rios, isso é ser Deus; mas que, à presença de Isabel, lhe façam os rios a mesma reverência, vede se é ser rainha mais que rainha? E se não, perguntai ao mesmo Tejo, quantas vezes passaram por ele as outras rainhas, quais eram as suas cortesias. Passavam as Teresas, passavam as Dulces, passavam as Mafaldas, passavam as Urracas, as Leonoras, as Luísas, as Catarinas, e o Tejo, que fazia? Corria como dantes. Porém a Isabel – falemos em frase de Roma – a Isabel firmava-se o Tejo, às outras não se firmava, porque as outras eram rainhas, Isabel era rainha e santa, e por isso maior rainha.
§VI
O milagre das rosas e a conversão de uma substância em outra, poder divino, reconhecido pelo demônio na tentação do monte, e provado por Cristo na instituição do Sacramento. Os arremedos dos reis. O mais a que pode chegar um rei é pôr nomes, como Adão aos animais. O corpo incorrupto da santa, e o corpo incorrupto de Cristo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.