Por Padre Antônio Vieira (1655)
Cecideruntque in die illa quasi virginti tria millia hominum.13 Seguiu-se deixar Deus o povo e não o querer acompanhar nem assistir com sua presença, como até ali fizera: Non ascendam tecum, quia populus durae cervicis es.14 Seguiu-se querer Deus acabar para sempre o mesmo povo, como sem dúvida fizera se as orações de Moisés não aplacaram sua justa ira: Dimitte me, ut irascatur furor meus, et deleam eos.15 Seguiu-se finalmente e seguiram-se todos os outros castigos que Deus então lhes ameaçou e reservou para seu tempo, de que em muitas centenas de anos e de horrendas calamidades se não viram livres os hebreus: Ego autem in die ultionis visitabo et hoc peccatum eorum. Que vos parecem as conseqüências daquele pecado? Cuidais que não há mais que fazer um bezerro? Cuidais que não há mais que entronizar um bruto, ou seja cepo de pau ou cepo de ouro? As mesmas conseqüências se seguem dos indignos que vós fazeis e pondes nos lugares supremos. E se não, olhai para elas. As leis divinas e humanas quebradas, os povos despojados e empobrecidos, as mortes de homens a milhares, uns na guerra por falta de governo, outros na paz por falta de justiça, outros nos hospitais por falta de cuidado, sobretudo a ira de Deus provocada, a assistência de sua proteção desmerecida, as províncias, o reino, e a mesma nação inteira arriscada a uma extrema ruína, que se não fora pelas orações de alguns justos, já estivera acabada; mas não estão ainda acabados os castigos. E sobre quem carrega o peso de todas estas conseqüências? Sobre aqueles que fazem e que sustentam os autores e causadores delas. Ego feci, ego feram.16 Vós o fizestes, vós o pagareis. E que com esta carga às costas andem tão leves como andam? Que lhes não pese este peso na consciência? Que os não morda este escrúpulo na alma? Que os não inquiete, que os não assombre, que os não traga fora de si esta conta que hão de dar a Deus? E que sejam cristãos? E que se confessem? Mas não condeno, nem louvo; admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
V
Ubi? Onde? Escrúpulo dos que assinalam o onde e dos que o aceitam. Onde põe Portugal seus ministros da fé e dos estados. Quanto mais longe, tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança. A parábola dos talentos e a honestidade dos criados nas regiões longínquas. O profeta Habacuc e o escrúpulo dos escolhidos.
Ubi? Onde? Esta circunstância: onde, tem muito que reparar em toda a parte, mas no Reino de Portugal muito mais, porque ainda que os seus ubis, ou os seus ondes, dentro em si podem compreender-se facilmente, os que tem fora de si, são os mais diversos, os mais distantes e os mais dilatados de todas as monarquias do mundo. Tantos remos, tantas nações, tantas províncias, tantas cidades, tantas fortalezas, tantas igrejas catedrais, tantas particulares na África, na Ásia, na América, onde põe Portugal vice-reis, onde põe governadores, onde põe generais, onde põe capitães, onde põe justiças, onde põe bispos e arcebispos, onde põe todos os outros ministros da fé, da doutrina, das almas. E quanto juízo, quanta verdade, quanta inteireza, quanta consciência e necessária para distribuir bem estes ondes, e para ver onde se põe cada um. Se pondes o cobiçoso onde há ocasião de roubo, e o fraco onde há ocasião de defender; e o infiel onde há ocasião de renegar, e o pobre onde há ocasião de desempobrecer, que há de ser das conquistas e dos que com tanto e tão honrado sangue as ganharam? Oh! que os sujeitos que se põem nestes lugares são pessoas de grande qualidade e de grande autoridade, fidalgos, senhores, títulos! Por isso mais. Os mesmos ecos de uns nomes tão grandes em Portugal, parece que estão dizendo onde se hão de pôr. Um conde? Onde? Onde obre proezas dignas de seus antepassados, onde despenda liberalmente o seu com os soldados e beneméritos, onde peleje, onde defenda, onde vença, onde conquiste, onde faça justiça, onde adiante a fé e a Cristondade, onde se honre a si, e à pátria, e ao príncipe que fez eleição de sua pessoa. E não onde se aproveite e nos arruine, onde se enriqueça a si e deixe pobre o estado, onde perca as vitórias e venha carregado de despojos. Este há de ser o onde: Ubi?
E quanto este
onde for mais longe, tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança e de
maiores virtudes. Quem há de governar e mandar três e quatro mil léguas longe
do rei, onde em três anos não pode haver recurso de seus procedimentos nem
ainda notícias, que verdade, que justiça, que fé, que zelo deve ser o seu! Na
parábola dos talentos, diz Cristo que os repartiu o rei: Unicuique secundum
propriam virtutem (Mt. 25,15): A cada um conforme a sua virtude, e que se
partiu para outra região, dali muito longe, a tomar posse de um reino: Abiit in
regionem longinquam accipene sibi negnum (Lc 19,12). Se isto fora história,
pudera ter sucedido assim, mas se não era história senão parábola, porque não
introduz Cristo ao rei e aos criados dos talentos na mesma terra, senão ao rei
em uma região muito longe, e aos criados dos talentos em outra? Porque os
criados dos talentos ao longe do rei é que melhor se experimentam, e ao longe
do rei é que são mais necessários. Nos Brasis, nas Angolas, nas Goas, nas
Malacas, nos Macaus, onde o rei se conhece só por fama e se obedece só por
nome, aí são necessários os criados de maior fé e os talentos de maiores
virtudes. Se em Portugal, se em Lisboa, onde os olhos do rei se vêem e os
brados do rei se ouvem, faltam a sua obrigação homens de grandes obrigações,
que será in regionem longinquam? Que será naquelas regiões remotíssimas, onde
orei, onde as leis, onde a justiça, onde a verdade, onde a razão, e onde até o
mesmo Deus parece que está longe?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.