Por Eça de Queirós (1925)
Compreender-se-á facilmente que o jovem Alípio, tendo penetrado num meio mais elevado, habituado no Porto, onde estudara parte dos preparatórios, e depois em Coimbra, às convivências eruditas, cultivadas, educadas, se achava extremamente deslocado na companhia pobre e iletrada de seu pai. Quando, durante anos, se tem vivido pela imaginação com os heróis da História e do Romance, quando se tem o ouvido habituado à nobre linguagem dos Cíceros, dos Titos Lívios, quando se tem acostumado o espírito aos interesses da Ciência, da Lógica e da Metafísica –não é fácil suportar-se a conversação de pessoas que só se preocupam com pequenos interesses locais e «mexericos de vila pobre».
Depois das largas salas e dos vastos horizontes da Quinta dos Miguéis, a pequena casa do pai, com o chão atravancado de retalhos de fazenda e o ar abafado do cheiro acre dos estrugidos, a pequena vila escura, onde os vizinhos vão de noite despejar as imundícies, causavam aos costumes fidalgos daquele Noronha uma repulsa instintiva.
Já então revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habitações tapetadas, pelo serviço harmonioso de lacaios disciplinados. A pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta vez, mais tarde, quando ele subia o Chiado pelo meu braço, eu me vi forçado a afastar com dureza os pobres, que à porta do Baltresqui, ou da Casa Havanesa, vinham, sob o pretexto de filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola; o Conde, se os via muito perto, «ficava todo o dia enjoado». Todavia a sua caridade é bem conhecida, e o Asilo de S. Cristóvão, a que em parte deveu o seu título, aí está como um atestado glorioso da sua magnanimidade.
Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública devia estar naturalmente toda nas mãos de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.
Isto fazia necessariamente que parte da população «tiritasse de frio e rabeasse de fome». Era certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o sofrimento, lamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e discernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos, regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo apresentado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir perturbar com a expressão da sua face magra e com a narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade. «Isole-se o pobre!» dizia ele um dia na Câmara dos Deputados, sintetizando o seu magnífico projecto para a criação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga, onde.13 seriam acolhidos os miseráveis. Para conseguir a admissão, deveriam provar serem de maior idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias subversivas que, pela greve e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem, em dia de miséria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse). Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blasfemar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc., seria dada a cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos.
Mas, dir-se-á, o Estado, então sustenta-os de graça? Não, – poderia exclamar triunfantemente o Conde, mostrando as páginas admiráveis do seu regulamento, em que se estabelecia, com um profundo sentimento dos deveres do cidadão para com a cidade, que todo o pobre admitido seria forçado a uma considerável soma de trabalho, segundo as suas aptidões. O mais útil parágrafo, a meu ver, é aquele que determina que grupos de pobres sejam forçados a calçar as ruas, colocar as canalizações de gás, trabalhar em monumentos públicos, etc. Tais serviços, todos em favor da Câmara Municipal, obrigá-la- iam a concorrer para a despesa desta instituição, aliviando assim o Estado de uma grande parte dos gastos.
Uma vez admitidos, os recolhidos perderiam o direito de sair – a não ser que provassem que iriam dali ser empregados, de tal sorte que não lhes fosse possível recair nos acasos da miséria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.