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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a cabeça olhou um momento o Marrare.

Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a carnação de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia - pareceu a Pedro n'eses instantes alguma cousa d'immortal e superior á terra.

Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma pose de tedio - vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço, murmurou-lhe junto á face, na sua voz grossa e lenta:

- Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma garrafa de Champagne?

Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e dando um puchão aos punhos:

- Por uma dourada tarde d'outomno...

- André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o Champagne!

O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:

- O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...

Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta das Vozes d'Aurora, explicaria aquella gente da caleche azul n'uma linguagem christã e pratica!...

- Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!

Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão – uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se no deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica creatura, arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, trazendo nas mãos o oculo, o libretto, um saco de bonbons, o leque e o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre o seu collo eburneo e as suas tranças de oiro, que ella offerecia verdadeiramente a encarnação d'um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da assignatura:

- Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo do Sr. D. João VI!

O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do Portuguez. Mas o dito era d'elle, Alencar!

Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios. Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora, essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a ler novellas. Isto não podia satisfazer a soffreguidão de Lisboa. Fez-se uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á devassa.

E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores: muito moço, uma facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir a bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas encontrára lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo caes, de chinellas de esparto, á procura de embarque para a Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor n'uma plantação da Virginia... Emfim, quando reappareceu á face dos céos commandava o brigue Nova Linda, e levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova Orleans.

Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura e mal provada, claudicava aqui e além...

- E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.

(continua...)

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