Por Padre Antônio Vieira (1669)
E se Deus concede por pecados, para que os bem-despachados se não desvaneçam, também nega por merecimentos, para que os maldespachados se consolem. Ouvi um grande reparo sobre o nosso Evangelho. Pedem os Zebedeus as cadeiras; não lhas quer Cristo conceder, porque não sabiam o que pediam, como pouco há dissemos; mas antes de lhas negar, pergunta-lhes se se atreviam a beber o cálix, isto é, se se atreviam a morrer por ele, e como ele: Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum? Responderam ambos animosamente que sim. E porque o testemunho deste valor e serviço não ficasse só na fé dos pretendentes, o mesmo Cristo o qualificou e justificou, e lhes deu certidão autêntica de que assim era ou havia de ser: Calicem quidem meum bibetis. E depois destas provações tão miúdas e tão exatas, então lhes respondeu: Non est meum dare vobis. Pois se o Senhor lhes havia de negar o que pediam, para que lhes pede serviços? Para que lhes examina merecimentos? Para que lhes prova o valor? Para que lhes certifica a morte e o sangue do cálix? Se todas estas diligências foram feitas para sobre elas lhes fazer a mercê, bem estava; mas para negar o que pediam? Sim. Porque também o negar é mercê. E porque mercês, e mais se são grandes, se não devem fazer senão por grandes serviços, e muito justificados, por isso Cristo lhes pediu primeiro os serviços, e os justificou por verdadeiros, para lhes fazer a mercê de lhes negar o que pediam. De maneira que aos filhos de Israel concedeu-lhes Deus a sua petição por pecados, e aos filhos de Zebedeu negou-lhes Cristo a sua por merecimentos, porque no primeiro caso o conceder era castigo, e no segundo, o negar foi mercê. E como o despacho dos que se têm por bemdespachados pode ser castigo, e grande castigo, e pelo contrário, o dos que se têm por mal-despachados pode ser mercê, e grande mercê, tão pouca razão têm uns de se desvanecer, como outros de se desconsolar, pois uns e outros não sabem o que lhes deram, assim como não sabem o que pedem: Nescitis quid petatis.
§VI
Platão, Sócrates e a oração. Os pedidos de bens temporais e os males eternos. S Paulo escusado, e o demônio atendido. S. João Crisóstomo e o pedido dos Zebedeus. Os maus ministros e a justiça divina. A condenação de Cristo e dos ladrões, e a absolvição de Barrabás. Deus tem na sua mão os corações dos reis. S. Francisco Xavier e o pedido do Padre Simão. Doutrina de S. Paulo sobre a oração. A carta de Urias. A negação de Cristo e a predestinação.
Estou vendo,
senhores, que já me haveis desempenhado do que ao principio prometi, entendendo
que na primeira parte deste discurso vos preguei como a homens, e na segunda
como a cristãos. Não é assim, posto que nesta segunda parte falei tantas vezes
em Deus, atribuindo à sua justiça e providência os vossos bons ou maus
despachos. Até os gentios falaram deste modo, e conheceram isto mesmo só pelo
lume da razão e por serem homens, posto que sem fé. Sócrates, aquele grande
filósofo da Grécia, dizia que nenhuma coisa em particular se havia de pedir aos
deuses, senão em geral o que estivesse bem a cada um, porque isto só eles o
sabem, e os homens ordinariamente apetecemos o que nos fora melhor não
alcançar: Nihil ultra petendum a diis immortalibus arbitrabatur quam ut bona
tribuerent, quia ii demum scirent, quid unicuique esset utile, nos outem
plerumque id votis expetere, quod non impetrasse melius foret, diz Valério
Máximo, falando de Sócrates15. E Platão, para ensinar o método com que havíamos
de pedir a Deus, compôs esta oração: Jupiter da nobis bona, sive ea petamus
sive non; arce vero mala, etiam si ea ex errore petamus. Quer dizer: Júpiter,
dai-me o bem, ainda que vo-lo não peça, e livrai-me do mal, ainda que vo-lo
peça. Não conheciam a Deus aqueles filósofos, mas sabiam o que se deve pedir e
como se deve pedir a Deus. Pedir-lhe que nos dê o bem, ainda que lho não
peçamos, e que nos livre do mal, ainda que Iho peçamos, porque muitas vezes
pedimos o mal cuidando que é bem, e não pedimos o bem, cuidando que é mal, e só
Deus, que sabe o que nos está bem ou mal, nos pode dar o que nos convém. Assim
que até agora somente preguei como a homens, e por isso, todos os bens ou males
de que falei, foram do céu abaixo. Agora subamos mais acima, e dai-me atenção,
como cristãos, ao que brevemente me resta por dizer, que é o que sobre tudo
importa.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.