Por Padre Antônio Vieira (1669)
Esta foi a cegueira de Eva, e esta é a dos filhos de Eva. Vae qui dicitis malum bonum et bonum malum.18 Andam equivocados dentro em nós o mal com o bem, e o bem com o mal, não por falta de olhos, mas por erro e engano da vista. No Paraíso havia uma só árvore vedada; no mundo há infinitas. Tudo o que veda a lei natural, a divina e as humanas, tudo o que proíbe a razão e condena a experiência, são árvores e frutas vedadas. E tal é o engano e ilusão da nossa vista, equivocada nas cores com que se disfarça o veneno, que em vez de vermos o mal certo, para o fugir, vemos o bem que não há, para o apetecer: Vidit quod bonum esset. Daqui nasce, como da vista de Eva, a ruína original do mundo, não só nas consciências e almas particulares, mas muito mais no comum dos estados e das repúblicas. Caiu a mais florente e bem-fundada república que houve no mundo, qual era antigamente a dos hebreus, fundada, governada, assistida, defendida pelo mesmo Deus. E qual vos parece que foi a origem ou causa principal de sua ruína? Não foi outra senão a cegueira dos que tinham por oficio ser olhos da república. E não porque fossem olhos de tal maneira cegos que não vissem, mas porque viam trocadamente uma coisa por outra, e em vez de verem o que era, viam o que não era. Assim o lamentou o profeta Jeremias nas lágrimas que chorou em tempo do cativeiro de Babilônia sobre a destruição e ruína de Jerusalém: Prophetae tui viderunt tibi falsa.
Os olhos daquela república, que não só tinham por ofício ver o presente, senão também o futuro, eram os profetas, que por isso se chamavam videntes. E diz Jeremias à enganada e já desenganada Jerusalém, que os seus profetas lhe viam as coisas falsas: Prophetae tui viderunt tibi falsa. Notai muito a palavra viderunt. Se dissera que profetizavam, ou pregavam, ou aconselhavam, ou finalmente diziam coisas falsas, bem estava: mas dizer que as viam: viderunt tibi! Se as coisas eram falsas, não eram, e se não eram, como as viam? Porque essa era a cegueira dos olhos da triste república: olhos que não viam o que era, e viam o que não era, nem havia de ser. Os profetas verdadeiros viam o que era, os profetas falsos viam o que não era, e porque a cega república se deixou governar por estes olhos, por isso se perdeu. Jeremias, profeta verdadeiro, dizia que se sujeitassem a Nabucodonosor, porque se assim o não fizessem, havia de tomar segunda vez sobre Jerusalém e destruí-la de todo. Pelo contrário, Ananias, profeta falso, pregava e prometia que Nabuco não havia de tornar, antes havia de restituir os vasos sagrados do templo que tinha saqueado (Jer. 28). E porque estes oráculos falsos, como mais plausíveis, foram os cridos, foi Jerusalém de todo destruída e assolada, e as relíquias de sua ruína levadas a Babilônia. Miquéias, profeta verdadeiro, consultado sobre a guerra de Ramot Galaad, disse que via o exército de Israel derramado pelos campos como ovelhas sem pastor (3 Rs. 22). Pelo contrário, Sedecias, com outros quatrocentos profetas falsos, persuadiam à guerra e asseguravam a vitória E porque el-rei Acab quis antes seguir a falsidade lisonjeira de muitos, que a verdade provada e conhecida de um, posto que entrou na batalha sem coroa e disfarçado, para não ser conhecido, um só tiro de uma seta perdida matou o rei, desbaratou o exército, e sentenciou a vitória pelos inimigos. Assim viram Miquéias e Jeremias o que havia de ser, e os demais o que não foi, para que abram os olhos os príncipes e vejam quais são os olhos por cuja vista se guiam. Guiem-se pelos olhos dos poucos que vêem as coisas como são, e não pelos dos muitos e cegos que vêem uma coisa por outra: Viderunt tibi falsa.
Mas como pode
ser, para que demos a razão desta segunda cegueira, como a demos da primeira,
como pode ser que haja homens tão cegos, que com os olhos abertos não vejam as
coisas como são? Dirá alguém que este engano de vista procede da ignorância. O
rústico, porque é ignorante, vê que a lua é maior que as estrelas; mas o
filósofo, porque é sábio e mede as quantidades pelas distâncias, vê que as
estrelas são maiores que a lua. O rústico, porque é ignorante, vê que o céu é
azul; mas o filósofo, porque é sábio e distingue o verdadeiro do aparente, vê
que aquilo que parece céu azul, nem é azul, nem é céu. O rústico, porque é
ignorante, vê muita variedade de cores no que ele chama arco-da-velha; mas o
filósofo, porque é sábio e conhece que até a luz engana, quando se dobra, vê
que ali não há cores, senão enganos corados e ilusões da vista. E se a
ignorância erra tanto olhando para o céu, que será se olhar para a terra? Eu
não pretendo negar à ignorância os seus erros, mas os que do céu abaixo padecem
comumente os olhos dos homens, e com que fazem padecer a muitos, digo que não
são da ignorância, senão da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os
engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies, para que vejam umas
coisas por outras. E esta é a verdadeira razão, ou semrazão, de uma tão notável
cegueira. Os olhos vêem pelo coração, e assim como quem vê por vidros de
diversas cores todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se
tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.