Por Padre Antônio Vieira (1647)
Vamos agora metendo a mão neste sagrado lado aberto, não como Tomé incrédulo, mas fiel; e abrindo os sete selos, um por um, como o mesmo cordeiro crucificado os abriu, vejamos os divinos tesouros de graças, que naquela larga escritura se nos prometem e comunicam. Em uma alma, ou consciência embaraçada, podem geralmente concorrer sete impedimentos para não conseguir prontamente os meios de sua salvação: pecados reservados, excomunhões, interditos, votos, enfermidades, dívidas temporais aos homens, e espirituais a Deus. E todos estes impedimentos (com poucas exceções, em que me não possa deter, e se contêm na mesma bula) se nos tiram e facilitam por ela. Acha-se carregada vossa alma, não só com pecados, mas com pecados de dificultosa absolução, quais são os reservados? Tomai a Bula da Santa Cruzada, abri o primeiro selo: Aperuit, e ela dá poder ao confessor que elegerdes, para vos absolver de todos, por graves e enormes que sejam, e não só reservados aos prelados ordinários, mas à mesma Sé Apostólica. Estais ligado com a gravíssima censura da excomunhão, tendes horror, como deveis ter, de vós mesmo, vendo-vos da comunicação dos fiéis? Abri o segundo selo: Aperuit, e por graça e faculdade da mesma bula, sereis absolto da excomunhão, ou seja a jure, ou ab homine, e restituído ao antigo estado. Fecharam-se-vos as portas da Igreja, por estar interdita a paróquia, a cidade, ou reino onde viveis? Nomeia desta tristeza e desconsolação pública, abri o terceiro selo: Aperuit, e pelo privilégio que debaixo dele se vos concede, não só podereis assistir privadamente aos divinos ofícios, e receber os sacramentos, mas se durante o interdito morrerdes, gozareis de eclesiástica sepultura. Fizestes votos com que vos obrigastes a Deus e aos santos mais do que o tempo, as ocupações e a pouca devoção vos dão lugar? Abri o quarto selo: Aperuit, e o confessor, por virtude da bula, vo-los comunicará de modo que facilmente os possais cumprir. Sois enfermo ou achacado, fazemvos dano à saúde os comeres quadragesimais? Abri o quinto selo: Aperuit, e de conselho do médico e confessor, não só na quaresma, mas em todos os outros dias proibidos podereis comer licitamente o que julgardes conveniente à vossa fraqueza. Adquiristes e possuís bens alheios, não sabeis a quem os haveis de restituir, porque ou foram adquiridos vagamente, ou não aparece o dano, não podeis restituir inteiramente por pobreza, ou não quereis por avareza, como é mais certo? Abri o sexto selo: Aperuit, e a tudo vos dará a bula tão fácil remédio, que com pouca despesa satisfaçais muita dívida. Finalmente deveis a Deus as penas de vossos pecados, que sois obrigado a pagar, ou nesta, ou na outra vida, como as estão pagando os do purgatório, dos quais igualmente vos compadeceis, ou pelas obrigações do sangue, ou pelas de cristão? Abri o sétimo selo: Aperuit, e achar-vos-eis rico de tantas abundâncias de graças e indulgências, que plenamente, e plenissimamente, possais satisfazer para vós, e por todos os defuntos, a quem se estender a vossa caridade.
Oh! misericórdia do lado de Cristo! Oh! tesouros da Madre Igreja, que dele se enriqueceu! Ele tão infinito em lhos entregar, e ela tão liberal em no-los repartir! Agora entendereis a cláusula desta visão do Apocalipse. Diz S. João que quando o cordeiro abriu os sete selos daquela misteriosa escritura, prostrados diante do seu trono, lhe deram infinitas graças todos os que estavam no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e debaixo do mar: Et omnem creaturam, quae in coelo est, et super terram, et quae in eo, omnes audivi dicentes sedenti in throno, et Agno: Benedictio, et honor, et gloria. E quem são estes que davam tantas graças a Deus e ao cordeiro que abriu os sete selos, não só no céu, senão na terra e no mar, senão também debaixo da terra e debaixo do mar? São todos aqueles que por diversos modos gozam os benefícios da bula. Os do céu, são os bem-aventurados; os da terra e do mar, são os vivos; os de debaixo da terra, e debaixo do mar, são os defuntos. E todos davam graças a Deus e a Cristo morto pela abertura dos sete selos da Santa Cruzada, porque bem-aventurados, vivos, e defuntos, todos por diverso modo lhe devem o maior benefício. Os bem-aventurados, porque por meio da bula subiram direitos à glória. Os vivos, porque por meio da bula se restituem à graça. Os defuntos e do purgatório, porque por meio da bula se livram das penas. Vede atém onde alcançam, e se são grandes e universais para todos as graças daquele l ***********************rcês e graças, não basta só estarem impetradas e concedidas, nem basta terdes em vosso poder as portarias, os alvarás e as provisões para que entre o dado e o efetivo, entre a escritura e a posse, entre o papel e o que ele diz, não se atravessem muitos embaraços e muito tempo de esperas e ainda de desesperações, com muita razão me perguntareis: Estas graças e indulgências tão grandes que se nos concedem nas bula, quando se alcançam? Já pagamos a esmola, já se escreveu o nosso nome na bula, já temos em nosso poder, mas o efeito, ou o efetivo, quando há de ser? A palavra que se segue o diz: Et continuo: Logo sem dilação, logo sem tardança, logo verdadeiramente logo. E digo verdadeiramente por que não cuide ou receie alguém que o logo da Santa Cruzada é como os logos dos vossos tribunais.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.